Quando Helius escondia-se atrás do horizonte, milhões de olhos cintilantes surgiam observando o planeta. No silêncio da escuridão amedrontadora podia-se apenas ouvir os sons da noite e de predadores em busca de vida, para viverem.
Não há certeza se foi o tempo e o vento ou se foi o vento e o tempo que trouxeram mais luz àqueles que passaram a levantar a cabeça e encarar os milhões de olhos que os esperavam há milhões de anos. Assim ocorreu o chamado. As estrelas convidaram nossos avós e... nós partimos.
Adágio
Nyx teve diversos filhos, entre eles a Discórdia, a Ética, a Miséria, o Sonho e os gêmeos Sono e Morte. A compreensão de para onde estávamos indo foi retirando o medo que tínhamos dos filhos da noite e transferindo-o para os filhos do homem. A luta pelo espaço, pela água, pela comida, forjou uma espécie que se uniu à maioria dos filhos de Nyx para livrarem-se da Ética e do Sonho. Estamos mudando as alianças – que venham os exilados para que uma época vá embora, mas que vá lentamente, como a noite que amanhece sem que a gente saiba exatamente como aconteceu.
Máquinas a vapor, lunetas, telescópios, navios, carros e aviões. Buscamos ver e andar melhor, tentamos compreender melhor o mundo à volta como um destino desenhado como efeito colateral da inteligência. Não nos basta sobreviver e reproduzir. Precisamos de mais do que isso; vencemos a compulsão biológica, substituindo parte dela pela compulsão cognitiva – precisamos saber, e para saber mais é preciso perguntar mais, é preciso olhar mais para aqueles milhões de olhos que nos esperam há tanto tempo... O dia em que nos juntarmos às estrelas poderemos olhar novamente para nosso chão, mas será um chão muito, muito diferente de todos os que já pisamos.
Acorde
Em muitos aspectos a Filosofia e a Astronomia se tocam – ambas têm muito que aprender, mas não dispõe inteiramente do objeto de seu estudo. O homem é inacessível ao filósofo como o Universo o é ao astrônomo. Essas formas de saber não dispõem de laboratórios onde experiências podem ser levadas a cabo. A elas cabe observar, inferir, concluir. A Astronomia e a Filosofia dependem de acontecimentos inteiramente alheios a seus desejos. É o que as torna o primeiro som do acorde.
As diligências sobre como ocorreu a instalação da vida na Terra é de importância intrínseca ao próprio tema. É peculiar o fato de discutirmos a vida sendo seres vivos. A vida parece ser o mais complexo sistema físico-químico que surgiu no Universo. Até onde sabemos, essa reação química pensa, reage, sofre, ama e tenta compreender o Mundo que a cerca e que a possibilitou. Tentar explicar a vida sendo dotados de tal faculdade tornou-se o ponto precípuo do interesse que o assunto desperta. Esse é o segundo som do acorde.
Permeia o conjunto dos saberes humanos, a dualidade. Talvez a mais famosa dualidade científica seja a matéria e a energia. Essa dualidade é especial por encarnar a complementaridade em sua forma mais explícita. Idiossincraticamente são a mesma entidade, manifestas em suas formas particulares. Alotropia cósmica? O início foi construído com energia, mas o hoje é feito de matéria; suas formas são inúmeras, algumas se reproduzem de forma quase igual e outras, após alguns passos, pensam sobre tudo isso.
O inexorável fluir do tempo trouxe à existência o homem, ser que conquistou o poder de perguntar e de argumentar. Por trás de um cérebro primata está a inteligência, que desencadeou processos físicos, químicos, psicológicos, enfim, processos biológicos que levaram o homem a se estruturar em sociedades. Detentora de características muito próprias, as sociedades humanas iniciaram seu desenvolvimento na História até chegar aos complexos estágios culturais modernos, que devem ser objeto de estudo e análise para todos que estejam interessados em aumentar sua parcela, ou mesmo sua participação, no dinâmico mecanismo evolutivo social e científico a que cada homem se encontra sob jugo.
