sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A última conquista

“Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutais pela Liberdade!”, clamava Charles Chaplin em O Grande Ditador. Essa exaltação encerra um inominável paradoxo – é preciso lutar para ser livre.
A liberdade é objeto de conquista.

É um Graal!

E deve ser assim, pois a liberdade não conquistada coteja-se a uma Constituição outorgada.

A luta está no homem que deve e tem que obter a liberdade almejada, para viabilizar a conquista da Paz. Paz sim, posto que são objetivos indissolúveis. A Paz e a Liberdade têm sido, para a Humanidade, a linha do horizonte. Como é longo o nosso existir! Como é longa nossa busca! Como é longa nossa espera!

Com a “quilha” da razão, abriremos caminho, avançaremos sabendo que o conceito absoluto de liberdade é destituído de respaldo na realidade física. O viver em sociedade nos impede de realizar conceitos absolutos. Não somos livres para morrer, assim como não somos livres para nascer. So-mos livres, sim, para odiar e para amar. Somos livres para fazer ou para sentir. Ser absolutamente livre, em seu sentido lato, é estar... morto! Enquanto habitarmos um mundo em que a cada dois segundos morre uma criança; enquanto habitarmos um planeta que gasta trilhões de dólares por ano em armamentos; enquanto não aprendermos a perder, estaremos apenas nos exercitando, ensaiando, para sermos livres.

A Segunda Guerra Mundial – assim como tantas outras – foi feita para acabar com todas as guerras. Em vez disso, convivemos, desde o seu término, com 150 outras guerras e com 20 milhões de mortos. Somos livres?

A realidade nos mostra que a paz não dá lucro! O capitalismo parece ser incompatível com a paz e o socialismo se mostrou incompatível com a liberdade.

Com o avanço da ciência, aprendemos que viemos do espaço. Fomos do ponto de vista da ma-téria, construídos dentro das estrelas. Em uma época já remota da criação, onde somente existia hidrogênio e hélio. As estrelas foram, lentamente, “cunhando” os outros átomos e “contaminando” a Galáxia com seus “restos mortais”. Viemos deles. Somos estrelas redivivas! Somos filhos dos céus. Reconhecer essa origem é, de certa forma, a liberdade suprema – que pode ultrapassar até mesmo a libertação da morte.

Ao identificarmo-nos como filhos das estrelas, tornamo-nos cidadãos do Cosmo. Os céus nos chamam. Precisamos retornar a casa. Retornemos às estrelas, mas o façamos em Paz. Retomar a casa é um ato de libertação. Retornar em Paz é um ato deificante. Que a última lágrima de dor este-ja rolando, por alguma face infantil. Que o último tiro de canhão seja um réquiem a toda uma era. A Idade das Trevas não terminou. Oxalá este último tiro seja ouvido, por todos nós, em breve... muito em breve...



Nós, os selenitas

Este ano de 2010 traz, em si, a marca de 41 anos da chegada do homem à Lua. Marca essa que nos permite pensar sobre toda a saga da espécie no planeta.

O homem deu seu mais majestoso passo em direção ao futuro – passeou na Lua. Foram passos seguros no andar, mas por detrás deles estava a respiração apreensiva de toda humanidade. É certo que os homens não foram mais os mesmos, após o histórico pouso da “Águia” em solo lunar, na-quele 20 de julho de 1969. Talvez seja somente superado pelo primeiro pouso humano em Marte, o legendário planeta vermelho que nos acena, inacessível, há séculos.

O espaço possui relações quase mágicas com os homens. Parece que sua infinitude, além de dilacerar o coração de Pascal, nos retrata a melancolia da eternidade e a brevidade de nosso existir.

Os astronautas retratam mitos, heróis modernos. Desafiando o desconhecido e o impalpável, são os novos “cowboys” que cavalgam o negro vazio do espaço numa tentativa, quem sabe quixotesca, de preenchê-lo com nossa presença; de trazer um saber que está pronto para ser “sabido”, ali, ao alcance não mais de nossas mãos, mas sim de nossas naves. Precisamos transcender-nos para adquirir, como nos ensinou Bertrand Russel, a liberdade do Universo.

Como será esta liberdade? Somos prisioneiros da gravidade e limitados pelos corpos. O primeiro passo é ter certeza de nossa prisão.

A imagem sempre recorrente dos primeiros homens andando na Lua surge mais uma vez. Fechamos os olhos e podemos ver as pegadas humanas ficando para trás a cada passo, lento e distante. Aquelas marcas são testemunhas perenes de que seres efêmeros puderam deixar seu “berço” e partir para o espaço, seres que, inalcançáveis, eram observados, de longe, por toda a humanidade. Foram, durante aquela expedição, os homens mais solitários da história. Suas lembranças ainda estão lá, na Lua, enquanto a Lua está aqui, em nossas lembranças.

Naquele 20 de julho, a Terra era um disco azul no céu de três homens; um dia, talvez ainda distante, a Terra será apenas um ponto, certamente um ponto azul, que estará perdido entre as estrelas. Os homens que pela primeira vez observarem nosso planeta desta forma terão uma certeza dentro de si, muito forte; a de que o homem está entrando para a comunidade do espaço, tornando-se cidadão do Cosmo.

