Pode-se observar que a conceituação clássica de educar é a de transmitir conhecimento. Este é o conceito tradicional, aquele com que convivemos ao longo do existir do homem no planeta, uma vez que não se faz necessária a existência da linguagem falada para existir transmissão de conhecimento. Certamente podemos afirmar que desde os tempos primitivos, quando o Homo sapiens engatinhava, já havia procedimentos educacionais, uma vez que a mais primeva forma de educar é o exemplo.
O processo educacional chegou até os nossos dias com modificações bastante radicais, mas guarda uma característica única em seu interior – é dependente da cultura onde está inserido aquele que educa!
A definição clássica afirma que educar é transmitir os preceitos de uma civilização, portanto não podemos nos referir a nenhum processo educacional fora de um dado contexto. É de primordial importância que tenhamos sempre em mente que estamos realizando um processo que não é universal e nem mesmo é válido dentro de todas as comunidades de um mesmo centro urbano.
Surge, então, questões que devem ser discutidas, como a validade da existência de um único programa escolar para todo um país, principalmente para um país como o Brasil que possui vários países dentro de si.
Qual será o verdadeiro papel do Estado diante das necessidades básicas de seu povo? Verifica-se que falar em educação sem falar em referenciais é um discurso totalmente estéril. Onde está a origem dos nossos referenciais? Quais são eles? Muitas vezes os educadores – pais ou professores – não possuem consciência plena de que estão utilizando referenciais alienígenas para a transmissão de conhecimento. Este é um mal que assola nossos dias, preço que pagamos pela tão decantada globalização.
A globalização dos valores culturais é o imperialismo do terceiro milênio.
O papel dos paradigmas
O eterno dilema humano é responder às perguntas que surgem sobre o Mundo à volta. Os homens sempre tentaram compreender o Mundo e seus únicos recursos para tal são os sentidos e a mente.
Os sentidos formam a interface entre nós e o Universo. As informações captadas pelos sentidos é que irão alimentar a mente, para que seja construída a nossa visão de Mundo.
Durante a maior parte da existência da civilização, tivemos apenas a forma sensorial de obter informações sobre o Universo. Hoje, apesar de existir uma grande coleção de possibilidades para interagirmos com o Mundo, ainda nos baseamos, estritamente, nos sentidos, isso porque utilizamos como crivo primordial o bom senso.
O desenvolver da História, seguido de seu estudo e análise mostra-nos que fomos levados a incontáveis erros por confiarmos nos sentidos como critério válido de decisão sobre as concepções de Mundo que vimos desenvolvendo.
Lentamente, a ciência vem informando sobre nossas limitações como entidades biológicas pensantes. Não são apenas as limitações fisico-biológicas que se descortinam aos nossos olhos, estamos chegando à consciência de que nossa mente é, também, um fator limitante à compreensão plena.
Temos, exatamente, o tamanho de nossas mentes.
O homem é limitado pela estrutura cosmológica gerada pela evolução do Universo, assim como é limitado pela estrutura biológica gerada pela evolução das espécies. A mente é prisioneira do corpo, assim como o corpo é prisioneiro do Mundo.
Este é o primeiro passo em direção à liberdade – saber -se preso! A verdadeira liberdade é a consciência da prisão. Essa convicção leva-nos a um confronto com o Universo de uma forma mais pura, mais realista.
O preço pago pela aquisição da inteligência pode ser um fardo grande demais. Alguns sucumbem, ao longo do fluir do tempo, ao peso da indagação, da procura, enfim, ao peso de sermos inteligentes.
O aspecto mais enigmático da inteligência pode ser a vantagem de saber.
Todos os seres vivos “tentam”, a todo custo, perpetuar-se no planeta. O grande anátema dos seres vivos é manterem-se vivos. Não como indivíduos, mas como espécie. A determinação inata de perpetuar seus genes gera a permanência da espécie.
Os animais, de uma forma mais óbvia que os vegetais, lutam pela perpetuação de suas espécies, gerando, assim, a tentativa de sobrevivência de cada indivíduo, pela busca de alimentos – o que mantém o indivíduo vivo – e de sua prole, pela luta – o que mantém a espécie viva.
