quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Vulpes ad Personam Tragicam
Não parece provável que o avô de alguém tenha sido do tamanho de um ovo ou de uma cabeça de alfinete; que folhas comam luz; que baleias cantem um coro no fundo do oceano; que, quando olhamos uma estrela distante estejamos vendo o passado; no entanto, todas estas coisas são fatos, são reais.
Úrsula Le Guin
Quando eu era aluno do antigo ginásio no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro estudava latim – acho que o Pedro II era o único colégio que mantinha o latim em sua grade de ensino. O ano era 1966. O tempo passou e a memória conservou a imagem ilustrativa de um capítulo do livro na qual havia uma raposa olhando de perto uma máscara de tragédia – a personam tragicam.
A raposa se deslumbra com a beleza da máscara, fala com ela e não recebe resposta, então a pega e percebe: “Ò quanta beleza, mas não tem cérebro”.
É o anátema da aparência sem conteúdo. Muitas pessoas, objetos, fatos e interpretações têm somente aparência, uma pequena, mas eficaz análise mostra-nos que seus conteúdos são frívolos.
A Astronomia passou por sua fase de personam tragicam quando os homens admiravam o céu, deslumbravam-se com os eclipses, temiam os cometas e achavam que seus conteúdos eram divinos. Cada astro no céu já foi um deus e as manifestações meteorológicas eram ações daqueles deuses. Pouco a pouco os homens foram organizando o conhecimento, aprendendo a retirar um deus e a colocar uma informação em cada ponto do céu, assim o Mundo tornou-se uma personam tragicam diferente de todas, pois agora mostrava toda sua beleza e possuía conteúdo, o observador se imiscuiu com o observado – humanizou o Mundo e universalizou o homem.
Se o observador e o objeto são totalmente estranhos, se eles não dispõem nada em comum, então este objeto se encerra em sua opacidade, permanece refratário à indagação e à própria indiferença (aquilo pela qual o outro se constitui como tal), se torna ininteligível. O conceito de objetividade, então, assume um valor problemático, não mais assinala apenas uma censura, uma distância, porém ainda uma reciprocidade, uma solidariedade entre o observador e o observado; dá lugar ao paradoxo de um objeto que é objetivamente muito distante e subjetivamente muito concreto, é uma verdade que se coloca na intersecção de duas subjetividades (Lévi-Strauss, 1970).
Na trajetória na direção da obtenção do conteúdo para as aparências, a ciência passa por momentos bastante conturbados. Discute-se a existência do bóson de Higgs e se Plutão volta a ser chamado de planeta!
Lembremos Sartre:
(A imagem) não pode entrar na corrente da consciência a não ser que ela própria seja síntese e não elemento. Não há, não poderia haver imagens na consciência. A imagem é um ato e não uma coisa. A imagem é a consciência de alguma coisa (Sartre, 1978, p.107).
Aparentemente a bela imagem de Plutão e Caronte é apenas isso – bela. Mas não é assim, precisamos ver o âmago das necessidades da ciência e, uma das principais, é a eficiência da linguagem utilizada. Quando um cientista diz que dado líquido está a 76 ºC, todo e qualquer cientista em qualquer lugar do Universo sabe o que ele está falando, agora se alguém disser: “as mudas chegaram”, nunca saberemos se chegaram mulheres que não falam ou plantinhas!
No discurso científico deve haver sempre a preocupação de ser claro. A ambigüidade diminui a quantidade de informação que deve ser transmitida, ou pior, deturpa-a.
Uma notícia publicada em um jornal paulista de circulação nacional dizia:
(...) uma Portaria de dezembro de 1991, do Juizado de Menores (...) proíbe os menores de 18 anos de irem a motéis e rodeios sem a companhia ou autorização dos pais.
É óbvio que a companhia ou autorização dos pais é para ir aos rodeios e não aos motéis! A construção do parágrafo ficou obscura e o leitor ficou sem saber se o jornal se expressou mal ou se o juiz enlouqueceu.
