sexta-feira, 17 de abril de 2020

Estamos em um dia qualquer, de um lugar qualquer da Terra, há (mais ou menos) 300.000 anos. Parece que essa foi a ocasião que surgiu o Homo sapiens, durante o Pleistoceno Médio. Passa mais um “pouquinho” de tempo e surge o homem moderno – Homo sapiens sapiens –, há 130.000 anos, pelo menos essa é a idade do mais antigo fóssil que conhecemos. Éramos nômades, caçadores e coletores e vivíamos em pequenos bandos, abrigados em cavernas. Os homens caçavam e as mulheres cuidavam da prole, coletavam e catavam vegetais. Um dia, uma mulher deve ter percebido que grãos que caiam ao solo, nasciam de novo. Se os grãos nasciam pelo caminho, poderiam ser jogados propositalmente em uma região controlada e não seria mais preciso catar e coletar, mas colher! Nascia a agricultura. Alguns animais foram domesticados nessa mesma época, dando origem à pecuária. Resumo da ópera: Tínhamos que sair das cavernas. Tínhamos que juntar mais bandos para dar conta do controle dos vegetais e dos animais. Tínhamos que ir para o campo aberto, plantar, colher e depois voltar para as cavernas, até que um dia alguém teve a brilhante ideia de levar a caverna ao campo. Inventaram as moradias. Deu certo e vários grupamentos começaram a construir suas “cavernas” (casas) ao redor dos campos plantados – surgiu uma cidade! Jericó, nas margens do rio Jordão, é considerada a cidade mais antiga (conhecida), fundada em 9.000 a.C.. Outra cidade também famosa é Ur, na Suméria (atual Iraque), fundada em 3.800 a.C.. Decorre da existência das cidades, a criação e outras formas de “trabalho” que não a caça, a semeadura ou a colheita. Fez-se necessário trocar os excedentes, estocar a produção; para isso era preciso garantir caminhos para a produção escoar, registro do tamanho da produção, quantos animais foram trocados, quem comprou, quem vendeu, por onde transportar. Daí surge: a escrita – os primeiros registros que conhecemos datam de 4.000 a.C. e são registros sobre impostos! A necessidade de coordenar o esquema todo gerou um poder centralizado (a semente do Estado Nacional), que forneciam serviços de construção de estruturas, como muralhas, templos, organização do comércio, criação de regras (leis), defesa da cidade. E aí surge a elite! Por volta do século VII a.C. surge a primeira moeda, na Lídia (atual Turquia), cunhada por Aliates. Assim, o escambo dá lugar ao dinheiro.
Agora um palco está pronto; palco esse que será o depositário de uma importante guinada nas sociedades humanas. Mas, antes, voltemos às cavernas.

O gênero Homo (quase todos os animais também) recebeu, de presente da evolução, três variáveis importantes (entre muitas outras, obviamente): o instinto de sobrevivência, o instinto de reprodução (preservação da espécie) e o medo. Um indivíduo “sabe” que precisa sobreviver e reproduzir-se. Para sobreviver, muitas vezes, precisa do medo, para “saber” que necessita fugir diante de alguns predadores ou situações perigosas, não somente expostas pelos predadores, mas pela natureza também. A sobrevivência e o medo repousam em uma região do cérebro conhecido por “cérebro reptiliano”, localizado no topo da espinha dorsal. A racionalidade e a espiritualidade repousam no córtex frontal. Espiritualidade aqui não tem, evolutivamente falando, nada a ver com deuses, santos ou espíritos, mas o reconhecimento de pertencimento à natureza, seria algo como a imposição do abstrato ao concreto. Agora sim, o palco está pronto!
Imaginem o efeito que o Sol, a Lua, as nuvens, a chuva, os raios, os trovões, os incêndios, os ventos deveriam ter nas mentes dos primeiros homens. Acho que a Lua deveria ter uma influência muito forte, pois além de tudo mudava de forma diante de todos. A Lua Nova deveria ser fruto da raiva dela com os homens e se escondia, quando estava contente iluminava muito bem a Terra (Lua Cheia). Assim imagino que a racionalidade primitiva, associanda ao medo atávico, levou aos homens a noção que essas forças os controlava, ou tentavam. Daí a criarem as divindades foi um passo, simples e óbvio. Nas cavernas (quando viviam em bandos pequenos, quase familiares) os deuses eram forças. Quando as cidades foram criadas, quando funções diferentes de caçador e de coletor surgiram, esses indivíduos (que não produziam) devem ter percebido que poderiam controlar o grupo se antropomorfizassem as forças. O Sol virou Rá (no Egito), Apolo (na Gécia), Uto (em Ur); a Lua virou Selene (na Grécia), Nana (em Ur); as águas viraram Netuno; os sentimentos também foram “transformados”, o amor virou Inana (em Ur) ou Afrodite (na Grécia) – curiosamente os Sumérios associavam Inana ao planeta Vênus, como os gregos fizeram. Em Ur, o céu era An, na Grécia, era Urano.
A “transformação” das forças naturais e dos sentimentos em entidades humanoides facilitou que as populações “acreditassem” em suas existências, afinal eles viam as forças e sentiam os sentimentos. Com essa multidão de deuses, os sacerdotes “deitavam e rolavam”. Até que um faraó chamado Aquenaton, casado com Nerfetiti, (que reinou entre 1 352 a.C. e 1 336 a.C.) resolver impor, à população, o monoteísmo. Fechou os templos e disse que só existia um deus, o Sol (Atón). Era um enorme panteão, com quase 2.000 deuses, trocado por um único deus. A aparência que o faraó afirmava que Atón possuía não era antropomórfica, era uma forma abstrata do Sol e de seus raios, uma das dificuldades da população aceitar um deus que não remetia à forma humanoide, pois os crentes têm que se sentir parte do deus (lembra do “a sua imagem e semelhança”?). O filho de Aquenaton, Tutancâmon restaurou o panteão milenar e os egípcios “viveram felizes para sempre”, pois os sacerdotes voltaram a ter seu antigo poder e a vida voltou à normalidade, até a chegada de Alexandre, o Grande, mas essa é outra história.
Hoje existem três principais vertentes monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. As três acreditam praticamente no mesmo Deus, com escolhas diferentes, só que idênticas; as três acham que Deus os escolheu como favoritos.
O mundo criado por todos os deuses que já existiram é putrefato, não acredito que seja obra de uma divindade, qualquer que seja ela. Milhões morreram e milhões mataram em nome de seus deuses. Até mesmo os deuses mataram milhões. No Antigo Testamento existem 2.220.000 mortes atribuídas a Deus e 12 ao Diabo!!!
Muitos povos escravizaram e foram escravizados. Por que seus deuses nunca os salvaram da escravidão? Por que os deuses nunca desaconselharam a escravidão? Existe um povo que nunca foi escravizado, nem nunca escravizou – o esquimó. E eles têm duas características que acho fundamentais para explicar isso. Os esquimós não têm deuses nem Estado nacional! Têm superstições, mas não acreditam em seres sobrenaturais e sua estrutura social se baseia na família. Vivem em paz. Nunca entraram em guerra. Acho que tem tudo a ver.
Seja onde for que fica o “cemitério onde os deuses estão enterrados”, será uma questão de tempo que os homens compreendam que lá ainda existem “vagas”; para lá quase todos já foram e para lá todos irão; em um dia em que as pessoas perceberão que somente podemos receber ajuda do Outro e somente precisamos cuidar do Outro. Assim caminhará a Humanidade.