Os genes são egoístas. Precisam permanecer no cenário vivo a qualquer preço. A tentativa de manter-se vivo não tem ética. O grande papel da evolução da inteligência será o de dominar o egoísmo de nossos genes para que o homem se torne um ser ético. O advento da inteligência prescinde do egoísmo genético porque deve mostrar aos homens que há outras formas de manter a espécie presente no Mundo.
Existem teses que nos incomodam, uma vez que expõem o homem aos homens. O existir não se importa com o que possamos pensar sobre ele; ele apenas é. Não iremos mudá-lo com nossas opiniões ou preconceitos, somente podemos mudar o existir com ações, conjugadas às opiniões. Este parece ser o papel de boa parte da ciência.
Os homens são o fruto do Cio de Gaia. Herdamos dela uma necessidade a mais para nossa sobrevivência. É certo que precisamos manter-nos vivos, buscando alimentos, e proteger nossa prole, lutando. E é neste momento que surge a terceira e importante necessidade. Precisamos saber.
A demanda pelo conhecimento é o grande – e fantástico – anátema dos seres inteligentes. Verifica-se, facilmente, que muitas informações que obtemos não afetam a qualidade da vida biológica, que não se “necessita” saber quantos satélites tem o planeta Saturno, mas a vida mental necessita! Essa é a chave da grande diferença.
E é aí que entra...a Educação.
Somente os seres inteligentes educam, posto que há a necessidade de uma vontade que precede o processo educacional. Esse fato não torna os seres inteligentes melhores do que os outros. Torna-os apenas diferentes porque criam uma demanda ética dificilmente suprida. Todos os indivíduos de uma dada espécie têm acesso – genético? – aos instintos básicos daquela espécie, e não são todos os indivíduos inteligentes que têm acesso à educação do coletivo.
A carga biológica está imersa no indivíduo. A carga cultural, está emersa no coletivo.
Com isso objetivamos o grande problema ético da humanidade: restringimos o acesso ao saber a um conjunto privilegiado. A inteligência impôs a injustiça à única espécie que a possui.
Verifica-se que os homens são contraditórios, talvez pelas idiossincrasias da inteligência. Aquela que, hoje, discrimina será a única capaz de igualar, posto que a educação deverá trazer a igualdade aos homens. Ela que hoje é fator discriminatório, dentro de um dado lapso de tempo tornar-se-á o fator unificador.
E isso somente acontecerá quando a ética deixar o Mundo das idéias, e os instintos forem vencidos.
Os sentidos
A visão e a audição são os sentidos que mais se destacam em nossa interação com o Mundo à volta. Por isso são os sentidos que mais nos “pregam” peças: enxergamos o que não vemos, assim como escutamos o que não ouvimos. A causa disso é que temos a mente como interface entre a imagem e o som e a compreensão da imagem e do som.
É nessa interface – o “filtro mental” – que age o processo educacional. Educar é criar o melhor filtro possível para um indivíduo poder integrar -se ao coletivo a que pertence.
Talvez uma das maiores conquistas do homem tenha sido a migração dos olhos para a parte frontal do rosto. Os animais que possuem olhos laterais, não têm acesso à percepção da terceira dimensão. Nosso arcabouço mental é capaz de perceber, objetivamente, duas dimensões – altura e comprimento. A paralaxe dos olhos é a responsável pela nossa percepção de profundidade, por isso, a perdemos quando o objeto observado se encontra a grandes distâncias.
Quanto mais longe está uma cena, mais próxima da bidimensionalidade ela se encontra.
Quando observamos o céu estrelado, verificamos o quanto aquela afirmação é verdadeira, uma vez que ele parece, a nós, uma grande abóbada com as estrelas pregadas. Essa “versão” perdurou na mente humana por milênios.
A ciência ensina que o Mundo não possui apenas três dimensões mas quatro. Percebemos, objetivamente, apenas duas, a terceira é obtida por meio de um “estratagema” evolutivo que nos leva a uma percepção mais realista do real. A quarta dimensão não é passível de ser percebida por nenhum mecanismo neurológico. A quarta dimensão – o tempo – é percebida de uma forma que não envolve os sentidos. A memória é a forma, evolucionista, de entronizar o Mundo quadrimensional nas concepções humanas.
É certo que os sentidos e a nossa mente são fatores limitantes mas é o que temos à disposição e é o que iremos usar.