Agora que chegamos ao consenso de que a linguagem científica deve ser clara e não ambígua[1] devemos ir até ao próximo patamar que é a análise da participação do observador no observado.
Quem observa o observador?
Um observador é aquele que observa, aquele que cumpre uma regra, aquele que estuda certos fenômenos, aquele que olha. Isso tudo quando a palavra ‘observador’ é um adjetivo, mas quando é substantivo, observador é
1 O indivíduo considerado relativamente ao ponto do Universo que ocupa e aos fenômenos que se passam em redor dele. 2 O que tem a seu cargo fazer observações científicas. 3 O que comparece a uma reunião internacional para conhecer das discussões, sem direito de palavra nem de voto (Dicionário Michaellis eletrônico).
O grande desafio dos cientistas é passar da definição 3 para a definição 2. Um leigo assiste a discussão, um especialista assiste à discussão! A posição do observador, em Astronomia, muda ao longo do tempo, tendo começado como “aquele que observa” no dia em que um “macaquinho” mais esperto olhou para o céu e ficou deslumbrado; até os dias atuais quando sabemos que o ato de observar influencia (e transforma!) o observado.
Os astrônomos não podem prescindir da conscientização de que a única ferramenta que está a nossa disposição é a observação. A Astronomia não pode realizar experimentos, quem os faz é o Universo, nós... observamos, e nunca temos direito a voto!
Os astrônomos medem o céu, mas devemos ter em mente que medir é algo tão passivo quanto meramente observar, uma vez que não medimos o que é, medimos o que vemos.[2]
Essa questão introduz uma antiga polêmica sobre o real e o observado. Qual é a interface entre esses dois conceitos? O Universo é uma entidade quadrimensional que se expande a partir do Big Bang em todas as direções, mas (e aqui há um grande mas!) o Universo observável – literalmente aquele que enxergamos – é esférico e geocêntrico, pelo simples fato de que observamos o Universo real a partir da Terra, e o fazemos em todas as direções gerando, assim, um Universo esférico cujo raio é do tamanho de nossa tecnologia.
A consciência de que temos acesso a uma interface que não sabemos quão representativa é da realidade, leva-nos a questionar o conteúdo científico de nosso “saber sabido”, mas a consciência de que somente teremos acesso a essa interface, com essa característica, leva-nos a buscar o “saber a ser sabido” – é a clareza sobre o passado que nos leva procurar no futuro.
Pergunta 1: Procurar como?
Pergunta 2: Procurar onde?
Pergunta 3: Procurar porque?
Resposta 1: Remexendo em casas de maribondos.
Resposta 2: Nos mitos e em nossas mentes.
Resposta 3: Por que procuramos alguma coisa? Para achá-la!
Marimbondos
Aristóteles tinha por princípio que a dúvida é o início da sabedoria e isso é um fato inegável, pois somente uma dúvida leva alguém a procurar respostas. Será que como corolário temos que se o homem um dia souber tudo, não tendo mais dúvidas, deixará sua própria condição humana? Será que o Universo reservou para nós a fina ironia de que se o Homo sapiens souber... deixa de ser Homo?
As buscas sempre envolvem remexer em alguma coisa. Em ciência essa alguma coisa é, geralmente, um conceito. Como disse Bachelard “o conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão”[3]. Já fomos iludidos pelo Geocentrismo, pela natureza atmosférica dos cometas, pela perfeição dos deuses e dos políticos...
Discutindo esse tema não é possível evitar a questão da realidade. O que é real? É o que vemos? É o que percebemos? Percebemos o real?
A relação do observador com o observado é um dos marimbondos mais venenosos que podemos encontrar. Por uma questão puramente didática, vamos chamar de Universo, tudo que existe, e de Mundo tudo que observamos. O Universo existe há cerca de 17 bilhões de anos, portanto muito antes de surgimos na Terra, mas o Mundo surgiu conosco, dura o tempo de nossas vidas e deixa de existir quando morremos. Isso significa que existem tantos Mundos quanto pessoas. Isso porque Mundo é um conceito e não uma coisa em si. O Universo prescinde do Mundo, mas a recíproca não é verdadeira.
