quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um pouco de Ética


Gilberto Freyre – o sociólogo – escreveu uma vez que o que se contrapõe à morte não é a vi-da, mas sim o amor: quem não ama não está vivo. Por analogia estrutural, concluo que o que se contrapõe aos instintos primevos dos homens é a ética. A ética é a grande controladora do id, seria o “braço” ideológico – ou teórico – do superego. Como tal, possui um forte componente cultural. A busca de uma “ética universal”, aquela que teria valor em qualquer sociedade, está deixando de ser uma utopia com o surgimento e o desenvolvimento da bioética. Esta seria uma manifestação universal, pois que “vale” para qualquer ser vivo.

No meu entendimento, a bioética não trata apenas das relações entre os homens: trata, antes de tudo, das relações dos homens com o conjunto de seres vivos com o qual dividimos o planeta. O primeiro dogma a cair deve ser o de que somos a “obra-prima” da Criação. Somos apenas a que tem mais responsabilidade. Pensamos, daí a responsabilidade de respeitar – e não de tutelar – as diversas formas de vida.

Ter a consciência de que devemos concordar com o pequeno papel que os seres humanos de-sempenham no Mundo é ser irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra. Não é possível falarmos – ou melhor, pensarmos – em ética sem passar, mesmo que ao largo, pelo discurso reli-gioso. A dor é a moeda corrente dos discursos religiosos. Quem conhece alguém que foi canoni-zado por ter sido feliz? Quando a dor é transmutada em prazer, a faz virtude! É, então, necessário sofrer para ser virtuoso. É a forma perversa de evoluir. Sofremos nessa vida para sermos felizes em outros mundos, mundos esses que nos são mostrados como metas a serem alcançadas – são todos Valhallas.

Para sermos “éticos”, é necessário dizer que alguns filósofos também criaram seus mundos, sempre melhores que o nosso. Segundo Nietzsche, todos o fizeram. Qual será o papel – sublimi-nar – desses mundos, “criados à imagem e semelhança” de nossas – ou das deles – intenções?
Manipular!
 
A história da filosofia é um rancor secreto contra os pres-supostos da vida, contra os sentimentos de valor da vida, con-tra o tomar partido a favor da vida. Os filósofos nunca vacila-ram em afirmar um mundo, desde que ele contradissesse este mundo aqui, desde que lhes desse a oportunidade de falar mal deste mundo aqui. Essa foi até agora a grande escola da calú-nia; e ela impressionou tanto que até hoje a ciência, que se apresenta como porta-voz da vida, aceitou as posições básicas de tal calúnia, degradando este mundo aqui como aparente, esta cadeia causal como meramente fenomenal (Friedrich Nietzsche, Fragmentos finais, Editora Universidade de Brasília, 2001).
É a transmutação final! Um mundo melhor que o Mundo é prometido para que os habitantes deste almejem tornar-se habitantes daquele. Assim, o pouco oferecido aqui é “lido” como muito para pavimentar o caminho em direção ao outro.

Alguns filósofos e religiosos são as novas Valquírias oferecendo seu hidromel a nós, mortos em combate, para que revivamos sem nenhum ferimento remanescente. Todas as relações inter-pessoais e intersociais estão permeadas de promessas nunca cumpridas. É tal qual o horizonte: vemo-lo, mas não o alcançamos. Aqueles que o alcançam ainda não retornaram, de forma convincente, para contar como é.

Romain Rolland ensinou que “a alegria e a dor são irmãs e ambas são santas. Elas são a vida, elas são Deus. E quem já pôde prová-las conhece o preço da vida e a doçura de deixá-la”. Analisemos um transplante de órgão: a dor de quem perde é irmã da alegria de quem recebe? O processo é “santo” ou apenas lógico?

Há muitos anos, li uma redação de um garoto de 8 anos na qual ele defendia a idéia de que “a melancolia é prima da tristeza, quase irmã”. Qual teria sido sua história de vida?

