Vulpes ad Personam Tragicam
Não
parece provável que o avô de alguém tenha sido do tamanho de um ovo ou de uma
cabeça de alfinete; que folhas comam luz; que baleias cantem um coro no fundo
do oceano; que, quando olhamos uma estrela distante estejamos vendo o passado;
no entanto, todas estas coisas são fatos, são reais.
Úrsula Le Guin
Quando eu era aluno do antigo ginásio no Colégio Pedro II no
Rio de Janeiro estudava latim – acho que o Pedro II era o único colégio que
mantinha o latim em sua grade de ensino. O ano era 1966. O tempo passou e a
memória conservou a imagem ilustrativa de um capítulo do livro na qual havia
uma raposa olhando de perto uma máscara de tragédia – a personam tragicam.
A raposa se deslumbra com a beleza da máscara, fala com ela
e não recebe resposta, então a pega e percebe: “Ò quanta beleza, mas não tem
cérebro”.
É o anátema da aparência sem conteúdo. Muitas pessoas,
objetos, fatos e interpretações têm somente aparência, uma pequena, mas eficaz
análise mostra-nos que seus conteúdos são frívolos.
A Astronomia passou por sua fase de personam tragicam quando os homens admiravam o céu, deslumbravam-se
com os eclipses, temiam os cometas e achavam que seus conteúdos eram divinos.
Cada astro no céu já foi um deus e as manifestações meteorológicas eram ações
daqueles deuses. Pouco a pouco os homens foram organizando o conhecimento,
aprendendo a retirar um deus e a colocar uma informação em cada ponto do céu,
assim o Mundo tornou-se uma personam
tragicam diferente de todas, pois agora mostrava toda sua beleza e possuía
conteúdo, o observador se imiscuiu com o observado – humanizou o Mundo e
universalizou o homem.
Se o observador e o objeto são totalmente estranhos,
se eles não dispõem nada em comum, então este objeto se encerra em sua
opacidade, permanece refratário à indagação e à própria indiferença (aquilo
pela qual o outro se constitui como tal), se torna ininteligível. O conceito de
objetividade, então, assume um valor problemático, não mais assinala apenas uma
censura, uma distância, porém ainda uma reciprocidade, uma solidariedade entre
o observador e o observado; dá lugar ao paradoxo de um objeto que é
objetivamente muito distante e subjetivamente muito concreto, é uma verdade que
se coloca na intersecção de duas subjetividades (Lévi-Strauss, 1970).
Na trajetória na direção da obtenção do conteúdo para as
aparências, a ciência passa por momentos bastante conturbados. Discute-se a
existência do bóson de Higgs e se Plutão deve continuar a ser chamado de
planeta!
Lembremos Sartre:
(A imagem) não pode entrar na corrente da
consciência a não ser que ela própria seja síntese e não elemento. Não há, não
poderia haver imagens na consciência. A imagem é um ato e não uma coisa. A
imagem é a consciência de alguma coisa (Sartre, 1978, p.107).
Aparentemente a bela imagem de Plutão e Caronte (seu
satélite?) é apenas isso – bela. Mas não é assim, precisamos ver o âmago das
necessidades da ciência e, uma das principais, é a eficiência da linguagem
utilizada. Quando um cientista diz que dado líquido está a 76 ºC, todo e
qualquer cientista em qualquer lugar do Universo sabe o que ele está falando,
agora se alguém disser: “as mudas chegaram”, nunca saberemos se chegaram
mulheres que não falam ou plantinhas!
No discurso científico deve haver sempre a preocupação de ser claro. A ambigüidade diminui a
quantidade de informação que deve ser transmitida, ou pior, deturpa-a.
Uma notícia publicada em um jornal paulista de circulação
nacional dizia:
(...) uma Portaria de dezembro de 1991, do Juizado de Menores
(...) proíbe os menores de 18 anos de irem a motéis e rodeios sem a companhia
ou autorização dos pais.
É óbvio que a companhia ou autorização dos pais é para ir
aos rodeios e não aos motéis! A construção do parágrafo ficou obscura e o
leitor ficou sem saber se o jornal expressou-se mal ou se o juiz enlouqueceu.