É preciso ressaltar que não estamos defendendo aqui uma visão solipsista[4], longe disso. A definição de Mundo aqui apresentada é a de que cada pessoa vê o Universo com seus olhos, com sua miopia, com sua experiência anterior.
Deve-se lembrar que a linguagem humana permite formar proposições de que não se pode tirar nenhuma conseqüência, proposições que são, para dizer a verdade, completamente vazias de substância, embora produza em nossa imaginação uma espécie de imagem. Por exemplo, a afirmação de que pode existir, ao lado do nosso, outro Universo sem ter por princípio nenhuma relação com ele, não leva a consequência alguma, mas faz nascer em nosso espírito uma espécie de imagem. Evidentemente tal proposição não pode ser confirmada nem infirmada. Deve-se ser particularmente circunspecto no emprego do termo na realidade, pois conduz com muita facilidade a afirmações do gênero desta de que acabamos de falar (Heiseberg apud Bachelar, 1978, p. 153).
O termo realidade sempre esteve presente nas preocupações dos cientistas, principalmente dos astrônomos, pois o papel da Astronomia é montar um modelo do Universo partindo do Mundo.
Aqui ressalto dois trechos escritos por John Broockman (1941- ):
O homem cria instrumentos e depois se molda à imagem deles. A realidade é fabricada pelo homem. O Universo é uma invenção, uma metáfora (Broockman, 1988, p. 11).
Mais adiante:
Seja qual for a linguagem descritiva a que tenhamos chegado, o compreender a realidade torna-se a realidade. Não dizemos que o coração parece uma bomba, mas que ele é uma bomba (Broockman, 1988, p. 11).
Mitos e mentes
O exercício de pensar o Mundo desenvolve-se paralelamente à saga humana no planeta. Pensar o Mundo significa tentar explicá-lo, buscar compreender seu sentido. Existem várias formas para objetivarmos este fim. É neste momento do pensar que surgem os vários conceitos de verdade.
Uma das dimensões de sentido desta palavra sugere a idéia de fato consumado, terminado. Quando tratamos de ciência é preciso ter a mente em alerta para o fato de que a verdade pode ter outros significados além dos que são utilizados, por exemplo, ao lidarmos com os mitos. Não se pode argumentar diante de um mito. É algo terminado. Um conceito científico precisa conter a probabilidade de não ser eterno.
Uma importante característica do cientista é poder conscientizar-se da existência de dúvidas, é poder ficar perplexo diante do Universo.
Inúmeras vezes a ciência é cobrada para dar respostas. Aos cientistas, exige-se o saber! No entanto é importante poder dizer “não sei”! Como é importante poder ficar perplexo diante de uma maçã que cai, diante da vida que há em uma gota d’água, diante de uma estrela que brilha mais do que as outras. Fazer ciência é ter dúvidas, é experimentar o êxtase de procurar, é entronizar Dioniso.
Com base no saber copernicano, ficamos definitivamente derrotados, do ponto de vista do orgulho e da prepotência, mas demos um salto em direção a nos identificarmos como cidadãos do Cosmo! O Universo não foi feito para nós – e por nós – mas no Mundo temos um lugar marcado. Podemos nos identificar como parte integrante e não mais como a razão da existência. O que impulsionou tais concretizações foi poder perguntar, desconfiar e expor nossas dúvidas.
Nossos conceitos de verdade tiveram de ser revistos. Verdade é um limite, o limite do conhecimento quando os dados tendem para o real. O Geocentrismo já foi uma verdade, assim como a geração espontânea da vida também o foi. Quando um cientista fala sobre seu objeto de estudo, seu discurso parece conter sempre verdades. A rigor, o discurso científico é permeado de premissas de fatos que surgem – e soam – como verdades. É apenas uma forma, um método de poder transmitir conceitos para que a própria ciência possa seguir seu caminho. É preciso fazer a separação entre as pretensões da ciência e as dos cientistas.
