quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Saúde e Educação...

Merleau-Ponty, filósofo francês nascido no século XIX, afirmava que a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Estamos vivendo o momento de habitá-las! A forma de fazermos isso é unindo-a à sociedade; afinal é ela que dá suporte à ciência e que “suporta” a ciência. Muitas vezes, as “coisas manipuladas” somos nós. Não devemos nem podemos nos recusar a habitá-las.

As ciências da saúde carregam, em si, a enorme dificuldade de estar sempre agindo de modo a amenizar a existência humana. Não que existir seja um anátema. Ele – o anátema – é não ter qualidade de vida, é viver mal. É um degrau a mais que é somado aos objetivos da ciência.

Fazer ciência é ter dúvidas, é experimentar o êxtase de procurar, entronizar Dioniso. Mas fazer ciência na área de saúde requer um pouco mais do que isso. Requer olhos que estejam prontos para ver o que mui-tos não conseguem. O profissional de saúde necessita ver o que a maioria não pode: dentro do coração de cada um.

Um piloto francês morto há muito tempo – durante a Segunda Guerra – já sabia que “o essencial é in-visível aos olhos”. E, enxergar esse “essencial” é que é esperado do profissional de saúde. Ao lidar com seres humanos com uma relação ímpar de dependência e confiança, o profissional de saúde deve ter em conta um número muito grande de variáveis, maior do que os profissionais de outras áreas.

Para alcançar a meta de enxergar mais do que a Física e a Fisiologia permitem só existe uma forma: treinamento e estudo. O lidar com os pacientes no dia-a-dia dos tempos escolares não se mostra suficiente para alcançar essa habilidade. Somamos a isso o fato de que o aumento do conhecimento é constante e inexorável. Nos tempos da alta especialização, o profissional de saúde tem que ter a mente aberta para o fato de que deve se especializar, mas em seres humanos.

É uma Saga. Mas deve ser um réquiem nunca tocado.

Educar é um processo complexo e polêmico. Os parâmetros envolvidos são fortes o suficiente para se-rem perigosos se mal utilizados. Educar é desmontar o existente para construir o vir-a-ser. O papel do educador, e da Academia, é de enorme responsabilidade que, muitas vezes, é relegado à não-compreensão. As posturas dos mestres e dos discípulos devem ser “coordenadas” para que o processo de aprendizagem seja completado por movimentos nas duas direções. A máxima aristotélica de que a dúvida é o início da sabedoria não deveria abandonar as mentes daqueles que temem ter dúvidas como daqueles que pensam não tê-las.

Uma vez formado, já com o “fardo” do diploma em sua parede – e em sua consciência – as responsa-bilidades mudam drasticamente. Já não se é mais um estudante que “pode” errar. Agora é um profissional que deve procurar não errar.

Em O velho e o mar, Hemingway, inicia dizendo: “há três meses Santiago não trazia nenhum peixe do mar”. A expectativa é de que haja peixes no mar, da mesma forma que esperamos encontrar Saber nas escolas. Devemos agir para que nunca falte peixe para que nossos “Santiagos” nunca se ressintam e para que os jovens tenham futuro...

Há muito tempo, Hipócrates já sabia de tudo isso:

“Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os Deu-ses e todas as Deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue.”

Que seja observado que o preâmbulo do juramento do médico diz que a promessa deve ser cumprida “segundo meu poder e minha razão”. O poder, é dado pela ciência – é o conhecimento. A razão nada mais é do que o essencial, aquele que é invisível aos olhos.

Nós e a vida

Uma voz, vinda de um passado já remoto, nos conta que um dia os homens e mulheres formavam um único ser – a Terra era habitada por seres hermafroditas. Um dia, Zeus – deus todo poderoso e masculino – separou aquele ser integrado em duas partes desiguais; o Homem e a Mulher. Desde então não houve mais uma satisfação completa e cada uma das partes saiu em busca do que lhe faltava.
Segundo Platão, portador deste mito, o amor nada mais é do que a nostalgia, sentida por aquelas partes, da época em que eram um único ser.

Esse mito motiva a busca daquela integração. Somando-se à busca da companhia que reintegra, buscamos também outros tipos de realizações, entre elas a de podermos nos integrar perfeitamente ao mundo que habitamos. É esta busca que serve de motivação para a própria vida. Tal um mecanismo de retroalimentação, a vida pode encontrar, nela própria, os motivos para existir.