O processo social e científico já sofrido, ou a sofrer, pela espécie humana possui um destacado papel exercido pela inteligência, que, ao analisar os processos intrínsecos à biologia do ser inteligente, prepara o terreno para que inúmeras dúvidas sobre o comportamento humano e sobre a necessidade de decisão que um cientista se vê frente a frente no desenrolar de seus estudos comecem a ser decifradas ou, na melhor das hipóteses, compreendidas e aceitas. Esse é o terceiro som do acorde.
Questões se apresentam quando tratamos da vida e da morte. A morte está presente em qualquer futuro. O medo e a má convivência dos homens com a morte induziram a criação das entidades eternas. Primeiro foram os deuses, depois as estrelas, e agora, o Universo. Parece que Nyx detinha o instrumento que emitiu o acorde.
Uma das primeiras conquistas do Homo sapiens foi a faculdade de pensar. Depois aprendeu a comunicar seus pensamentos, o que é, indubitavelmente, uma ação para a compreensão do Mundo. O pensar envolve a compreensão do indivíduo, mas a comunicação envolve a razão do coletivo. A ciência caracteriza-se por permitir que cada experimento seja repetido em qualquer lugar e a qualquer tempo. Essa propriedade a destaca dos mitos e das superstições, mas somente existe por existir a linguagem. Agora ouvimos o quarto som do acorde.
Se um predador se aproxima, sua vítima em potencial pode vê-lo ou ouvi-lo. A luz é irradiação eletromagnética, o som é vibração mecânica, que perturba o ar ou a água em torno da vítima, mas o sistema nervoso dos seres vivos, inteligentes ou não, não “falam” essa língua, é preciso que esses estímulos sejam transmutados em impulsos elétricos dentro de seus condutores celulares. Nesse instante entram os órgãos dos sentidos, que se tornam “tradutores oficiais” do que acontece no Mundo à volta para que o indivíduo possa inferir acontecimentos e deduzir que tem acesso à realidade.
Somente nos últimos anos, após mais de 6 mil anos de civilização, os homens perceberam que o que chamamos de realidade é apenas uma “caricatura” do real. Não temos acesso à Realidade. Pensar o Mundo significa tentar explicá-lo, buscar compreender seu sentido. Existem várias formas para alcançar esse fim. Durante as tentativas, surgem os vários conceitos de verdade. Reconhecer que existem verdades é o quinto som do acorde.
O artista reparte com o cientista e com o filósofo a perplexidade diante do Mundo, mas com uma vantagem, a arte pode se permitir exteriorizar o imaginário de formas complexas e esteticamente belas. Um artista deve ter a liberdade de se transcender, liberdade essa que é explicitada quando representa o real e o imaginário, à vezes sem distingui-los.
Platão achava que “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. Aristóteles associou o tempo ao movimento, que seriam percebidos juntamente.
O tempo é uma variável que assusta e estimula os homens desde que começou o processo de pensar. O que seria isso que a tudo envolve e é superior a tudo que o homem tenta fazer para controlar sua passagem, suas conseqüências ou para descobrir se também é uma estrada, como pensa que é o espaço. Impulsionados pelo tempo, seguiremos uma viagem pelo espaço e ouviremos o sexto som do acorde.
Do Mundo faz parte a Terra. Do saber humano faz parte a Filosofia. Uma vez nascido, o indivíduo passa por fases de aprendizagem e de adaptação cultural ao seu meio. Desse processo surgem as concepções próprias de vida; surgem as maneiras peculiares de análise, que quando exteriorizadas o fazem sob a forma de conhecimento filosófico. O conhecimento filosófico é a exteriorização do interior, e o conhecimento científico é a interiorização do exterior. Filosofar é exteriorizar o Eu, é a exposição, para todos os homens, do que se passa no inconsciente e nas cunas mais profundas do ser que se expressa.
Paralelamente ao desenvolvimento do conhecimento filosófico, participamos do desenvolvimento do conhecimento científico, ramo do saber que muito fez pelo homem e por seu bem-estar em nosso planeta, levou-o para fora dele, colocando-o em contato com mundos diferentes daquele que lhe serviu de berço. Baseado nestas conquistas, filósofos e cientistas tentam expor as diferentes bases das formas de pensar do homem. Esse é o sétimo som do acorde.