Todas essas conquistas trazem direitos e deveres para nós. Ao conquistarmos um ambiente ainda não tocado por pés humanos, ficamos diante de um dilema ético de proporções planetárias. Até onde temos o direito de intervir no ecossistema de um outro mundo para torná-lo propício para nós? Será que, ao fazermos isso, não estaremos condenando à morte, em seu nascedouro, formas de vida que sequer podemos sonhar? Como nossos dejetos e microorganismos comportar-se-ão em um outro mundo? São perguntas que ainda não pudemos responder. Não há nem mesmo a certeza de que queremos respondê-las. Mas é imperioso que o façamos!

Existem sugestões no sentido de viabilizar o pouso e a permanência humana em Vênus, semeando certas bactérias em seus oceanos, para que com seu metabolismo, lentamente, as condições ambientais venusianas, hoje perniciosas aos homens, fossem mudadas para poder abrigar os futuros “colonos” humanos. Será, este, um projeto sustentável do ponto de vista ético? A dúvida mais forte é se temos o direito de “humanizar” o sistema solar. Alguns debates devem ser feitos até que todas essas questões estejam bem claras e toda uma ética de colonização espacial fique bem esclarecida. A preferência pelo planeta é da população nativa, em potência ou não, ou pelos seres inteligentes que lá cheguem? Lembro-me do Oeste Americano, dos Incas, dos Maias, dos nossos Índios...

Houve um tempo em que o primeiro amanhecer terrestre tomou seu lugar. Foi quando o ar tornou-se respirável e o solo cultivável. Foi aquele dia em que o palco ficou pronto, esperando pacientemente que os atores entrassem em cena. Até onde vai o nosso direito de intervir no teatro dos outros mundos? Estas imagens compõem uma ode à saga humana na conquista espacial e é, também, um réquiem nunca tocado à imensidão do Espaço que vai sendo diluída lentamente, enquanto. nos dirigimos a ele, enquanto nos integramos ao vazio. O caminho para as estrelas foi aberto. Partamos pois...em paz e em nome da humanidade.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Terras que vi, musas que não ouvi

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Manuel Bandeira



Vamos ver terras de nossa terra. Este é um chamado, um clamor que devemos ouvir com os ouvidos da alma, seja o que for uma alma...
Extrapolando o próprio conceito de terra, transformemo-la em Terra. Andemos por outras Terras, outros Mundos. O caminho está aberto, esperando por cavaleiros modernos, com as novas armaduras com elmos também reluzentes, que caminham no silêncio do espaço, sob o brilho de um Sol que não se põe, acompanhados da maior de todas as solidões, vivenciando o anátema – ou não – de encontrar-se consigo mesmo.

Lá vai o homem, tal qual um anjo moderno, girando e girando ao redor de nosso berço, olhando para ele de uma forma que poucos o fizeram. Agora, após aquele grito primevo, podemos saber e ter a certeza que ele é azul!

Nossa casa é azul... Nosso céu é azul... Abaixo de nosso domo azul, os homens não encontram a paz. Pena que a paz não seja azul...

Paradoxos permeiam as civilizações. “Como é linda a humanidade! Ò admirável mundo novo”, escreveu Shakespeare. Seria excesso de otimismo ou simplesmente esperança?

Se vencer milhões de homens em uma batalha é inútil, sendo a maior das vitórias vencer-se a si mesmo, conforme ensinou Buda, devemos lutar para vencermo-nos, pois, quando o conseguirmos, teremos vencido bilhões, e aí a inutilidade da batalha transmutar-se-á em vitó-ria. Na vitória de todos que estão abaixo de um céu azul, vivendo em um mundo azul.

À esperança – ou otimismo – do bardo somaremos ensinamentos esquecidos e chegare-mos lá. Onde? Nas terras de minha terra que vi...

Partamos, pois. Vamos em direção aos céus, acompanhados ou não, solitários se for pre-ciso, mas partamos! O silêncio espera para abraçar-nos e para ser abraçado. Que se vá o pequeno mensageiro e ancore, se puder, em algum porto do espaço.

Esta jornada aqui proposta deve ser feita em direção a nós mesmos. A alegoria do espaço é o espaço da mente, e, dentro dela, por ela, é que devemos – e podemos – viajar. O homem vem tentando executar essa viagem há milênios. Sentiu-se incapaz de fazê-la solitariamente e precisou criar entidades que o inspirassem a fazê-la.

Assim nasceram as Musas.

Companheiras abstratas dos homens, estavam sempre a dançar, nos sonhos dos justos, inspirando-os a seguir sempre em frente, ou para cima.

Os homens detêm características que são bastante peculiares, entre elas a de não confiar no que podem gerar, no que podem compreender e no que não podem.

Seres capazes de objetivar os contrários, os homens são levados a crer que tudo o que fa-zem tem causas fora deles mesmos. É aí que proliferam as Musas, oriundas da mitologia gre-ga.

Somente a certeza de que não somos criaturas nos levaria a confiar em nós mesmos. Mas aí não seria tão belo. Não teríamos a visão de Apolo dançando, na floresta, cercado de nove belas Musas.

Hoje sabemos que podemos pensar e nos inspirar sem que uma Musa entre em nossos so-nhos para agir diretamente em nosso espírito. O que faltou aos gregos foi criar uma décima Musa, aquela que teria de ser a mais poderosa e laboriosa: a Musa da Paz.

Que inspiração seria para os homens!

Não será exatamente por isso que ela foi “impedida” de nascer?

Mas como o que “ficou marcado foram terras que inventei”..., permitam que eu invente uma Terra na qual Ela existe. E, com certeza, será... azul.