A primeira lição que tiramos óbvia e forte é que os paradigmas educacionais são culturais, isso é, dependem do coletivo onde um dado indivíduo se encontra imerso.
Enquanto um indivíduo se encontra imerso no coletivo, temos um procedimento educacional em ação. Quando um indivíduo emerge do coletivo, temos uma revolução dos paradigmas educacionais. É pelo rompimento que a evolução ocorre.
Passado
A ciência é uma das formas mais elaboradas de adquirir-se conhecimento, juntamente com a Filosofia. As diferenças básicas entre estas duas formas repousam no método e nos objetivos de cada uma delas.
Ficamos diante de duas importantes variáveis: a biológica e a cultural. Em toda história do nosso desenvolver, estamos sempre às voltas com as dualidades e com as trindades. Essa dualidade agora presente, biologia/cultura, é a mola mestra para entendermos nosso comportamento diante do Mundo.
Temos sempre a tendência a esquecer que somos seres biológicos, não chegamos ao ponto de poder prescindir de nossa carga genética para poder afirmar que somos frutos puros da cultura humana. Temos limitações biológicas, assim como temos limitações culturais.
Os sentidos são nossa “porta de entrada” biológica, e a linguagem é a nossa “porta de entrada” cultural para o mundo. Isso proporciona uma imensa variedade de diferentes “portas”, uma vez que a limitação biológica é individual, e a cultural é coletiva.
Parece haver na Natureza uma demonstração cabal de que somos o produto de um equilíbrio. Somos uma metáfora das estrelas. Esses astros são uma “concessão” do equilíbrio entre a força de gravidade, de fora para dentro, que tenta esmagar a estrela, e a força da pressão de radiação, de dentro para fora, que tenta explodir a estrela. Desse equilíbrio depende a existência de todas as estrelas, dos planetas e de todos os seres que sabem disso ou não...
Os seres inteligentes dependem do equilíbrio entre forças que não criaram e forças que criaram, se uma das duas “vence” uma dada batalha, vem o extermínio da população. Ou a seleção natural diz não, ou as forças sociais o fazem. Possíveis exemplos disso, são os maias e os habitantes da ilha da Páscoa.
As batalhas são violentas, mas imperceptíveis. Talvez a maior violência seja exatamente o fato de ser imperceptível. Sempre consideramos um momento ímpar na história da humanidade o instante em que nossos antepassados deixaram a vida nômade, desenvolvendo a agricultura, a arte pastoral, a domesticação de animais, enfim, a criação da urbe. Não seríamos mais catadores e caçadores, iríamos poder fixar residência em um dado lugar. Estava começando o loteamento do planeta! É o momento quando os instintos, reptilianos que herdamos, se camuflam em “ne-cessidades”: por exemplo, o instinto de território se “transmuta” na noção de propriedade, os vizinhos passam a ser objeto perfeito para nossas desconfianças, e é quando os homens sentem, pela primeira vez, o gosto de possuir, que vem junto com o gosto de sangue do Outro!
A população de uma cidade educava seus filhos para amar a cidade, os pais, os educadores (Tudo em causa própria!) e, é claro, os deuses da cidade. Deuses esses que eram os únicos verdadeiros e bons. Os deuses da cidade ao lado não passavam de crença tola e sem sentido. O que merece o povo de uma cidade que tem deuses diferentes dos nossos? Claro que a morte! A primeira grande justificativa para as guerras e os massacres foi a religião e, depois, a economia. Acreditar e ter são as experiências mais fortes que os homens vivenciam. Talvez seja esse o motivo para que nunca tenha existido uma sociedade que não tenha tido demiurgos que se espelharam em si próprios para criar os homens e que não possuíssem bens, que podiam ser a terra ou as mulheres, posto que, na Natureza, a terra e a mulher são as únicas entidades capazes de gerar.
Gaia era a Terra e mulher.
A dominação masculina teve de ser desenvolvida por meio da posse da terra e da subjugação da mulher. Quem não pode gerar deve dominar quem pode, pois, assim, dominará os deuses.
A criança não nasce assim; todo o ódio que carrega ao tornar-se adulto é posto ali pela educação que recebe. Um bebê que nasce, neste momento, em Israel ainda não tem consciência, mas tem toda a população árabe do planeta como sua inimiga, e vice-versa. Chegamos ao Mundo com um potencial genético para nos tornarmos seres desenvolvidos e a sociedade dá-nos todo seu ódio. Ela nos ensina a odiar em todas as línguas e em nome de todos os deuses!