A recuperação de dados do passado somente é útil se pudermos fazer uso deles no presente; e, ao fazê-lo, estaremos reconstruindo o passado. Não o passado do homem, mas, sim, o passado que pensamos ser o do homem. Cada um que recupera dados o faz de maneiras diferentes, com interpretações diferentes. O passado não é fixo, ele é reconstruído por quem o olha. A razão para isso é que os dados têm de ser interpretados para serem usados, e isso é feito imerso no contexto do historiador que, sendo um homem, é a soma de seus passados.
O registro de dados quase nunca é fiel aos fatos. O sociólogo paulista Otávio Ianni (1926-2004) afirmava que quem narra o acontecido é o sobrevivente. É a melodia se desenhando.
O espaço e o tempo estão no âmago de todas as formas de conhecimento. É uma preocupação constante em todas as mentes, e é o tema ideal para levá-las a fazer as perguntas fundamentais sobre o Mundo à volta, podendo concluir que a existência tem um propósito e que o Universo faz sentido, o que irá contribuir sobremaneira para a construção individual de uma visão-de-mundo que seja montada com uma parte roubada à realidade e outra roubada aos sonhos.
É o fim dos acordes.
Sonata
A viagem no tempo deslumbra e assombra a humanidade há muito tempo (sem trocadilhos!). A ficção científica está, indelevelmente, ligada às viagens temporais. O século XIX foi um marco para essas histórias, era o início do conceito do uso da ciência para se viajar ao passado e ao futuro. Em 1888, H. G. Wells (1866-1946) escreveu sua famosa obra A máquina do tempo, em seguida surge Um ianque na corte do Rei Arthur, de Mark Twain (1835-1910), quando é introduzida a polêmica sobre as viagens no tempo. O personagem de Twain, Hank, interfere na ordem social da corte construindo um rudimentar telefone para os medievais, significando que o personagem modificou a História. Essa é a controvérsia do tema. É possível mudar a História?
Essa é uma pergunta intrinsecamente incapaz de ser respondida. Caso fosse possível modificar a História, uma vez modificada, seu novo caminho seguiria adiante, e ninguém teria a percepção das mudanças. As novas cadeias causais dariam origem a novas realidades cujos “habitantes” ignorariam que mudaram de realidade quando algo no passado fosse mudado.
Uma resposta negativa a essa pergunta serve, há décadas, como argumento para quem não crê na possibilidade de se viajar no tempo, pois um viajante poderia ir ao passado e, mesmo sem querer, matar seu avô, ainda menino, fazendo com que ele não possa nascer e, então, não possa fazer a viagem em questão. Esse paradoxo passou à História como o Paradoxo do avô.
A grande questão é nossa enorme dificuldade de apreender o tempo. Quando pensamos no tempo, surgem dúvidas às vezes aparentemente insolúveis, mas ele está lá, nos comandando, fluindo, e nós não sabemos nem se estamos imersos ou emersos nessa corrente.
Arquimedes (287 a.C.-212 a.C.) acompanhando seu antecessor Parmênides, (c.530 a.C.-460 a.C.) dizia que era necessário esconder o tempo, transformá-lo, reduzi-lo a alguma coisa, talvez à Geometria. Einstein fez isso 2.127 anos depois! Já Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), seguindo Heráclito (c.540 a.C.-c. 470 a.C.), achava que o tempo deveria ser encarado sem subterfúgios porque tinha a convicção de que o mundo era temporal por natureza e os eventos futuros seriam totalmente reais.
Primeiro andamento: um gato é avistado
Se viajássemos no tempo, encontraríamos a mesma realidade que havíamos estudado nos livros antes de nossa viagem, porque quando aquela realidade “aconteceu” lá estava o viajante, mesmo que ele não tivesse nascido. Se alguém do século XXX viajou para Roma e encontrou César, na época “correta” em que César viveu, ele encontrou um viajante que ainda não sonhava em nascer.