Gerada ao acaso ou não, o que mais importa é que se tornou um meio travestido teleologicamente de objetivo. É um paradoxo que se manifesta na vida porque é vida. Não há compromissos com o concreto, com o consciente e nem mesmo com qualquer... compromisso.

É paradoxal, mas somos seres vivos que não sabemos o que seja a vida, ou, então, temos tantas versões sobre ela que não somos capazes de construir uma idéia clara sobre este fenômeno. A certeza que temos é a de que você, leitor, e eu compartilhamos a vida e nos comunicamos.

São muitas as dúvidas e certezas. Mas temos tempo. Somos parte da Vida que hoje se esforça por encontrar aquele tempo onde era apenas futuro, somos a vida que procura entender por que está aqui, pisando este solo, voando este ar, nadando esta água.

Buscamos as respostas para estas perguntas com a força encontrada na saudade; saudade de um futuro ainda a ser vivido. Não importa se buscamos as respostas por meio da Ciência ou da Filosofia. O objetivo é o mesmo: responder perguntas sem respostas.

Do alto do Olimpo os deuses observam sua criação, observam os titãs que criaram. que ainda não são homens, mas um dia serão. Serão os adultos vindos daqueles seres – incompletos – que ajudaram a criar. Serão adultos cheios de crianças dentro de si. Crianças sem nenhuma pressa de crescer.

Quando pudermos ter certeza de nossa prisão, quando pudermos novamente olhar dentro dos olhos dos deuses do Olimpo, eles nos verão de uma outra forma, não mais como titãs mas como deuses seus irmãos.

O reencontro com a parte que nos falta é a fonte do grande poder dos homens. Quando as partes se juntam, a forma divina se refaz, a nostalgia é a aplacada, e aí, somente neste momento, retomamos a nossa condição divina e podemos criar...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um pouco de Ética


Gilberto Freyre – o sociólogo – escreveu uma vez que o que se contrapõe à morte não é a vi-da, mas sim o amor: quem não ama não está vivo. Por analogia estrutural, concluo que o que se contrapõe aos instintos primevos dos homens é a ética. A ética é a grande controladora do id, seria o “braço” ideológico – ou teórico – do superego. Como tal, possui um forte componente cultural. A busca de uma “ética universal”, aquela que teria valor em qualquer sociedade, está deixando de ser uma utopia com o surgimento e o desenvolvimento da bioética. Esta seria uma manifestação universal, pois que “vale” para qualquer ser vivo.

No meu entendimento, a bioética não trata apenas das relações entre os homens: trata, antes de tudo, das relações dos homens com o conjunto de seres vivos com o qual dividimos o planeta. O primeiro dogma a cair deve ser o de que somos a “obra-prima” da Criação. Somos apenas a que tem mais responsabilidade. Pensamos, daí a responsabilidade de respeitar – e não de tutelar – as diversas formas de vida.

Ter a consciência de que devemos concordar com o pequeno papel que os seres humanos de-sempenham no Mundo é ser irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra. Não é possível falarmos – ou melhor, pensarmos – em ética sem passar, mesmo que ao largo, pelo discurso reli-gioso. A dor é a moeda corrente dos discursos religiosos. Quem conhece alguém que foi canoni-zado por ter sido feliz? Quando a dor é transmutada em prazer, a faz virtude! É, então, necessário sofrer para ser virtuoso. É a forma perversa de evoluir. Sofremos nessa vida para sermos felizes em outros mundos, mundos esses que nos são mostrados como metas a serem alcançadas – são todos Valhallas.

Para sermos “éticos”, é necessário dizer que alguns filósofos também criaram seus mundos, sempre melhores que o nosso. Segundo Nietzsche, todos o fizeram. Qual será o papel – sublimi-nar – desses mundos, “criados à imagem e semelhança” de nossas – ou das deles – intenções?
Manipular!
 