Os sistemas educacionais são bastante influenciados pelas religiões. Os conceitos religiosos permeiam os conceitos sociais e as mentes, de tal forma que não mais percebemos que possuímos conceitos e, conseqüentemente, comportamentos ditados pela tirania dos deuses.
Estamos perdendo a noção de nossa biologia e isso representa perder nossa humanidade. Somos seres “superiores” feitos à imagem do Demiurgo. Pode-se depreender daí, sem grande esforço mental, que o Demiurgo deve ter um corpo bem parecido com o dos homens (homem, aqui, não é a humanidade; é masculino. As deusas são, sempre, menos poderosas). Sendo assim, por que os crentes em Deus têm tanto horror ao corpo humano? Por que olhá-lo, tocá-lo, é pecado? Por que a cópula é obscena? Por que as criaturas que tanto prezam o Criador desprezam tanto a criação?
Nas antigas culturas pagãs, o mundo era associado à Mãe Universal. As mulheres tinham um importante papel que decorria de sua idiossincrasia de gerar, sendo os homens seus coadjuvantes. Quando surge o modelo monoteísta – que culminaria no deus judaico-cristão –, o princípio feminino é retirado do palco.
Conceitos abstratos como mente, espírito e alma eram ligados ao princípio masculino, e as noções de corpo e matéria (matéria pertence à mãe, matter ) estavam ligadas ao princípio feminino. O conceito de deus único levou à repressão das emoções e dos sentimentos ligados à mãe (deus é pai!), daí tudo ligado à matéria passou a ser percebido como negativo e tudo ligado ao espiritual passou a ser visto com o ideal. Como conseqüência, nosso corpo tornou-se motivo de vergonha concomitante ao repúdio à terra e ao mundo material. O importante passou a ser o “mundo dos céus”; nossos corpos eram fonte de pecado, e nosso mundo, fonte de dor. Estavam, assim, estabelecidos a misoginia cristã e a eterna busca pelo sofrimento que tanto caracteriza os cristãos. A “moeda” corrente dos discursos religiosos é a dor, o sofrimento. Somente sofredores foram canonizados. Jamais foi feito santo alguém que foi...feliz.
Fronteiras e deuses! Nunca houve uma sociedade sem fronteiras ou deuses. Faz-se a hora de abrirmos mão das duas coisas.
Aqui verificamos a existência de mais uma dualidade. Estamos entre a matéria e o espírito. As fronteiras são nossos limites geográficos – material –, e os deuses são nossos limites espirituais – imaterial. Este é mais uma metáfora, daquele tempo, já esquecido – quando éramos estrelas.
A Astronomia ensinou-nos que todos os elementos, com exceção do hidrogênio e do hélio, foram “fabricados” no interior das estrelas. Durante sua existência, a estrela, por meio da fusão nuclear, fabrica os elementos químicos que conhecemos. Quando as estrelas chegam ao fim da vida, algumas explodem e ejetam, ao espaço, cerca de 90% de sua matéria, que poderá dar origem a um sistema estelar, como o nosso Sistema Solar. Verificamos que a matéria que forma nossos corpos, nossas casas, nossos inimigos, veio de dentro de uma estrela. Nós já fomos estrela. Somos cinzas de estrelas...
Quando a ciência nos ensinou isso, nossas mentes já sabiam, só que não se lembravam.
A dualidade ciência/Filosofia
A ciência interioriza o Mundo, ela instrui a razão e a Filosofia, exterioriza-o, posto que o mundo físico é a fonte da ciência, e a mente é a fonte da Filosofia. Faz-se necessário ressaltar que o telos, para as duas, é o mesmo: descrever o Mundo.
A segunda diferença, mas não menos importante, é que a ciência tenta livrar-se dos sentidos, isso é, tornar-se objetiva, e a Filosofia tenta expandir os sentidos, isso é, subjetivar o real. Quem sabe uma tentativa de visitar o Mundo das idéias?
O processo educacional que cada povo escolhe para ser empregado à sua cultura é uma ponta de um longo caminho percorrido, quase sempre de forma inconsciente.