Existe outro problema que quase nunca é considerado. Imaginemos uma máquina do tempo que é regulada para viajar para o dia 31 de dezembro de 2006. O viajante liga a máquina e o que vê? O espaço!, pois no dia 31 de dezembro de 2006 a Terra não estava onde estava no dia em que o viajante acionou a máquina do tempo. A viagem no tempo sem a devida correção de espaço é morte certa!
A Mecânica Quântica traz intrigantes possibilidades. Uma famosa interpretação das equações da MQ conhecida como Interpretação de Copenhague, afirma:
O ato de observar provoca o “colapso da função de onda”, o que significa que, embora antes da medição o estado do sistema permitisse muitas possibilidades, apenas uma delas foi escolhida aleatoriamente pelo processo de medição, e a função de onda modifica-se instantaneamente para refletir essa escolha.
O significado de tudo isso, na prática, é que uma partícula existe em todos os seus estados possíveis simultaneamente! Quando o observador a observa, uma das possibilidades é “escolhida” e vemos um dado estado. Em uma outra situação, o mesmo observador ou um outro qualquer volta a observar a mesma partícula e ela “mostra” uma outra possibilidade, o que faz com que concluamos que o Mundo Quântico é irregular.
Chamamos de superposição coerente a coexistência do total dos estados possíveis de uma partícula, e o “total de estados possíveis em que uma partícula pode existir” é a sua Função de Onda. No momento em que o observador observa, a superposição “colapsa” e a partícula assume um dos estados de sua função de onda.
Na prática, isso significa que se uma dada equação possuir três soluções possíveis, somente uma ocorre, e a equação, com essa dada solução, é a equação colapsada. Essa interpretação provocou um levante entre físicos e filósofos, uma vez que a realidade seria criada por um processo de observação que não era físico. Einstein não a aceitava por nada e chegou a perguntar a Bohr, se ele achava mesmo que a Lua não estaria lá quando ele não estava olhando para ela!
Segundo andamento: atirei o pau no gato
Diante da total impossibilidade de realizar experimentos laboratoriais que pudessem comprovar, ou refutar, as interpretações da Mecânica Quântica, os cientistas propunham experimentos mentais. Um dos mais famosos foi proposto, em 1935, pelo físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961) e ficou conhecido como o Gato de Schrödinger.
O experimento consistia em colocar-se um gato dentro de uma caixa totalmente opaca. Dentro dela havia um punhado de material radioativo e um medidor de radiação. O instrumento estava montado para que quando detectasse o decaimento do material radioativo liberasse um martelo que quebraria um frasco contendo ácido cianídrico que, uma vez liberado, mataria o gato. A duração do experimento seria de uma hora, intervalo de tempo bastante razoável para que alguma coisa acontecesse dentro da caixa... ou não!
Durante o período da experiência, o estado do gato era desconhecido – não se sabia se o gato estava vivo ou morto; ele se encontrava em uma situação de vida e morte. Dentro da caixa, existem as duas possibilidades, mas não sabemos qual ocorrerá até que se abra a caixa. Pela interpretação de Copenhague, ao abrirmos a caixa uma delas se “realizaria” e veríamos um gato morto ou um gato vivo. É o papel do observador determinando a “realidade” do observado.
Por tudo isso foi que Niels Bohr (1885-1962) afirmou que “quem não ficar chocado com a teoria quântica é porque não a compreendeu”.
Uma conseqüência dessa interpretação é que conforme o tempo decorre, informações vão sendo transmitidas, e suas funções de onda vão sendo sobrepostas, a tal ponto que envolverá o Mundo até que ele esteja totalmente tomado por uma rede de funções de onda que se tornará a realidade quando o Mundo for observado. Mas quem observa os observadores?
Essa noção de reduzir a complexa rede de equações de onda em uma apenas – que seria a realidade – é muito difícil de ser aceita porque o Universo se contém a si mesmo. Nada lhe é exterior, e não podemos reduzi-lo a uma única equação de onda.
O físico teórico norte-americano John Wheeler (1911-2008) propôs que o dilema fosse resolvido por meio da consciência – nós –, utilizando uma causalidade que retrocedesse ao Big Bang. Os homens têm acesso, segundo Wheeler, a apenas uma porção do Cosmo, que seria composto por diversas e gigantescas nuvens de incerteza que ainda não entraram em contato com algum observador consciente. Wheeler admite que essa é uma idéia que expande a mente, mas nem mesmo é uma teoria, apenas uma intuição.