Agora que chegamos ao consenso de que a linguagem científica
deve ser clara e não ambígua[1]
devemos ir até ao próximo patamar que é a análise da participação do observador
no observado.
Quem observa o observador?
Um observador é aquele que observa, aquele que cumpre uma
regra, aquele que estuda certos fenômenos, aquele que olha. Isso tudo quando a
palavra ‘observador’ é um adjetivo, mas quando é substantivo, observador é
1 O indivíduo considerado relativamente ao ponto do Universo que ocupa
e aos fenômenos que se passam em redor dele. 2 O que tem a seu cargo fazer
observações científicas. 3 O que comparece a uma reunião internacional para
conhecer das discussões, sem direito de palavra nem de voto (Dicionário Michaellis
eletrônico).
O grande desafio dos cientistas é passar da definição 3 para
a definição 2. Um leigo assiste a discussão, um especialista assiste à
discussão! A posição do observador, em Astronomia, muda ao longo do tempo,
tendo começado como “aquele que observa” no dia em que um “macaquinho” mais
esperto olhou para o céu e ficou deslumbrado; até os dias atuais quando sabemos
que o ato de observar influencia (e transforma!) o observado.
Os astrônomos não podem prescindir da conscientização de que
a única ferramenta que está a nossa disposição é a observação. A Astronomia não
pode realizar experimentos, quem os faz é o Universo, nós... observamos, e
nunca temos direito a voto!
Os astrônomos medem o céu, mas devemos ter em mente que
medir é algo tão passivo quanto meramente observar, uma vez que não medimos o
que é, medimos o que vemos.[2]
Essa questão introduz uma antiga polêmica sobre o real e o
observado. Qual é a interface entre esses dois conceitos? O Universo é uma
entidade quadrimensional que se expande a partir do Big Bang em todas as
direções, mas (e aqui há um grande mas!) o Universo observável – literalmente
aquele que enxergamos – é esférico e geocêntrico, pelo simples fato de que
observamos o Universo real a partir da Terra, e o fazemos em todas as direções
gerando, assim, um Universo esférico cujo raio é do tamanho de nossa
tecnologia.
A consciência de que temos acesso a uma interface que não
sabemos quão representativa é da realidade, leva-nos a questionar o conteúdo
científico de nosso “saber sabido”, mas a consciência de que somente teremos
acesso a essa interface, com essa característica, leva-nos a buscar o “saber a
ser sabido” – é a clareza sobre o passado que nos leva procurar no futuro.
Pergunta 1: Procurar como?
Pergunta 2: Procurar onde?
Pergunta 3: Procurar porque?
Resposta 1: Remexendo em casas de maribondos.
Resposta 2: Nos mitos e em nossas mentes.
Resposta 3: Por que procuramos alguma coisa? Para achá-la!
Marimbondos
Aristóteles tinha por
princípio que a dúvida é o início da sabedoria e isso é um fato inegável, pois
somente uma dúvida leva alguém a procurar respostas. Será que como corolário
temos que se o homem um dia souber tudo, não tendo mais dúvidas, deixará sua própria
condição humana? Será que o Universo reservou para nós a fina ironia de que se
o Homo sapiens souber... deixa de ser
Homo?
As buscas sempre envolvem remexer em alguma coisa. Em
ciência essa alguma coisa é, geralmente, um conceito. Como disse Bachelard “o
conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão”[3]. Já
fomos iludidos pelo Geocentrismo, pela natureza atmosférica dos cometas, pela
perfeição dos deuses e dos políticos...
Discutindo esse tema não é possível evitar a questão da
realidade. O que é real? É o que
vemos? É o que percebemos? Percebemos o real?
A relação do observador com o observado é um dos marimbondos
mais venenosos que podemos encontrar. Por uma questão puramente didática, vamos
chamar de Universo, tudo que existe, e de Mundo tudo que observamos. O Universo
existe há cerca de 17 bilhões de anos, portanto muito antes de surgimos na
Terra, mas o Mundo surgiu conosco, dura o tempo de nossas vidas e deixa de
existir quando morremos. Isso significa que existem tantos Mundos quanto
pessoas. Isso porque Mundo é um
conceito e não uma coisa em si. O
Universo prescinde do Mundo, mas a recíproca não é verdadeira.