Ao analisarmos a Terra, observamos que um dado Meridiano é capaz de dividir o planeta em hemisférios culturalmente diversos e com características muito próprias. Os referenciais educacionais no Ocidente são mais calcados na razão cartesiana, têm uma base científica, e os orientais são mais calcados nos sentidos, na interiorização. O planeta é, do ponto de vista das visões de Mundo, polarizado.
Surpreendentemente, o hemisfério cartesiano é menos conservador do que o hemisfério não cartesiano. Entendemos isso como uma conseqüência direta do próprio paradigma de cada um dos hemisférios terrestres.
A ciência está em constante mudança, está sempre sendo revista – “reformando uma ilusão”, como nos ensinou G. Bachelar –, os povos que possuem uma ciência mais desenvolvida estão sujeitos a mudanças mais drásticas do que aqueles que não a desenvolvem. A característica mutacional do conhecimento científico implica povos menos conservadores. O Ocidente é menos conservador do que o Oriente – a causa pode estar neste ponto.
Para fazermos ciência, precisamos ousar, precisamos desafiar. Para desafiar não podemos ser muito conservadores. Os povos orientais contemporâneos estão desenvolvendo suas economias na direção de paradigmas puramente ocidentais. Esses povos têm sua ciência mais modesta, em contraponto às suas tecnologias. Verifica-se que toda a tecnologia desenvolvida no Oriente tem a “cara” do Ocidente.
Estas concepções estão sendo, paulatinamente, incorporadas à cultura popular, ocupando lugares antes ocupados por velhos conceitos. Estamos testemunhando um fenômeno que antes de-mandava muito tempo para ocorrer e estamos nos tornando testemunhas do desmoronamento de todo um esqueleto que vem sendo substituído por um inteiramente alienígena, e tudo isso, nos últimos cinqüenta anos.
Há uma interação bastante cerrada entre os paradigmas educacionais e as estruturas sociais. Muito difícil é a separação, a delimitação, entre os dois, assim como localizá-los na cadeia causal dos acontecimentos.
O que fica claro é que o homem não tem mais espaço para ser sábio, na antiga concepção da palavra. Nosso Mundo, hoje em dia, é departamentalizado, dividido em escaninhos, fato esse que está impondo à mente este formato social. As universidades são assim por causa da estrutura social, isto é, os estratos sociais se refletem na Academia. Verificamos que a sociedade atribui status diferenciado aos departamentos de uma mesma universidade. O bacharel em Medicina é o Dr Fulano, e um enfermeiro com doutorado, é doutor?
O conhecimento acadêmico encontra-se distribuído em guetos, cujos membros não interagem, criando, muitas vezes, duplicação de pesquisas ou emperramento de trabalhos que poderiam ter andamento com os subsídios do saber do gueto vizinho.
Nos diversos processos que o Homem desenvolveu para aprender, muitos meandros são percorridos. As posturas humanas diversificadas são incontáveis, mas somente algumas são dignas de serem perpetuadas – serão aquelas realizadas em ressonância com a busca do conhecimento.
A escola está repleta de verdades; elas já ensinaram o Geocentrismo e que os indígenas e as mulheres não possuíam alma. A religião, devidamente manipulada, já foi usada como tochas para acender fogueiras.
Nossa escola, como instituição, tem características medievais que permeiam, também, a universidade. A autoridade não vem mais do medo, mas dos títulos. Na época do medo, a autoridade era alienígena – como nas ditaduras – agora, na época dos títulos, a autoridade vem do interior: a universidade criou os títulos para si mesma e os titulados tornaram-se autoridades; com isso foi criado o grande paradoxo acadêmico: a universidade que teria que ser o locus da discussão e das mudanças, tornou-se conservadora e corporativista, e como decorrência, autoritária.
O autoritarismo é “contagioso” e contagia os formandos que serão os professores que ensinarão ciência para as crianças entre 7 e 18 anos. Com quais referenciais?
Será que o professorado encontra-se pronto para desafiar o senso comum, para “ensinar” que os alunos não têm acesso à realidade mas a uma caricatura dela?
É chegada a hora de experimentar o êxtase de procurar; de entronizar Dioniso.