Cada ser senciente é um observador que é constituído de parâmetros, referenciais, desejos, prazeres e idiossincrasias que os torna únicos. Isso significa na prática que cada ser humano tem sua visão-de-Mundo. Na prática cada ser humano tem seu universo que é destruído juntamente com sua morte. Sempre que nasce alguém, surge um novo universo; e sempre que morre alguém, perde-se um universo. O Universo surgiu com o primeiro homem e desaparecerá com o último. Por que é assim? Simplesmente porque o Universo é um conceito, e não sabemos em que grau ele se justapõe à realidade.
Sobre isso o físico russo Andrei Linde (1948- ) escreveu:
Você pode perguntar se o Universo realmente existia antes de você começar a olhar para ele. É a mesma pergunta sobre o gato de Schrödinger. E minha resposta seria que o Universo parece como se existisse antes que eu começasse a olhar para ele. Quando você abre a caixa do gato após uma semana, você vai encontrar um gato vivo ou um pedaço fedorento de carne. Você pode dizer que o gato parece que esteve morto ou esteve vivo durante a semana toda. Da mesma maneira, quando olhamos para o Universo, o melhor que podemos dizer é que parece que ele estava ali há dez bilhões de anos.
O Universo e o observador existem como um par. Você pode dizer que o Universo está ali apenas quando existe um observador que possa dizer: Sim, eu vejo o Universo ali. Essas pequenas palavras – parece que ele estava ali – podem não ter muita importância na prática, mas para mim, como ser humano, não sei em que sentido eu poderia afirmar que o Universo esteja aqui na ausência de observadores. Estamos juntos, nós e o Universo. No momento em que você diz que o Universo existe sem quaisquer observadores, eu não consigo tirar sentido disso. Não posso imaginar uma teoria consistente de tudo que ignore a consciência. Um dispositivo de gravação não pode desempenhar o papel de um observador porque: quem lerá o que está escrito no dispositivo de gravação? Para que possamos ver que algo acontece, e dizermos uns aos outros que algo acontece, temos que ter um Universo, um dispositivo de gravação, e precisamos de nós. Não é o suficiente que a informação seja armazenada em algum lugar, completamente inacessível a qualquer pessoa. É necessário que alguém olhe para ela. Você precisa de um observador que olhe para o Universo. Na ausência de observadores, nosso Universo está morto.
Terceiro andamento: mas o gato não morreu!
Como alternativa a essas interpretações foi apresentada a definição do físico Hugh Everett III (1930-1982), em 1957, que ficou conhecida como dos “mundos múltiplos”. Para Everett todas as realidades possíveis ocorreriam em suas partes no “superespaço” e no “supertempo”. Ao realizarmos uma medição no nível quântico, estaríamos, então, “escolhendo” a possibilidade que chamamos de realidade. O ato de observar “quebra” as ligações entre as outras “realidades” e faz com que cada uma delas vá para seu lugar específico no “superespaço”. Deduzimos, então, que existe um observador para cada alternativa de realidade, portanto todas as alternativas ocorrem em algum lugar do “superespaço”.
Em termos coloquiais, o que Everett propôs foi a existência de inúmeros universos que apresentam diferentes estados físicos. É a possibilidade da existência de inúmeros universos, nos quais todas as probabilidades se concretizam. O conjunto de todos esses universos forma o conhecido Multiverso (Ver “Os Universos paralelos” nesse Blog).
Quarto andamento: trabalho de gato
A energia é a entidade fundamental da Física e é definida qualitativamente como a capacidade de se realizar trabalho, e para existir trabalho é necessária a presença de uma força que desloque um corpo. Por exemplo, um arqueiro exerce um trabalho para encurvar o arco, que transmite energia para a flecha que atravessa o ar.