Onde residem os problemas que envolvem os transplantes? Certamente não estão no ato em si, mas na forma de obtenção da “matéria-prima”. O homem é a única espécie que desenvolveu a ciência, por ser a única – infelizmente – senciente a povoar o planeta. Aprendemos a tomar re-médios, a fazer abortos, a usar próteses, a construir armas, a fazer cirurgias de peito aberto, a construir a Bomba, a irradiar tumores, a clonar, a fazer transplantes de órgãos e a conhecer nosso genoma. Os problemas residem no conhecimento? Certamente que não. Os problemas residem na utilização do conhecimento. Saber quebrar o átomo não é bom nem ruim. O juízo de valor deve ser feito com a aplicação do conhecimento ou com os meios adotados para chegar à sua utilização.

Brecht colocou na boca de Galileu que “a única finalidade da ciência é a de diminuir a can-seira da miséria humana”. Se à ciência fosse unida uma ética de utilização do conhecimento adquirido, a “miséria humana” seria minimizada em sua essência, e os “Valhallas” seriam menos importantes. O “mundo aqui”, de Nietzsche, ficaria mais palatável a seus habitantes. Passaríamos a necessitar menos do hidromel “valquírico”.

O misticismo, quem sabe, perderia terreno para o mito. Experimentaríamos uma exegese junguiana. Testemunharíamos uma “virada do avesso” do homem. Quem sabe se o lado de dentro seja melhor...

A conformação de Bacon com a impossibilidade humana de não comandar a natureza parece-me estar perdendo terreno para os fatos. A ciência e as artes modificam a Natureza sim. O ato científico interferiu definitivamente na seleção darwinista, pelo menos no que se refere aos ho-mens. A seleção natural não corre com seus próprios pés, impedida pelas ciências da saúde. Curamos o antes incurável e reproduzimos o antes estéril. Faz-se necessário um repensar de nossas ações. Não que elas sejam erradas em si, mas devem ser realizadas com consciência do que es-tamos fazendo. Devemos livrar-nos, antes de tudo, da hipocrisia.

Muitas vezes o comportamento “ético” dos homens, se dissecado e analisado, leva-nos a pa-radoxos insustentáveis. A pesquisa espacial é um exemplo lapidar. As espaçonaves que pousam em outros mundos são esterilizadas. Existem acordos internacionais que não permitem que sejam deixados nesses mundos visitados nada que não seja absolutamente impossível de ser trazido de volta a Terra. Não contaminamos a Lua nem Marte mas não temos pudor com nossas matas, rios e oceanos! Será que a ciência (ou quem sabe os cientistas) está cumprindo o anátema galileano de diminuir a miséria de nossa existência?

O homem, por não possuir defesas contra as formidáveis epidemias psíquicas muito mais devastadoras do que qualquer catástrofe natural, conforme constatou Jung, precisa evoluir etica-mente para poder ambicionar “aprender a transcender a si próprio e, ao fazê-lo, adquirir a liberdade do Universo”, conforme afirmou Bertrand Russell. Somos uma parte; portanto, somos o Todo. O Universo se ressentiria de nossa ausência. Ora... sabemos por quem os sinos dobram.

O eterno silêncio do espaço infinito dilacerava Pascal. A mim, não! Faz sentir-me vivo! O meu barulho e minha finitude opõem-se ao silêncio e à infinitude, permitindo minha própria existência. Somos os Criadores. Assim como os marcianos, seremos nós.

Nietzsche criticou Darwin por defender a seleção dos mais fortes. Mas não foi bem isso o que Darwin defendeu em suas hipóteses. O darwinismo defende a seleção dos mais aptos. Nem sempre os mais fortes são os mais aptos. A extinção dos dinossauros prova o afirmado: uma mudança no ambiente mostrou que os grandes e fortes eram vulneráveis. Nas revoluções, as burguesias “fortes” e “aptas” sucumbem às mudanças do “meio ambiente.