O contato mais íntimo entre os corpos discente e docente das instituições de Educação Básica e as instituições acadêmicas permitiria a reformulação das idéias a priori que existem. As universidades formam os professores e não os reconhecem – são quase de segunda categoria. A academia sairia do processo com uma imagem mais realista da Educação Básica e a escola poderia formar uma imagem menos deificada da academia; instituição que se alimenta dos recursos da sociedade e não devolve nada em troca, muitas vezes, nem bons profissionais.
Uma causa não encadeada
Existe uma dificuldade de se estabelecer uma cadeia causal nos procedimentos educacionais. A interação entre os paradigmas educacionais e os princípios da sociedade é feita em duplo sentido, tornando a causa em efeito e o efeito em causa. É uma dualidade – mais uma – que se desenvolveu firmemente unida, sendo, portanto, bastante difícil o estabelecimento lógico da cadeia do acontecer. As idéias de ordem, causa e acaso perdem as fronteiras quando tentamos impor um delineamento. O que é ordem?
Uma boa resposta foi dada por Lineau: “A ordem é a seleção das aparências”.
Essa afirmação de Lineau induz-nos a pensar no próprio conteúdo dela. Vemos resumida em uma frase milênios de indagações. O que são aparências? São formas pelas quais o homem percebe o Mundo. Aparências são os conceitos sensoriais, artísticos, científicos e filosóficos, enfim, as aparências são as formas pelas quais cada homem interpreta o real...e reage a ele.
Existem tantos universos quantos homens pensando nele.
Somos levados a uma pergunta fundamental: qual é o melhor sistema educacional? A resposta é apenas aproximativa. O melhor sistema é o que é fruto de um consenso da sociedade.
Será que o consenso realmente existe?
A visão de democracia que temos é deturpada e impõe um sistema que é, sem sombra de dúvida, antidemocrático. Quando os governantes encaminham seus projetos aos seus legislativos, ou mesmo quando o projeto tem origem no próprio legislativo, temos a falsa idéia de que esse procedimento é democrático. Não pode ser, uma vez que a representação de um povo, no Parlamento, se faz por meio de políticos que são profissionais; e isso impede a renovação democrática dos representantes do povo; são políticos que permanecem no Parlamento por quarenta anos, ou mais.
Diante do fato de que não há renovação, um profissional acaba representando seus próprios interesses e os da corporação que os acolhe.
Assim como afirmamos que a educação é um processo dirigido à elite, a discussão sobre o processo educacional também o é. Os paradigmas educacionais são desenvolvidos pela elite, para ela mesma.
Seria mais apropriado se os homens, ao invés de tentarem ordenar o Mundo, se dedicassem a tentar perceber a ordenação do Mundo. Seria mais natural, porque o presente não apenas influencia o futuro, mas cria-o. Se captássemos a ordenação do Mundo, poderíamos transpô-la para o nosso dia a dia, e a dualidade homem/Universo, estaria em direção à harmonia.
É chegada a hora de pararmos de criar deuses a nossa imagem e semelhança.
A espada e o saber
Os homens trazem dentro de seus cérebros um “subcérebro” reptiliano. Temos dentro de nossas cabeças uma outra, de réptil. A evolução não nos livrou dessa carga. Os animais demarcam, também, seus territórios. Alguns deles urinam no mato. Nós, “urinamos” no mapa.
As guerras trazem conseqüências para todos os povos, envolvidos diretamente ou não nos conflitos, de uma forma cada vez mais drástica. A Primeira Guerra Mundial mudou o mapa da Europa (velha e “sábia”) desenhado ao longo de 3.000 anos de invasões e conquistas. A Segunda Guerra Mundial impôs novas modificações às fronteiras mas teve como maior conseqüência, o início do processo de ocidentalização do Oriente.
Com a “ajuda” econômica ao Japão foi embutido – tal um vírus de computador – o arcabouço educacional do Ocidente. O “vírus” entrou na forma de desenvolvimento tecnológico e foi minando o dia a dia da população. Sua música incorporou nossas sete notas musicais; as mulheres trocaram seus milenares quimonos por novíssimas minissaias, jeans, tênis e penteados horripilantes.
Obviamente, o aspecto externo da população alterou-se, mas será que é fácil mudar aquele mesmo povo, internamente, em apenas cinqüenta anos, como foi fácil mudar-lhe as roupas e a música, mesmo se tendo a consciência de que a moda é um fator cultural extremamente forte?