Para incrementar nosso “rol” de problemas temos as restrições da linguagem.[5] O lingüista Benjamin Lee Whorf (1897-1941)[6] afirmou que é impossível um indivíduo fazer uma descrição imparcial da realidade por ser incapaz de contornar as restrições da linguagem.[7]
Tudo indica que a realidade transcende nossa capacidade de falar sobre ela.
A ciência não deve ter a expectativa (do cientista) de descrever o real. Seus métodos consistem em aproximações sucessivas que tendem montar uma imagem, uma versão do real.
Fazer ciência é tentar manipular o anárquico, ordenar o caos, sofrer por não conseguir, mas regozijar-se por ter tentado.
A busca
O homem desenvolve seu conhecimento por força dos limites. O infinitamente pequeno “ativou” a Mecânica Quântica, o infinitamente grande “ativou” a Cosmologia, o muito rápido “ativou” a Relatividade restrita, o muito denso “ativou” a Relatividade Geral. Estes nichos são os “berçários” do avanço científico – quando os níveis de realidades se apresentam aos homens eles procuram “frases” para descrevê-las.
A ciência aproximou-se do final do século XIX com duas certezas. Caso disparássemos uma flecha, conhecendo sua massa e sua velocidade, poderíamos calcular sua trajetória com bastante precisão, o mesmo era verdade para uma bola, para a Lua ou qualquer planeta. A outra certeza era que as ondas se propagavam “sacudindo” o meio de propagação. As ondas sonoras vibravam em meios materiais como a água, o ar e até mesmo a madeira.
O avanço das pesquisas com a luz trouxe os primeiros problemas para o início do século XX – o Mundo nunca mais seria o mesmo!
Foi provado que a luz era uma onda eletromagnética[8] que podia se propagar no ar (vemos o mundo à volta), na água (vemos os peixes) e no vácuo (vemos as estrelas). Como seria possível uma vibração propagar-se sem vibrar o meio de propagação? Afinal o vácuo não tinha nada a ser vibrado. Dessa perplexidade saiu o conceito de Éter. O éter seria uma “substância” especial que permearia o Universo e seria o meio de propagação da luz.
As pesquisas para determinar a velocidade da luz acabaram provando que a existência do Éter era bastante improvável. Medições feitas com a luz vinda dos céus em uma determinada data eram idênticas às medições feitas seis meses depois, o que era uma surpresa, pois a diferença de seis meses garantiria que durante a primeira medição a Terra estava percorrendo sua órbita com o sentido oposto ao que está seis meses depois! Essa medição determinou a morte do Éter e a luz ficou sem seu suporte.
As novidades foram se avolumando nas mesas dos cientistas até que chega o século XX e é dada à luz a Mecânica Quântica.
A concepção do Princípio da Incerteza por Heisenberg revolucionou o modo de se “ver” o Mundo. As “verdades” clássicas começaram a se mostrar como casos particulares e, como decorrência, ficou claro que estávamos diante de verdades relativas. Ficou evidente que o modus operandi do microcosmo não era o mesmo quando tratávamos do macrocosmo. O Universo mostrou ter dois pesos e duas medidas.
As trajetórias de flechas ou dos planetas continuaram a obedecer às leis clássicas da Mecânica newtoniana e às leis de Kepler, mas quando entramos no mundo subatômico, os acontecimentos se mostram exóticos. Heisenberg nos ensinou que quando medíamos com precisão a posição de um elétron, não éramos capazes de determinar, com precisão, sua velocidade e vice versa.
Os físicos tiveram que aprender que não temos controle sobre os acontecimentos cósmicos. O Universo esconde dados para a elaboração do Mundo.