A história da filosofia é um rancor secreto contra os pres-supostos da vida, contra os sentimentos de valor da vida, con-tra o tomar partido a favor da vida. Os filósofos nunca vacila-ram em afirmar um mundo, desde que ele contradissesse este mundo aqui, desde que lhes desse a oportunidade de falar mal deste mundo aqui. Essa foi até agora a grande escola da calú-nia; e ela impressionou tanto que até hoje a ciência, que se apresenta como porta-voz da vida, aceitou as posições básicas de tal calúnia, degradando este mundo aqui como aparente, esta cadeia causal como meramente fenomenal (Friedrich Nietzsche, Fragmentos finais, Editora Universidade de Brasília, 2001).
É a transmutação final! Um mundo melhor que o Mundo é prometido para que os habitantes deste almejem tornar-se habitantes daquele. Assim, o pouco oferecido aqui é “lido” como muito para pavimentar o caminho em direção ao outro.

Alguns filósofos e religiosos são as novas Valquírias oferecendo seu hidromel a nós, mortos em combate, para que revivamos sem nenhum ferimento remanescente. Todas as relações inter-pessoais e intersociais estão permeadas de promessas nunca cumpridas. É tal qual o horizonte: vemo-lo, mas não o alcançamos. Aqueles que o alcançam ainda não retornaram, de forma convincente, para contar como é.

Romain Rolland ensinou que “a alegria e a dor são irmãs e ambas são santas. Elas são a vida, elas são Deus. E quem já pôde prová-las conhece o preço da vida e a doçura de deixá-la”. Analisemos um transplante de órgão: a dor de quem perde é irmã da alegria de quem recebe? O processo é “santo” ou apenas lógico?

Há muitos anos, li uma redação de um garoto de 8 anos na qual ele defendia a idéia de que “a melancolia é prima da tristeza, quase irmã”. Qual teria sido sua história de vida?

Onde residem os problemas que envolvem os transplantes? Certamente não estão no ato em si, mas na forma de obtenção da “matéria-prima”. O homem é a única espécie que desenvolveu a ciência, por ser a única – infelizmente – senciente a povoar o planeta. Aprendemos a tomar re-médios, a fazer abortos, a usar próteses, a construir armas, a fazer cirurgias de peito aberto, a construir a Bomba, a irradiar tumores, a clonar, a fazer transplantes de órgãos e a conhecer nosso genoma. Os problemas residem no conhecimento? Certamente que não. Os problemas residem na utilização do conhecimento. Saber quebrar o átomo não é bom nem ruim. O juízo de valor deve ser feito com a aplicação do conhecimento ou com os meios adotados para chegar à sua utilização.

Brecht colocou na boca de Galileu que “a única finalidade da ciência é a de diminuir a can-seira da miséria humana”. Se à ciência fosse unida uma ética de utilização do conhecimento adquirido, a “miséria humana” seria minimizada em sua essência, e os “Valhallas” seriam menos importantes. O “mundo aqui”, de Nietzsche, ficaria mais palatável a seus habitantes. Passaríamos a necessitar menos do hidromel “valquírico”.

O misticismo, quem sabe, perderia terreno para o mito. Experimentaríamos uma exegese junguiana. Testemunharíamos uma “virada do avesso” do homem. Quem sabe se o lado de dentro seja melhor...

A conformação de Bacon com a impossibilidade humana de não comandar a natureza parece-me estar perdendo terreno para os fatos. A ciência e as artes modificam a Natureza sim. O ato científico interferiu definitivamente na seleção darwinista, pelo menos no que se refere aos ho-mens. A seleção natural não corre com seus próprios pés, impedida pelas ciências da saúde. Curamos o antes incurável e reproduzimos o antes estéril. Faz-se necessário um repensar de nossas ações. Não que elas sejam erradas em si, mas devem ser realizadas com consciência do que es-tamos fazendo. Devemos livrar-nos, antes de tudo, da hipocrisia.

Muitas vezes o comportamento “ético” dos homens, se dissecado e analisado, leva-nos a pa-radoxos insustentáveis. A pesquisa espacial é um exemplo lapidar. As espaçonaves que pousam em outros mundos são esterilizadas. Existem acordos internacionais que não permitem que sejam deixados nesses mundos visitados nada que não seja absolutamente impossível de ser trazido de volta a Terra. Não contaminamos a Lua nem Marte mas não temos pudor com nossas matas, rios e oceanos! Será que a ciência (ou quem sabe os cientistas) está cumprindo o anátema galileano de diminuir a miséria de nossa existência?