Vemos jovens de jeans e tênis suicidando-se por tirar notas baixas na escola, em nome da honra da família (este fato não tem espelho no Ocidente). E seus pais? Desligam seus computadores de última geração ou saem de seus automóveis computadorizados para afirmarem, diante de uma câmara de TV (certamente interativa), o quanto estão orgulhosos do suicídio de seus filhos. A honra foi preservada!
Esse óbvio conflito entre paradigmas educacionais rígidos e milenares e os “vírus”, presentes e atuantes, irá provocar alguma conseqüência, possivelmente violenta, muito em breve.
É certo que os referenciais de um povo modificam-se por meio de uma ruptura, mas essa ruptura deve surgir de dentro da sociedade. As revoluções com origem alienígena são desastrosas, posto que não passam de invasões.
Já testemunhamos o que a chegada dos espanhóis à América causou aos povos pré-colombianos. A Europa (velha e “sábia”) chegou aqui, na América, e deparou com um povo que tinha conhecimentos astronômicos de que ela somente aprenderia com Galileu, 200 anos mais tarde. Essa audácia somente poderia ser punida com um genocídio e, é claro, por vontade e proteção divina.
Parece que Hitler foi o único que não apelou para os deuses para cometer suas atrocidades. Fez tudo em seu próprio nome. Quando o papa benzeu os tanques nazistas, o fez em nome de Deus.
Há diversas formas de invasão. A Europa (velha e “sabia”) e a Ásia sempre utilizaram a espada e o pilo. Hoje estão sendo invadidas, por uma de suas colônias, da forma mais sutil e sub-reptícia que jamais foi pensada, desde a expansão do Império Romano.
A cultura de um povo, incluindo seus processos educacionais, é de calibre desconhecido. Podemos analisar duas situações tão diversas e tão próximas, em nosso passado histórico.
O Império Romano expande-se, pelo Mundo Conhecido, até que comete a “imprudência” de invadir a Grécia. O gigantesco império entra em contato com a cultura grega e... sucumbe.
A cultura grega, que bem mais tarde iria seduzir os árabes, seduz o invasor romano, que importa preceptores para educar seus jovens. Tomou-se “moda” a aristocracia romana ter preceptores gregos para educar seus filhos.
A partir dessa decisão da truculenta Roma, materializou-se a metáfora da batalha entre David e Golias. A força bruta de Golias sucumbe diante do conhecimento de David. Roma desaba diante da cultura grega e os invasores são aculturados pelos invadidos!
Os deuses podem inspirar a destruição e a queima de quantas Bibliotecas de Alexandria os profetas quiserem, que, mesmo assim, o saber sairá de suas cinzas. Afinal, o material de nossos cérebros foi cunhado nas estrelas!
O pensamento grego foi lentamente sendo absorvido pelos jovens romanos e um dia...Roma amanheceu pensando em grego!
Aqui no Brasil, passamos por uma situação semelhante.
Os brancos da Europa (velha e “sábia”) trouxeram negros escravos, achando-os inferiores e sem alma (anteriormente, o Vaticano já havia decretado que índios e mulheres também não a tinham).
A aristocracia brasileira da época – muito diversa da aristocracia romana – cometeu a mesma imprudência que os romanos cometeram. Os jovens brasileiros começaram a ter contato íntimo com os escravos, cresceram vendo e ouvindo mais os escravos do que seus próprios pais. As lendas, cânticos, danças, religiões, deuses e comidas foram penetrando nas mentes dos jovens e um dia...o Brasil amanheceu cantando, dançando, rezando e comendo tal os africanos.
Os brancos “superiores” foram aculturados pelos negros “inferiores”.
É impressionante como povos sem alma possuem culturas mais fortes do que as espadas dos deuses...
As variáveis
Os últimos trinta anos testemunharam uma profunda modificação nos processos educacionais, em nosso país. Os brasileiros que se encontram com cerca de quarenta anos pertencem, provavelmente, à última geração de brasileiros que tiveram a oportunidade de estudar em boas escolas públicas de Educação Básica. A falência do ensino público foi responsável por uma modificação intensa no comportamento dos jovens e, por conseguinte, gerou uma reforma social, no caso, negativa.