No mundo macro tudo funciona conforme a cartilha clássica. Podemos prever onde um planeta estará em um ano, dois ou mesmo cinqüenta. Podemos prever os eclipses e as passagens dos cometas e tudo com base na Mecânica Clássica. Agora temos consciência de que quando encontramos um elétron e sabemos sua posição, não saberemos onde estará daqui a um minuto porque não sabemos sua velocidade. E esse drama não é pequeno!
Foi necessário passarmos por uma reciclagem para que pudéssemos concluir que o Universo se escondia do Mundo. Foi preciso reformar nossas verdades e nossas ilusões tal qual Bachelar havia ensinado.
O discurso científico difere do Teológico exatamente nesse ponto – modificar-se. A Teologia orgulha-se de ensinar conceitos milenares enquanto a Ciência lida com conceitos com 100 anos de idade e a ciência tem a clareza que podem mudar. Essa diferença é capital, uma vez que a certeza que se teve acesso à verdade impede a evolução o que na prática significa sedimentação.
A compreensão da dificuldade de ajustar as interfaces entre o Universo e o Mundo não é fonte de desânimo, pelo contrário, ela nos traz a certeza de estarmos no caminho do aperfeiçoamento.
É por isso que procuramos – para achar! Mesmo que não saibamos se vamos encontrar coelhos brancos ou Alices.
Na Astronomia existe um forte agravante que é a nossa incapacidade biológica de percebermos a 3ª dimensão quando olhamos para o céu.
Na observação do Mundo, em nosso ambiente diário, sabemos distinguir perfeitamente a distância entre dois objetos ou entre duas pessoas, mas não somos capazes de ter acesso à 3ª dimensão de forma objetiva, pois, a rigor, enxergamos apenas duas dimensões: comprimento e largura. A evolução darwiniana nos permitiu “roubar”, da realidade, a 3ª dimensão (profundidade) quando os olhos dos ancestrais dos primatas migraram para frente da face e mantiveram um dado afastamento entre eles. Essa simples ocorrência criou o chamado efeito paralaxe.
A paralaxe ocular é a distância entre os olhos que por estarem separados captam áreas diferentes do mundo à volta[9] e permite que nosso Sistema Nervoso Central conjugue as imagens diferentes dos dois olhos e “monte” uma imagem com profundidade.[10]
Esse recurso que “ganhamos” somente é eficiente quando estão envolvidas distâncias relativamente pequenas, quando olhamos para objetos no horizonte temos que utilizar outro recurso – a perspectiva que é o mesmo recurso usado pelos pintores para simular as distâncias representadas em suas telas planas.

 
 














Figura 1: Fotografia estereoscópica do Largo do Machado, no Rio de Janeiro em 1944. Reparar que podemos ver menos pessoas no canto esquerdo da foto da esquerda do que no canto esquerdo da foto da direita. Os “conteúdos” são diferentes, da mesma forma que ocorre com os campos visuais de nossos olhos. Essas fotografias são feitas com câmaras com duas objetivas separadas pela distância média que separa os olhos humanos.
Camelos
No final dos anos 1950 ganhei de presente, de meu pai, um livro que iria exercer grande influência em minha vida profissional. Era uma obra de Malba Tahan chamada O homem que calculava.
A narrativa ambientada na Bagdá do século XIII contava as aventuras do calculista persa Beremiz Samir[11] que resolvia problemas práticos, aparentemente sem solução, simplesmente usando álgebra e aritmética.
O leitor pode entrar em contato com lendas sobre a origem do Xadrez, por exemplo, com a solução de quebra-cabeças e conhecer curiosidades matemáticas. O quebra-cabeça mais conhecido é dos três irmãos que receberam de herança 35 camelos e têm uma regra para reparti-los: o mais velho deve receber a metade outro, a terça parte e o mais novo, a nona parte. É fácil verificar que os camelos deveriam ser “cortados” para atenderem às regras, mas Beremiz soluciona a questão facilmente, usando álgebra[12].
O fato foi que percebi a força da ferramenta matemática para solucionar problemas materiais e teóricos. Foi ali que percebi como o Universo se transforma em Mundo.