É preciso ressaltar que não estamos defendendo aqui uma
visão solipsista[4],
longe disso. A definição de Mundo aqui apresentada é a de que cada pessoa vê o
Universo com seus olhos, com sua miopia, com sua experiência anterior.
Deve-se lembrar que a linguagem humana permite formar proposições de
que não se pode tirar nenhuma conseqüência, proposições que são, para dizer a
verdade, completamente vazias de substância, embora produza em nossa imaginação
uma espécie de imagem. Por exemplo, a afirmação de que pode existir, ao lado do
nosso, outro Universo sem ter por princípio nenhuma relação com ele, não leva a
consequência alguma, mas faz nascer em nosso espírito uma espécie de imagem.
Evidentemente tal proposição não pode ser confirmada nem infirmada. Deve-se ser
particularmente circunspecto no emprego do termo na realidade, pois conduz com muita facilidade a afirmações do
gênero desta de que acabamos de falar (Heiseberg
apud Bachelar,
1978, p. 153).
O termo realidade
sempre esteve presente nas preocupações dos cientistas, principalmente dos
astrônomos, pois o papel da Astronomia é montar um modelo do Universo partindo
do Mundo.
Aqui ressalto dois trechos escritos por John Broockman
(1941- ):
O homem cria instrumentos e depois se molda à imagem deles. A realidade
é fabricada pelo homem. O Universo é uma invenção, uma metáfora (Broockman, 1988, p. 11).
Mais adiante:
Seja qual for a linguagem descritiva a que tenhamos chegado, o
compreender a realidade torna-se a
realidade. Não dizemos que o coração parece
uma bomba, mas que ele é uma bomba (Broockman, 1988, p. 11).
Mitos e mentes
O exercício de pensar o Mundo desenvolve-se paralelamente à
saga humana no planeta. Pensar o Mundo significa tentar explicá-lo, buscar
compreender seu sentido. Existem várias formas para objetivarmos este fim. É
neste momento do pensar que surgem os vários conceitos de verdade.
Uma das dimensões de sentido desta palavra sugere a idéia de
fato consumado, terminado. Quando tratamos de ciência é preciso ter a mente em
alerta para o fato de que a verdade pode ter outros significados além dos que
são utilizados, por exemplo, ao lidarmos com os mitos. Não se pode argumentar
diante de um mito. É algo terminado. Um conceito científico precisa conter a probabilidade
de não ser eterno.
Uma importante característica do cientista é poder
conscientizar-se da existência de dúvidas, é poder ficar perplexo diante do
Universo.
Inúmeras vezes a ciência é cobrada para dar respostas. Aos
cientistas, exige-se o saber! No entanto é importante poder dizer “não sei”!
Como é importante poder ficar perplexo diante de uma maçã que cai, diante da
vida que há em uma gota d’água, diante de uma estrela que brilha mais do que as
outras. Fazer ciência é ter dúvidas, é experimentar o êxtase de procurar, é
entronizar Dioniso.
Com base no saber copernicano, ficamos definitivamente
derrotados, do ponto de vista do orgulho e da prepotência, mas demos um salto
em direção a nos identificarmos como cidadãos do Cosmo! O Universo não foi
feito para nós – e por nós – mas no Mundo temos um lugar marcado. Podemos nos
identificar como parte integrante e não mais como a razão da existência. O que
impulsionou tais concretizações foi poder perguntar, desconfiar e expor nossas
dúvidas.
Nossos conceitos de verdade tiveram de ser revistos. Verdade
é um limite, o limite do conhecimento quando os dados tendem para o real. O
Geocentrismo já foi uma verdade, assim como a geração espontânea da vida também
o foi. Quando um cientista fala sobre seu objeto de estudo, seu discurso parece
conter sempre verdades. A rigor, o discurso científico é permeado de premissas
de fatos que surgem – e soam – como verdades. É apenas uma forma, um método de
poder transmitir conceitos para que a própria ciência possa seguir seu caminho.