No tempo em que o ensino público era muito bom, as escolas particulares tinham fama de serem muito ruins, somente recebiam aqueles alunos que não conseguiam “acompanhar” os estudos nos fortes colégios do governo. Aos poucos fomos testemunhando a decadência do ensino público e o fortalecimento do ensino privado. E, então, foram surgindo as modificações no comportamento dos jovens.
A relação entre o aluno, o professor e o colégio passa pelos valores da sociedade. Naquela época, o aluno é que “precisava” da escola. No ensino privado a flecha tem o sentido oposto, pois é a escola que “precisa” do aluno, e isso levou à falsa idéia de que o aluno é o verdadeiro “patrão” do professor, idéia esta que foi levada à cabeça dos pais, pelo fato de que são eles que efetuam o pagamento da escola, e, em um pensamento simplista, quem paga é quem manda.
A conseqüência direta desse fato foi a instalação da permissividade nas escolas. Com essa nova visão sobre os professores, veio a reboque a própria desvalorização da carreira , uma vez que a classe deixa seu papel na sociedade para assumir o status de empregados de pais e alunos. A observação do ensino de Terceiro. grau corrobora essa afirmação. As universidades públicas ainda são muito superiores às universidades privadas, portanto os professores daquelas universidades são mais “respeitados” do que os destas.
Toda e qualquer mudança que necessita ser feita nos paradigmas educacionais passa pelas variáveis sociais. Será preciso redefinir o papel social do professor para que possamos reformar o ensino no país. A reforma, que se impõe, deve ter seu início nos cursos de Pedagogia. A formação de professores das séries iniciais – de 1a à 5a – deve ser a maior preocupação do Estado, uma vez que essa má formação leva a maus alunos nas séries superiores do Ensino Fundamental que levará, certamente, a péssimos alunos do Ensino Médio, o que irá refletir-se nos universitários. A reforma deve iniciar-se na base e não na ponta.
Não podemos esperar uma reforma a curto prazo. O ensino, no Brasil, necessita de um longo prazo para ser recuperado, uma vez que a sociedade permitiu a falência da escola como instituição. Nenhum governo será cobrado ou irá agir em prol dessas mudanças sem a participação ativa da sociedade. As condições socioeconômicas dos professores transformaram-se em motivo de piada para a maioria; e o papel do chiste já foi muito bem descrito por Freud.
Hoje, a sociedade valoriza muito os títulos acadêmicos por meio do status social e da legislação vigente. Os Conselhos profissionais existem para defender a “reserva de mercado” de cada profissão. Só alguém formado em determinada área é habilitado para pronunciar-se sobre ela. O que esquecemos é que não foi sempre assim. A ciência começou seu caminho com autodidatas. Um dos grandes conceitos atuais da Física é o conceito de campo, criado por Faraday , que nunca cursou uma universidade, e Albert Einstein afirmou que se Faraday tivesse sentado em bancos universitários jamais ousaria criar conceito tão revolucionário!
A filosofia sempre levou vantagem sobre os outros ramos do conhecimento humano. Nunca houve uma “reserva de mercado”.
O início e o fim
É certo que precisamos mudar. É certo que precisamos da participação maciça da sociedade para fazer as mudanças necessárias. Para mudarmos nossos procedimentos educacionais é imperioso que façamos, simultaneamente, mudanças políticas profundas, associadas a novos comportamentos sociais.
Será preciso utilizar todo o cabedal de conhecimento que o homem veio acumulando ao longo de toda nossa existência. O conhecimento científico, filosófico e a tecnologia deverão estar unidos, teleologicamente, para alcançarmos nosso objetivo maior – mudar.
Podemos anular as limitações para caminhar em uma mesma direção. Parece que jamais teremos acesso objetivo à realidade, uma vez que a verdade é o limite da informação quando os dados tendem ao real. Sempre obtemos dados por meio de interfaces entre nossos corpos e o mundo e entre nossas mentes e o mundo.
O que não podemos deixar acontecer é o que se avizinha perigosamente – perder a possibilidade de fazer algo porque, como nos ensinou Kierkegaard, isso significaria ou que tudo se tornou necessário ao homem, ou tudo se tomou inútil.
Não é isso que queremos que nos aconteça, pois prescindir de tudo é tão terrível quanto precisar de tudo. A sociedade demanda participação e se cada homem necessitar de tudo, ou de nada, a sociedade estará, por definição, extinta, e então... nada terá sobrado para ser reformado.