Nós e os deuses
Uma voz,
vinda de um passado remoto, nos conta que um dia homens e mulheres formavam um
único ser – a Terra era habitada por seres hermafroditas. Um dia, Zeus – deus
todo poderoso e masculino – separou aquele ser integrado em duas partes desiguais;
o Homem e a Mulher. Desde então não houve mais uma satisfação completa e cada
uma das partes saiu em busca do que lhe faltava.
Segundo
Platão, portador deste mito, o amor nada mais é do que a nostalgia, sentida por
aquelas partes, da época em que eram um único ser.
Essa busca
serve de motivação para a própria vida. Tal um mecanismo de retroalimentação, a
vida pode encontrar, nela própria, os motivos para existir.
Gerada ao
acaso ou não, o que mais importa é que se tornou um meio travestido teleologicamente
de objetivo. É um paradoxo que se manifesta na vida porque é vida. Não há
compromissos com o concreto, com o consciente e com outra forma qualquer de
compromisso.
É
paradoxal, mas somos seres vivos que não sabemos o que seja a vida, ou, então,
temos tantas versões sobre ela que não somos capazes de construir uma ideia
clara sobre este fenômeno. A certeza que temos é a de que compartilhamos a vida
e nos comunicamos.
São muitas
as dúvidas e as certezas. Mas temos tempo. Somos parte da Vida que hoje se
esforça por encontrar aquele tempo onde era apenas um futuro, somos a vida que
procura entender por que está aqui, pisando este solo, voando este ar, nadando
esta água.
Buscamos
as respostas para estas perguntas com a força encontrada somente na saudade;
saudade de um futuro ainda não vivido, apenas desejado. Não importa se buscamos
as respostas por meio da Ciência ou da Filosofia. O objetivo é o mesmo:
responder perguntas sem respostas.
Do alto do
Olimpo. os deuses observam sua criação, observam os titãs que criaram que ainda
não homens, mas um dia serão. Serão os adultos vindos daqueles seres –
incompletos – que ajudaram a criar. Serão adultos cheios de crianças dentro de
si. Crianças sem nenhuma pressa de crescer.
Quando
pudermos ter certeza de nossa prisão, quando pudermos novamente olhar dentro
dos olhos dos deuses do Olimpo, eles nos verão de uma outra forma, não mais
como titãs mas como deuses seus irmãos.
O
reencontro com a parte que nos faltava é a fonte do grande poder dos homens.
Quando as partes se juntam, a antiga forma divina se refaz, a nostalgia é
aplacada, e aí, somente neste momento, retomamos a nossa condição divina e
podemos criar...
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