A energia e suas “transformações” são estudadas pela parte da Física chamada Termodinâmica, que possui, como destaque, três leis. No nosso caso, a primeira é que é a fundamental: Princípio da Conservação da Energia, e afirma que “a energia do Universo é constante”, ou seja, “no decorrer de um processo qualquer, a energia pode se transformar, mas não pode ser criada nem destruída”.
Esse é o problema do gato. Como o Universo se duplicaria sem duplicar a quantidade de energia existente? Os universos paralelos teriam de violar a Primeira Lei da Termodinâmica para existirem.
Os universos paralelos – o Multiverso – poderiam existir, mas não de forma concreta, não em uma existência física.
O pulo do gato
Ao analisarmos o conceito de universos paralelos e, conseqüentemente, o de Multiverso, verificamos, facilmente, que essa entidade é uma coleção de tudo o que pode acontecer ao Mundo e aos homens. Todas as decisões – e indecisões – tomadas, ou não, aconteceram em algum mundo. Em algum universo esse texto nem existe!
Invocaremos, agora, conhecimentos “já sabidos” que têm contato com nosso tema.
Iniciaremos com Platão (427 a.C.-347 a.C.), o pensador da Grécia antiga. Para ele tudo que podemos tocar ou ver é efêmero, “flui”, como ele dizia. Um homem, uma casa, um cão, uma espada e todas as coisas que existem não duram para sempre, mas a idéia de homem, de cão, de espada é perene. A esse mundo de coisas efêmeras ele chamou de Mundo dos Sentidos. Nossos cães envelhecem, ficam doentes, morrem, mas a idéia de cão permanece.
Se observarmos uma coleção de soldadinhos de chumbo, os identificaremos como soldadinhos de chumbo, mesmo que faltem pernas ou cabeças de alguns, isso porque a idéia “soldadinho de chumbo” existe e temos acesso a ela. Por trás de uma mesa existe a idéia mesa, por trás de um cavalo existe a idéia cavalo, e assim por diante. A realidade autônoma que existe independentemente de nós e que contém todas as idéias, Platão chamou de Mundo das Idéias. O acesso ao Mundo dos Sentidos, aquele que “vivenciamos” é feito por meio dos sentidos, mas o acesso ao Mundo das Idéias somente pode ser feito por meio da razão.
Passemos para a época contemporânea, para ouvirmos Carl Jung (1875-1961), que propôs a existência do inconsciente coletivo, entidade que não deve sua existência a experiências pessoais. Os sentimentos e as idéias reprimidos, desenvolvidos durante a vida constituem o inconsciente pessoal. O inconsciente coletivo é herdado por toda a humanidade e é um conjunto de sentimentos, de pensamentos e de lembranças compartilhados. É, na realidade, um conjunto de imagens latentes, chamadas de arquétipos (imagens primordiais). Um indivíduo não se lembra das imagens de forma consciente, mas tende a reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Os arquétipos presentes no inconsciente coletivo são universais e idênticos para todos os indivíduos.
As visões aqui apresentadas lembram o conceito de Multiverso – a entidade que contém em si – e apesar dos indivíduos – todas as possibilidades de realidade. Nossa consciência vai “construindo” a realidade enquanto percorre o Mundo, mas ela não pode construir qualquer realidade, mas somente as que são compatíveis com as probabilidades físicas, com as idéias de Platão ou com os arquétipos de Jung!
Iliana Hernández Garcia, professora de estética na Universidade Javeriana, em Bogotá, Peru, afirmou que: A realidade não existe ou é, mas simplesmente emerge. A realidade não é nada além de um estado da possibilidade que surge sob determinadas condições.
O gato que pula somos nós. Onde pulamos? Cada um que responda a essa pergunta!
O avô do gato
As situações bizarras decorrentes dos universos paralelos não parecem muito comprometidas com os fatos, pois estes criariam situações de altíssima complexidade, como no caso, por exemplo, de uma guerra. Quantas decisões e ações diferentes ocorreriam, levando ao Multiverso, uma situação de enovelamento insolúvel.
Quanto ao fato de que se alguém pudesse viajar no tempo poderia modificar o presente, é uma presunção lógica, mas não deve ser usado como argumento contra a viagem temporal, porque não temos como descobrir se o que estamos vivendo já não é uma realidade modificada. Quando ocorre a mudança, os atores – nós – mudam e não ficamos sabendo que mudamos. Não há lembranças dos fatos que deixaram de ocorrer.