O homem, por não possuir defesas contra as formidáveis epidemias psíquicas muito mais devastadoras do que qualquer catástrofe natural, conforme constatou Jung, precisa evoluir etica-mente para poder ambicionar “aprender a transcender a si próprio e, ao fazê-lo, adquirir a liberdade do Universo”, conforme afirmou Bertrand Russell. Somos uma parte; portanto, somos o Todo. O Universo se ressentiria de nossa ausência. Ora... sabemos por quem os sinos dobram.

O eterno silêncio do espaço infinito dilacerava Pascal. A mim, não! Faz sentir-me vivo! O meu barulho e minha finitude opõem-se ao silêncio e à infinitude, permitindo minha própria existência. Somos os Criadores. Assim como os marcianos, seremos nós.

Nietzsche criticou Darwin por defender a seleção dos mais fortes. Mas não foi bem isso o que Darwin defendeu em suas hipóteses. O darwinismo defende a seleção dos mais aptos. Nem sempre os mais fortes são os mais aptos. A extinção dos dinossauros prova o afirmado: uma mudança no ambiente mostrou que os grandes e fortes eram vulneráveis. Nas revoluções, as burguesias “fortes” e “aptas” sucumbem às mudanças do “meio ambiente.

Mais uma vez estamos diante da idiossincrasia do homem anteposto à vida. Uma espécie organizada (ou desorganizada) em sociedades, povos, tribos ou nações é levada a ficar exposta a uma grande diversidade de variáveis que fatalmente cria uma complexidade, cuja total compre-ensão (se é que é possível uma total compreensão) foge a nosso objetivo nesse momento. O fato é, que dentro dos processos criados pelos homens, o que nos fala diretamente é o comércio. Sempre é necessária a existência de três “personagens” para concretizar o procedimento: o ven-dedor, o comprador e o “vendido”.

O procedimento é extremamente normal e aceitável até certo ponto. Podemos vender obje-tos, colegas, idéias, vida: ora! “não se matam cavalos?” O que não podemos vender é o Homo sapiens. O primeiro problema vivenciado pela humanidade, nesse terreno, foi o da servidão. O segundo foi o da escravidão. O terceiro, e mais moderno, é o dos transplantes de órgãos. O mais surpreendente de todos esses processos abjetos é que constitui um forte tabu para todas as socie-dades humanas ao longo da história!

A solução encontrada é, talvez, mais perversa do que a transformação de homens em merca-doria. Somente são negociadas as pessoas que pertençam a grupos que não os dos vendedores. Isso “vale” até mesmo para os canibais. A mente humana é extremamente fértil, principalmente quando precisa justificar o injustificável.

Comecemos pelos canibais. Quem tinha o direito de devorar seres humanos? Certamente os vencedores. Os vencidos eram de outras tribos, portanto não eram do mesmo grupo, portanto eram inferiores, visto que não eram “escolhidos” pelos deuses como “povo eleito”. Para que servem seres inferiores? Para serem escravos ou alimento. Algumas tribos brasileiras devoravam os guerreiros adversários, mortos em combate, para adquirirem sua bravura e tornarem-se mais fortes, mais diferentes. Seus companheiros que morriam eram enterrados! Tudo perfeitamente “legal” e justificado, uma vez que “quem narra o acontecido é o sobrevivente e quem sabe o que acontece organiza o acontecido”, idéias de Otavio Ianni.

Este raciocínio pode ser perfeitamente comparado à escravidão. Vendemos sempre o Outro. Algumas vezes foi necessário recorrer à autoridade estabelecida para obter a “ajuda” necessária para fazer do Outro um pouco mais Outro... Os índios, os negros e as mulheres já foram conside-rados seres “sem alma” por meio de uma bula papal! Que forma brilhante de se desconstruir o Outro! A partir daí, os índios e os negros poderiam ser negociados sem culpa, e as mulheres po-deriam ser diminuídas, humilhadas e levadas às condições mais abjetas de servidão. E o pior: com o aval Dele...

Outro paralelo que pode ser feito é com as guerras. Nelas, a liberdade de matar é determina-da por um retângulo de pano colorido e por traços de tinta preta desenhadas em um mapa, igno-rado pelo planeta. Até a tortura torna-se justificável, uma vez que aquele que “organiza o acontecido” precisa obter informações!