O anátema da Astronomia é perseguir sua característica epistemológica mais forte, a de ser multi e interdisciplinar. Esse fato move a Ciência e ensina aos homens que o conjunto se sobrepõe ao individual, uma vez que o tempo dos galileus e kepleres já passou.
E assim, um calculista fictício viajando e um narrador que nunca existiu foram capazes de semear a curiosidade que moveu a ciência em minha infância. E de quebra mostrar-me como os pais “ficam” em seus filhos!
Mais uma certeza que se apresenta em minha mente é a proclamada por Galileu Galilei, quando afirmou, há mais de quatrocentos anos, que a matemática é a linguagem com a qual foi escrito o Universo.
Dilatamos o conceito galileano, pois hoje sabemos, com a certeza permitida pelo método científico que a matemática é, na realidade, a linguagem que usamos para “ler” o Universo e transmutá-lo em Mundo.
O azul escuro do fundo dos oceanos, o azul claro dos picos montanhosos, o azul natural dos litorais, chegam continuamente ao cérebro humano através de dois orifícios muito especiais – as pupilas. A luz que as atravessa é transformada em impulsos elétricos que são encaminhados ao cérebro e lá, as imagens são “remontadas” e compreendidas. Na realidade enxergamos com o cérebro, os olhos são suas ferramentas de captação de luz.
Os pássaros, as nuvens, as flores, os humanos, as estrelas, as galáxias... são objetos que conhecemos e interagimos. São imagens não são coisas. São fantasmas interpretados e “julgados” por nós. As pupilas encontram-se entre o que é e o que pensamos ser, porque elas são as fendas por onde o Universo entra para se transformar em Mundo.
Se as portas da percepção fossem desobstruídas, tudo aparentaria ao homem exatamente como é... infinito.[13]
Epílogo de um preâmbulo
O marchar dos astros no céu criou um desfile cujas alegorias – há milênios – permeiam as fantasias dos homens. O nascer do Sol que dissolve a escuridão em amarelos e vermelhos diuturnamente encanta quem o assiste. A marcha para o outro lado dissolve o azul em escuridão e, mais uma vez, encanta quem assiste. A perenidade e a repetição não diminuem o espetáculo, mas alimenta-o. É uma Ode especial que é cantada no Universo e ouvida no Mundo.


[1] Espero estar seguindo essa norma!
[2] Ou pensamos ver!
[3] José Américo Motta Pessanha apud Bachelar, São Paulo, Abril Cultural, 1978 [Os Pensadores] p. XIII.
[4] O Solipsismo é a ideia de que o Ser controla o mundo. É a crença filosófica de que além de nós e de nossas experiências, nada existe – a única realidade cognoscível é o Eu.
[5] “Os limites da minha linguagem são os limites de meu mundo” Escreveu Wittgenstein.
[6] Citado por John Broockman. São Paulo, 1988.
[7] Benjamin Lee Whorf juntamente com o antropólogo e lingüista alemão Edward Sapir formularam, na década de 1930, uma tese que ficou conhecida como Hipótese de Sapir-Whorf, pela qual “as pessoas vivem segundo suas culturas em universos mentais muito distintos que estão exprimidos (e talvez determinados) pelas diferentes línguas que falam. Deste modo, também o estudo das estruturas de uma língua pode levar à elucidação de uma concepção de um mundo que a acompanhe”.
[8] A luz compõe-se de dois campos, um elétrico e um magnético que se propagam inclinados em 90º entre eles.
[9] Se o leitor olhar diretamente para um dado ponto e fechar alternadamente os olhos, perceberá facilmente que cada olho “vê” regiões diferentes do Mundo.
[10] Por isso é difícil enfiar uma linha em um buraco de agulha ou descer uma escada com apenas um olho aberto.
[11] Personagem fictício.
[12] Para ver a solução, o leitor deve ir até a obra em questão.
[13] Texto de William Blake em O casamento do céu e do inferno.