É preciso fazer a separação entre as pretensões da ciência e as dos cientistas.
Para incrementar nosso “rol” de problemas temos as
restrições da linguagem.[5] O
lingüista Benjamin Lee Whorf (1897-1941)[6]
afirmou que é impossível um indivíduo fazer uma descrição imparcial da
realidade por ser incapaz de contornar as restrições da linguagem.[7]
Tudo indica que a realidade transcende nossa capacidade de
falar sobre ela.
A ciência não deve ter a expectativa (do cientista) de
descrever o real. Seus métodos consistem em aproximações sucessivas que tendem
montar uma imagem, uma versão do real.
Fazer ciência é tentar manipular o anárquico, ordenar o
caos, sofrer por não conseguir, mas regozijar-se por ter tentado.
A busca
O homem desenvolve seu conhecimento por força dos limites. O
infinitamente pequeno “ativou a Mecânica Quântica, o infinitamente grande
“ativou” a Cosmologia, o muito rápido “ativou” a Relatividade restrita, o muito
denso “ativou” a Relatividade Geral. Estes nichos são os “berçários” do avanço
científico – quando os níveis de realidades se apresentam aos homens eles
procuram “frases” para descrevê-las.
A ciência aproximou-se do final do século XIX com duas
certezas. Caso disparássemos uma flecha, conhecendo sua massa e sua velocidade,
poderíamos calcular sua trajetória com bastante precisão, o mesmo era verdade
para uma bola, para a Lua ou qualquer planeta. A outra certeza era que as ondas
se propagavam “sacudindo” o meio de propagação. As ondas sonoras vibravam em
meios materiais como a água, o ar e até mesmo a madeira.
O avanço das pesquisas com a luz trouxe os primeiros
problemas para o início do século XX – o Mundo nunca mais seria o mesmo!
Foi provado que a luz era uma onda eletromagnética[8]
que podia se propagar no ar (vemos o mundo à volta), na água (vemos os peixes)
e no vácuo (vemos as estrelas). Como seria possível uma vibração propagar-se
sem vibrar o meio de propagação? Afinal o vácuo não tinha nada a ser vibrado.
Dessa perplexidade saiu o conceito de Éter.
O éter seria uma “substância” especial que permearia o Universo e seria o meio
de propagação da luz.
As pesquisas para determinar a velocidade da luz acabaram
provando que a existência do Éter era bastante improvável. Medições feitas com
a luz vinda dos céus em uma determinada data eram idênticas às medições feitas
seis meses depois, o que era uma surpresa, pois a diferença de seis meses
garantiria que durante a primeira medição a Terra estava percorrendo sua órbita
com o sentido oposto ao que está seis meses depois! Essa medição determinou a
morte do Éter e a luz ficou sem seu suporte.
As novidades foram se avolumando nas mesas dos cientistas
até que chega o século XX e é dada à luz a Mecânica Quântica.
A concepção do Princípio da Incerteza por Heisenberg
revolucionou o modo de se “ver” o Mundo. As “verdades” clássicas começaram a se
mostrar como casos particulares e, como decorrência, ficou claro que estávamos
diante de verdades relativas. Ficou evidente que o modus operandi do microcosmo não era o mesmo quando tratávamos do macrocosmo.
O Universo mostrou ter dois pesos e duas medidas.
As trajetórias de flechas ou dos planetas continuaram a
obedecer às leis clássicas da Mecânica newtoniana e às leis de Kepler, mas
quando entramos no mundo subatômico, os acontecimentos se mostram exóticos.
Heisenberg nos ensinou que quando medíamos com precisão a posição de um
elétron, não éramos capazes de determinar, com precisão, sua velocidade e vice
versa.
Os físicos tiveram que aprender que não temos controle sobre
os acontecimentos cósmicos. O Universo esconde dados para a elaboração do
Mundo.
No mundo macro tudo funciona conforme a cartilha clássica.
Podemos prever onde um planeta estará em um ano, dois ou mesmo cinqüenta.