É agora que retornamos à discussão sobre o intrigante paradoxo do avô. Reunindo a idéia da viagem no tempo com a possibilidade de mudar a realidade, constatamos que existe uma chance de contornar o paradoxo sem que sejam envolvidos universos paralelos.
Imaginemos que um viajante volte no tempo e chegue a uma época na qual seu avô tem 14 anos. Lá ele mata um cidadão qualquer de 15 anos, por exemplo. O que acontece? O morto não terá filhos e seus descendentes “sumirão” da História. Isso pode? Pode! A História se modificaria no instante (ênfase no instante) seguinte ao da ação do assassino. Até o instante do tiro, a História permanece igual. Agora analisemos o assassino encontrando seu avô-garoto. Ele dispara e o mata. O assassino deixa de existir no instante imediatamente após a morte do avô, mas não antes do disparo! Veja bem, o disparo foi feito antes do avô morrer, portanto o assassino ainda existia. Tudo que decorreria da vida do avô deixa de acontecer, tudo que decorre do neto deixa de acontecer, mas os atos ocorridos antes da morte ocorrem, portanto o assassino do garoto jamais será encontrado, será mais um caso policial sem solução, mas existirá.
A Linha do Tempo 1 bifurca-se em T4, formando uma nova linha do tempo, a Linha do Tempo 2, que passa a ser a que nós vivemos; mas tudo que ocorreu antes de T4 continua sendo nosso passado, igual ao que era na Linha do Tempo 1.
Assim, o paradoxo do avô pode ser contornado e, portanto, não pode ser usado como argumento contra a viagem no tempo.
Essa argumentação não tem por finalidade justificar a existência das viagens temporais, mas apenas mostrar que não há, realmente, um paradoxo envolvido. Precisamos encontrar um argumento que seja realmente irrefutável para afastar essa hipótese.
Assim, o paradoxo do avô pode ser contornado e, portanto, não pode ser usado como argumento contra a viagem no tempo.
Essa argumentação não tem por finalidade justificar a existência das viagens temporais, mas apenas mostrar que não há, realmente, um paradoxo envolvido. Precisamos encontrar um argumento que seja realmente irrefutável para afastar essa hipótese.
Existem gatos?
O conceito de existir deve ser interpretado, apreendido e pacificado. Ter certeza de que algo existe talvez seja o mais poderoso de todos os exercícios mentais. As coisas existem em um dado contexto e não existem em outros. Por exemplo, no contexto dos números reais as raízes quadradas não existem; no contexto dos números inteiros, o número p não existe. Deus não existe no contexto dos ateus, assim como Odin existe no contexto dos nórdicos. No contexto dos religiosos, os milagres existem; no contexto dos gregos antigos, centauros vagavam pelas pradarias; no contexto de Dom Quixote moinhos eram dragões; no contexto de Alexandre, o Grande, só existia ele; no contexto de Bentinho... bem, nesse não sabemos o que aconteceu!
É mister definirmos sobre o que estamos falando quando pensamos em existência. Não reagimos ao real, mas sim à forma como vemos o real. Não importa como sua mãe é, mas sim como você acha que sua mãe é (acho que Freud me ajudou nessa!). Talvez a única entidade que permeia todo e qualquer contexto seja o tempo que “é o mediador entre o possível e o real”.
Existem vários “reais”, existem vários mundos inteiramente reais onde as pessoas que os habitam lutam, matam, amam, sofrem, escrevem poemas, músicas e manifestos segregacionistas.
Tal o Multiverso, nossa vida é uma coletânea de mundos, talvez por isso mesmo a teoria “surgiu”, os universos paralelos (que são criados por nossas dúvidas e indecisões) parecem ser uma metáfora – o Multiverso é a grande metáfora de nós mesmos!
Precisamos, por isso, de proteção contra nossos monstros e fadas.
Partamos, pois, para construir tantos universos paralelos quanto for possível, porque alguns poderão servir para alguém... que ainda não chegou.