Ortega y Gasset afirmou que quando um indivíduo teme ver-se face a face com uma realidade terrível procura ocultá-la com uma cortina de fantasia, onde tudo fica claro. Não se preocupa se suas “idéias” não são verdadeiras, pois tornam-se trincheiras para a defesa de sua existência, como espantalhos afugentando a realidade. Isso é “humano, demasiado humano”...

Nos tempos modernos, o canibalismo e a escravidão convergiram para a servidão em sua forma mais reles. O servil é o pobre. Ele é o novo não-Outro. É, nas sociedades contemporâneas, o grupo sem alma. E, com a globalização, os pobres formam um grupo sem fronteiras: todos os pobres do mundo são uma “coisa” só – um “banco” de trabalho e de órgãos. Seqüestrar, matar, humilhar, retirar órgãos ou comprá-los. Tudo é justificável e permitido. Afinal, qual seria a utili-dade dos pobres?

Jonathan Swift, o autor de As viagens de Guliver, apresentou uma irônica proposta sobre o que fazer com os pobres – servir de alimento para os abastados. Se o escritor irlandês fosse contemporâneo, certamente sua “proposta” seria no sentido de que a finalidade dos pobres seria a de prolongar a vida dos ricos.

A permanência de um indivíduo no conjunto, finito, dos vivos não deveria depender da conta bancária. Essa miséria humana não pode ser minimizada pela ciência, por mais que Galileu o desejasse.

Sobre a infinitude e a eternidade do Universo

Giordano Bruno nasceu em uma pequenina cidade às margens do Vesúvio chamada Nola, em 1548, em um dia já perdido na memória dos homens. Seu temperamento forte – quem sabe vindo de sua natureza “vulcânica” – levou-o a abandonar o hábito dominicano em 1576, após 13 anos de monastério.



Uma das principais preocupações do pensamento de Bruno era a infinitude, que trazia, a re-boque, a eternidade. Suas perguntas sobre a natureza do Universo perseguiram-no por toda a vida e acarretaram seu fim.

Para Bruno, um Universo finito não tem lugar na existência. “Se o mundo é finito e fora do Mundo está o nada, pergunto: onde se encontra o Mundo?” O conceito atual do nada – ausência de matéria, de espaço e de tempo – era bastante fugidio para o pensamento do século XVI. Lidar com a ausência de matéria ainda poderia fazer algum sentido naquela época, agora imaginar a ausência de tempo e de espaço era ousadia demais para ocorrer a mentes renascentistas.



A questão da infinitude e a da eternidade são extremamente complexas e não têm lugar na Cosmologia atual. Ao infinito, relegamos nossos medos, à eternidade, nossas frustrações.



Existe uma ordem de insetos chamada Ephemeroptera que é bastante curiosa. As ninfas des-ses insetos passam até três anos nas lagoas e, ao atingirem a forma adulta, ganham asas, voam e morrem. Tudo isso em apenas um ou dois dias! Se imaginarmos um inseto senciente, teríamos de concordar com a hipótese de que ele atribuiria à floresta a categoria de eterna e infinita, pois ela “sempre” existiu e é grande demais para ser percorrida em um dia. É como chegar a uma festa já começada e deixá-la antes de acabar. Os homens também são incapazes de perceber a mutabili-dade do céu, mas a humanidade pôde testemunhar as modificações sofridas pelo céu estrelado durante os 6.000 anos de civilização!



Se Bruno estava certo ou errado sobre as questões da infinitude ou da eternidade é irrelevan-te para nós. O verdadeiramente importante é que ele pensou sobre o Universo e pagou com sua vida esta ousadia. “A mente humana apreende a conceituação de infinito, diante da impotência de perpetuar a multiplicação de uma unidade qualquer de comprimento para, então, compará-la com o espaço. De modo que, seja onde for que a mente se situe, pode, com base nesta idéia uni-forme de espaço, mover-se sem deparar com nenhum obstáculo ou com um fim, concluindo, necessariamente, que, por sua própria natureza, o espaço é realmente infinito”, segundo os ensi-namentos de John Locke.