Podemos prever os eclipses e as passagens dos cometas e tudo com base na
Mecânica Clássica. Agora temos consciência de que quando encontramos um elétron
e sabemos sua posição, não saberemos onde estará daqui a um minuto porque não
sabemos sua velocidade. E esse drama não é pequeno!
Foi necessário passarmos por uma reciclagem para que
pudéssemos concluir que o Universo se escondia do Mundo. Foi preciso reformar
nossas verdades e nossas ilusões tal qual Bachelar havia ensinado.
O discurso científico difere do Teológico exatamente nesse
ponto – modificar-se. A Teologia orgulha-se de ensinar conceitos milenares
enquanto a Ciência lida com conceitos com 100 anos de idade e tem a clareza que
podem mudar. Essa diferença é capital, uma vez que a certeza que se teve acesso
à verdade impede a evolução o que na prática significa sedimentação.
A compreensão da dificuldade de ajustar as interfaces entre
o Universo e o Mundo não é fonte de desânimo, pelo contrário, ela nos traz a
certeza de estarmos no caminho do aperfeiçoamento.
É por isso que procuramos – para achar! Mesmo que não saibamos
se vamos encontrar coelhos brancos ou Alices.
Na Astronomia existe um forte agravante que é a nossa
incapacidade biológica de percebermos a 3ª dimensão quando olhamos para o céu.
Na observação do Mundo, em nosso ambiente diário, sabemos
distinguir perfeitamente a distância entre dois objetos ou entre duas pessoas,
mas não somos capazes de ter acesso à 3ª dimensão de forma objetiva, pois, a
rigor, enxergamos apenas duas dimensões: comprimento e largura. A evolução
darwiniana nos permitiu “roubar”, da realidade, a 3ª dimensão (profundidade)
quando os olhos dos ancestrais dos primatas migraram para frente da face e
mantiveram um dado afastamento entre eles. Essa simples ocorrência criou o
chamado efeito paralaxe.
A paralaxe ocular é a distância entre os olhos que por
estarem separados captam áreas diferentes do mundo à volta[9] e
permite que nosso Sistema Nervoso Central conjugue as imagens diferentes dos
dois olhos e “monte” uma imagem com profundidade.[10]
Esse recurso que “ganhamos” somente é eficiente quando estão
envolvidas distâncias relativamente pequenas, quando olhamos para objetos no
horizonte temos que utilizar outro recurso – a perspectiva que é o mesmo
recurso usado pelos pintores para simular as distâncias representadas em suas
telas planas.
Figura 1: Fotografia estereoscópica
do Largo do Machado, no Rio de Janeiro em 1944. Reparar que podemos ver menos
pessoas no canto esquerdo da foto da esquerda do que no canto esquerdo da foto
da direita. Os “conteúdos” são diferentes, da mesma forma que ocorre com os
campos visuais de nossos olhos. Essas fotografias são feitas com câmaras com
duas objetivas separadas pela distância média que separa os olhos humanos.
Camelos
No final dos anos 1950 ganhei de presente, de meu pai, um
livro que iria exercer grande influência em minha vida profissional. Era uma
obra de Malba Tahan chamada O homem que
calculava.
A narrativa ambientada na Bagdá do século XIII contava as
aventuras do calculista persa Beremiz Samir[11] que
resolvia problemas práticos, aparentemente sem solução, simplesmente usando
álgebra e aritmética.
O leitor pode entrar em contato com lendas sobre a origem do
Xadrez, por exemplo, com a solução de quebra-cabeças e conhecer curiosidades
matemáticas. O quebra-cabeça mais conhecido é dos três irmãos que receberam de
herança 35 camelos e têm uma regra para reparti-los: o mais velho deve receber
a metade outro, a terça parte e o mais novo, a nona parte. É fácil verificar
que os camelos deveriam ser “cortados” para atenderem às regras, mas Beremiz soluciona
a questão facilmente, usando álgebra[12].
O fato foi que percebi a força da ferramenta matemática para
solucionar problemas materiais e teóricos. Foi ali que percebi como o Universo
se transforma em Mundo.
