quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sobre a infinitude e a eternidade do Universo

Giordano Bruno nasceu em uma pequenina cidade às margens do Vesúvio chamada Nola, em 1548, em um dia já perdido na memória dos homens. Seu temperamento forte – quem sabe vindo de sua natureza “vulcânica” – levou-o a abandonar o hábito dominicano em 1576, após 13 anos de monastério.



Uma das principais preocupações do pensamento de Bruno era a infinitude, que trazia, a re-boque, a eternidade. Suas perguntas sobre a natureza do Universo perseguiram-no por toda a vida e acarretaram seu fim.

Para Bruno, um Universo finito não tem lugar na existência. “Se o mundo é finito e fora do Mundo está o nada, pergunto: onde se encontra o Mundo?” O conceito atual do nada – ausência de matéria, de espaço e de tempo – era bastante fugidio para o pensamento do século XVI. Lidar com a ausência de matéria ainda poderia fazer algum sentido naquela época, agora imaginar a ausência de tempo e de espaço era ousadia demais para ocorrer a mentes renascentistas.



A questão da infinitude e a da eternidade são extremamente complexas e não têm lugar na Cosmologia atual. Ao infinito, relegamos nossos medos, à eternidade, nossas frustrações.



Existe uma ordem de insetos chamada Ephemeroptera que é bastante curiosa. As ninfas des-ses insetos passam até três anos nas lagoas e, ao atingirem a forma adulta, ganham asas, voam e morrem. Tudo isso em apenas um ou dois dias! Se imaginarmos um inseto senciente, teríamos de concordar com a hipótese de que ele atribuiria à floresta a categoria de eterna e infinita, pois ela “sempre” existiu e é grande demais para ser percorrida em um dia. É como chegar a uma festa já começada e deixá-la antes de acabar. Os homens também são incapazes de perceber a mutabili-dade do céu, mas a humanidade pôde testemunhar as modificações sofridas pelo céu estrelado durante os 6.000 anos de civilização!



Se Bruno estava certo ou errado sobre as questões da infinitude ou da eternidade é irrelevan-te para nós. O verdadeiramente importante é que ele pensou sobre o Universo e pagou com sua vida esta ousadia. “A mente humana apreende a conceituação de infinito, diante da impotência de perpetuar a multiplicação de uma unidade qualquer de comprimento para, então, compará-la com o espaço. De modo que, seja onde for que a mente se situe, pode, com base nesta idéia uni-forme de espaço, mover-se sem deparar com nenhum obstáculo ou com um fim, concluindo, necessariamente, que, por sua própria natureza, o espaço é realmente infinito”, segundo os ensi-namentos de John Locke.



Vemos, assim, que, em primeira aproximação, atribuímos a categoria de infinito ao espaço pelo mesmo motivo que nosso inseto senciente a atribui à floresta: por uma deficiência do obser-vador! Concluímos que a noção de infinito jamais será empírica, pois é, muito mais, metafísica.



É importante notar que as fortes convicções religiosas que levaram Bruno a “optar” por clas-sificar o Universo como infinito levaram Kepler a rejeitá-la. A convicção de Kepler de que deus havia criado o Universo levou-o a acreditar que o Mundo teria de possuir os atributos de Ordem e Harmonia, portanto teria forma, atributo este incompatível com a infinitude.



Esta visão de Mundo levou Bruno a incompatibilizar-se com o Vaticano. A noção de um es-paço infinito choca-se com a concepção aristotélica que imaginava um espaço fechado e, tam-bém, com forma, decidida por deus; portanto, segundo Bruno, Aristóteles estava errado! Houve uma incompreensão, por parte de Bruno, do conceito aristotélico. E o erro repousava no fato de que o continuun de “lugares”, de Aristóteles, foi entendido por Giordano como sendo um espaço geométrico. O Mundo aristotélico tinha um limite, um fim. E Bruno questionava o que poderia acontecer se alguém atravessasse este fim com uma de suas mãos. Bruno conclui que a mão sim-plesmente deixaria de existir por não ocupar nenhum lugar no espaço!



Vejamos, havendo espaço fora de nosso mundo, ele seria idêntico ao espaço dentro de nosso mundo, e a rigor seria um só. Portanto, deus não poderia tratar o espaço de dentro de uma forma diferente do espaço de fora. Portanto, somos levados a concluir que estar no espaço é um atribu-to geral e, se em nosso “pedaço” do espaço existe o nosso mundo, então deve haver outros mun-dos no Universo. Essa conclusão foi fatal, literalmente, para Bruno.



Uma vez que o espaço é uniforme – sua infinitude garante este atributo – e deus criou o nos-so mundo, teria de criar outros, uma vez que a limitação da ação criativa de deus é inimaginável. Nesse caso a possibilidade implica realidade: o mundo infinito pode existir, portanto deve existir, portanto existe.



A afirmação de Bruno de que “há inúmeros sóis, e um número infinito de terras giram em torno destes sóis, da mesma forma que as sete que podemos observar [Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte, Saturno e Júpiter] giram em torno deste Sol que está próximo de nós” levou-o a ser preso por heresia e condenado à morte na fogueira por não ter abjurado de suas convicções.



A idéia de que as estrelas são sóis que possuem planetas girando à sua volta era heresia pura aos olhos do Vaticano, que não poderia permitir que os homens perdessem sua condição quase divina de ter sido criado à imagem e semelhança de deus e de serem fruto supremo do ato da criação. Os homens não poderiam ter “concorrentes” em outros planetas.



Essas concepções implicavam um confronto da infinitude do Mundo com a infinitude de deus. Bruno responde a isto, dizendo que não nega a diferença intrínseca da infinitude intensiva e perfeitamente simples de deus da infinitude extensiva e múltipla do Mundo. Comparado com deus, o Mundo era um nada, apenas um ponto. É esta “nulidade” do mundo e de todos os corpos que o compõem que implica a sua infinitude. Com isso podemos concluir a “perigosa conclusão” de que deus teria criado inumeráveis terras girando ao redor de inumeráveis sóis, com inumerá-veis indivíduos.



Não importava se essas concepções estavam corretas ou não. O risco que elas representavam é que, verdadeiramente, contava. A Inquisição não poderia correr o risco de que idéias “hereges” e revolucionárias se espalhassem pela população. Era muito importante para o poder da Igreja que os homens continuassem a achar que éramos a criação suprema e que todo o Universo teria sido feito para o regozijo humano.



Bruno foi levado a Roma, onde ficou preso por sete anos, até que, sem abjurar de suas con-vicções, foi levado à fogueira no dia 17 de fevereiro de 1600. Era o último ano do século XVI, o primeiro ano secular bissexto após a reforma do calendário. Hoje, 410 anos após a morte de Bru-no, ainda estamos às voltas com a confirmação da existência de vida em outros mundos. A certe-za de Bruno ainda não é a nossa certeza, mas sabemos duas coisas – temos duas certezas: exis-tem outros mundos, e as fogueiras ainda não foram todas apagadas...

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