Vemos, assim, que, em primeira aproximação, atribuímos a categoria de infinito ao espaço pelo mesmo motivo que nosso inseto senciente a atribui à floresta: por uma deficiência do obser-vador! Concluímos que a noção de infinito jamais será empírica, pois é, muito mais, metafísica.



É importante notar que as fortes convicções religiosas que levaram Bruno a “optar” por clas-sificar o Universo como infinito levaram Kepler a rejeitá-la. A convicção de Kepler de que deus havia criado o Universo levou-o a acreditar que o Mundo teria de possuir os atributos de Ordem e Harmonia, portanto teria forma, atributo este incompatível com a infinitude.



Esta visão de Mundo levou Bruno a incompatibilizar-se com o Vaticano. A noção de um es-paço infinito choca-se com a concepção aristotélica que imaginava um espaço fechado e, tam-bém, com forma, decidida por deus; portanto, segundo Bruno, Aristóteles estava errado! Houve uma incompreensão, por parte de Bruno, do conceito aristotélico. E o erro repousava no fato de que o continuun de “lugares”, de Aristóteles, foi entendido por Giordano como sendo um espaço geométrico. O Mundo aristotélico tinha um limite, um fim. E Bruno questionava o que poderia acontecer se alguém atravessasse este fim com uma de suas mãos. Bruno conclui que a mão sim-plesmente deixaria de existir por não ocupar nenhum lugar no espaço!



Vejamos, havendo espaço fora de nosso mundo, ele seria idêntico ao espaço dentro de nosso mundo, e a rigor seria um só. Portanto, deus não poderia tratar o espaço de dentro de uma forma diferente do espaço de fora. Portanto, somos levados a concluir que estar no espaço é um atribu-to geral e, se em nosso “pedaço” do espaço existe o nosso mundo, então deve haver outros mun-dos no Universo. Essa conclusão foi fatal, literalmente, para Bruno.



Uma vez que o espaço é uniforme – sua infinitude garante este atributo – e deus criou o nos-so mundo, teria de criar outros, uma vez que a limitação da ação criativa de deus é inimaginável. Nesse caso a possibilidade implica realidade: o mundo infinito pode existir, portanto deve existir, portanto existe.



A afirmação de Bruno de que “há inúmeros sóis, e um número infinito de terras giram em torno destes sóis, da mesma forma que as sete que podemos observar [Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte, Saturno e Júpiter] giram em torno deste Sol que está próximo de nós” levou-o a ser preso por heresia e condenado à morte na fogueira por não ter abjurado de suas convicções.



A idéia de que as estrelas são sóis que possuem planetas girando à sua volta era heresia pura aos olhos do Vaticano, que não poderia permitir que os homens perdessem sua condição quase divina de ter sido criado à imagem e semelhança de deus e de serem fruto supremo do ato da criação. Os homens não poderiam ter “concorrentes” em outros planetas.



Essas concepções implicavam um confronto da infinitude do Mundo com a infinitude de deus. Bruno responde a isto, dizendo que não nega a diferença intrínseca da infinitude intensiva e perfeitamente simples de deus da infinitude extensiva e múltipla do Mundo. Comparado com deus, o Mundo era um nada, apenas um ponto. É esta “nulidade” do mundo e de todos os corpos que o compõem que implica a sua infinitude. Com isso podemos concluir a “perigosa conclusão” de que deus teria criado inumeráveis terras girando ao redor de inumeráveis sóis, com inumerá-veis indivíduos.



Não importava se essas concepções estavam corretas ou não. O risco que elas representavam é que, verdadeiramente, contava. A Inquisição não poderia correr o risco de que idéias “hereges” e revolucionárias se espalhassem pela população. Era muito importante para o poder da Igreja que os homens continuassem a achar que éramos a criação suprema e que todo o Universo teria sido feito para o regozijo humano.



Bruno foi levado a Roma, onde ficou preso por sete anos, até que, sem abjurar de suas con-vicções, foi levado à fogueira no dia 17 de fevereiro de 1600. Era o último ano do século XVI, o primeiro ano secular bissexto após a reforma do calendário. Hoje, 410 anos após a morte de Bru-no, ainda estamos às voltas com a confirmação da existência de vida em outros mundos. A certe-za de Bruno ainda não é a nossa certeza, mas sabemos duas coisas – temos duas certezas: exis-tem outros mundos, e as fogueiras ainda não foram todas apagadas...