O anátema da Astronomia é perseguir sua característica
epistemológica mais forte, a de ser multidisciplinar e interdisciplinar. Esse
fato move a Ciência e ensina aos homens que o conjunto se sobrepõe ao
individual, uma vez que o tempo dos galileus e kepleres já passou.
E assim, um calculista fictício viajando e um narrador que
nunca existiu foram capazes de semear a curiosidade que moveu a ciência em
minha infância. E de quebra mostrar-me como os pais “ficam” em seus filhos!
Mais uma certeza que se apresenta em minha mente é a
proclamada por Galileu Galilei, quando afirmou, há mais de quatrocentos anos,
que a matemática é a linguagem com a qual foi escrito o Universo.
Dilatamos o conceito galileano, pois hoje sabemos, com a
certeza permitida pelo método científico que a matemática é, na realidade, a linguagem
que usamos para “ler” o Universo e transmutá-lo em Mundo.
O azul escuro do fundo dos oceanos, o azul claro dos picos
montanhosos, o azul natural dos litorais chegam continuamente ao cérebro humano
através de dois orifícios muito especiais – as pupilas. A luz que as atravessa
é transformada em impulsos elétricos que são encaminhados ao cérebro e lá, as
imagens são “remontadas” e compreendidas. Na realidade enxergamos com o
cérebro, os olhos são suas ferramentas de captação de luz.
Os pássaros, as nuvens, as flores, os humanos, as estrelas,
as galáxias... são objetos que conhecemos e interagimos. São imagens não são
coisas. São fantasmas interpretados e “julgados” por nós. As pupilas
encontram-se entre o que é e o que pensamos ser, porque elas são as fendas
por onde o Universo entra para se transformar no Mundo.
Se as portas da percepção fossem desobstruídas, tudo aparentaria ao
homem exatamente como é... infinito.[13]
Epílogo de um preâmbulo
O marchar dos astros no céu criou um desfile cujas alegorias
– há milênios – permeiam as fantasias dos homens. O nascer do Sol que dissolve
a escuridão em amarelos e vermelhos diuturnamente encanta quem o assiste. A
marcha para o outro lado dissolve o azul em escuridão e, mais uma vez, encanta
quem assiste. A perenidade e a repetição não diminuem o espetáculo, mas
alimenta-o. É uma Ode especial que é cantada no Universo e ouvida no Mundo.
[1] Espero estar seguindo essa norma!
[2] Ou pensamos ver!
[3] José Américo Motta
Pessanha apud Bachelar, São Paulo, Abril Cultural, 1978 [Os Pensadores]
p. XIII.
[4] O Solipsismo é a ideia de que o Ser controla o mundo. É a crença
filosófica de que além de nós e de nossas experiências, nada existe – a única
realidade cognoscível é o Eu.
[5] “Os limites da minha linguagem são os limites de meu mundo” Escreveu
Wittgenstein.
[6]
Citado por John Broockman. São Paulo, 1988.
[7] Benjamin Lee Whorf juntamente com o antropólogo e lingüista alemão
Edward Sapir formularam, na década de 1930, uma tese que ficou conhecida como
Hipótese de Sapir-Whorf, pela qual “as pessoas vivem segundo suas culturas em
universos mentais muito distintos que estão exprimidos (e talvez determinados)
pelas diferentes línguas que falam. Deste modo, também o estudo das estruturas
de uma língua pode levar à elucidação de uma concepção de um mundo que a
acompanhe”.
[8] A luz compõe-se de dois campos, um elétrico e um magnético que se
propagam inclinados em 90º entre eles.
[9] Se o leitor olhar diretamente para um dado ponto e fechar
alternadamente os olhos, perceberá facilmente que cada olho “vê” regiões
diferentes do Mundo.
[10] Por isso é difícil enfiar uma linha em um buraco de agulha ou descer
uma escada com apenas um olho aberto.
[11] Personagem fictício.
[12] Para ver a solução, o leitor deve ir até a obra em questão.
[13] Texto de William Blake em O casamento do céu e do inferno.