Mais uma vez estamos diante da idiossincrasia do homem anteposto à vida. Uma espécie organizada (ou desorganizada) em sociedades, povos, tribos ou nações é levada a ficar exposta a uma grande diversidade de variáveis que fatalmente cria uma complexidade, cuja total compre-ensão (se é que é possível uma total compreensão) foge a nosso objetivo nesse momento. O fato é, que dentro dos processos criados pelos homens, o que nos fala diretamente é o comércio. Sempre é necessária a existência de três “personagens” para concretizar o procedimento: o ven-dedor, o comprador e o “vendido”.

O procedimento é extremamente normal e aceitável até certo ponto. Podemos vender obje-tos, colegas, idéias, vida: ora! “não se matam cavalos?” O que não podemos vender é o Homo sapiens. O primeiro problema vivenciado pela humanidade, nesse terreno, foi o da servidão. O segundo foi o da escravidão. O terceiro, e mais moderno, é o dos transplantes de órgãos. O mais surpreendente de todos esses processos abjetos é que constitui um forte tabu para todas as socie-dades humanas ao longo da história!

A solução encontrada é, talvez, mais perversa do que a transformação de homens em merca-doria. Somente são negociadas as pessoas que pertençam a grupos que não os dos vendedores. Isso “vale” até mesmo para os canibais. A mente humana é extremamente fértil, principalmente quando precisa justificar o injustificável.

Comecemos pelos canibais. Quem tinha o direito de devorar seres humanos? Certamente os vencedores. Os vencidos eram de outras tribos, portanto não eram do mesmo grupo, portanto eram inferiores, visto que não eram “escolhidos” pelos deuses como “povo eleito”. Para que servem seres inferiores? Para serem escravos ou alimento. Algumas tribos brasileiras devoravam os guerreiros adversários, mortos em combate, para adquirirem sua bravura e tornarem-se mais fortes, mais diferentes. Seus companheiros que morriam eram enterrados! Tudo perfeitamente “legal” e justificado, uma vez que “quem narra o acontecido é o sobrevivente e quem sabe o que acontece organiza o acontecido”, idéias de Otavio Ianni.

Este raciocínio pode ser perfeitamente comparado à escravidão. Vendemos sempre o Outro. Algumas vezes foi necessário recorrer à autoridade estabelecida para obter a “ajuda” necessária para fazer do Outro um pouco mais Outro... Os índios, os negros e as mulheres já foram conside-rados seres “sem alma” por meio de uma bula papal! Que forma brilhante de se desconstruir o Outro! A partir daí, os índios e os negros poderiam ser negociados sem culpa, e as mulheres po-deriam ser diminuídas, humilhadas e levadas às condições mais abjetas de servidão. E o pior: com o aval Dele...

Outro paralelo que pode ser feito é com as guerras. Nelas, a liberdade de matar é determina-da por um retângulo de pano colorido e por traços de tinta preta desenhadas em um mapa, igno-rado pelo planeta. Até a tortura torna-se justificável, uma vez que aquele que “organiza o acontecido” precisa obter informações!

Ortega y Gasset afirmou que quando um indivíduo teme ver-se face a face com uma realidade terrível procura ocultá-la com uma cortina de fantasia, onde tudo fica claro. Não se preocupa se suas “idéias” não são verdadeiras, pois tornam-se trincheiras para a defesa de sua existência, como espantalhos afugentando a realidade. Isso é “humano, demasiado humano”...

Nos tempos modernos, o canibalismo e a escravidão convergiram para a servidão em sua forma mais reles. O servil é o pobre. Ele é o novo não-Outro. É, nas sociedades contemporâneas, o grupo sem alma. E, com a globalização, os pobres formam um grupo sem fronteiras: todos os pobres do mundo são uma “coisa” só – um “banco” de trabalho e de órgãos. Seqüestrar, matar, humilhar, retirar órgãos ou comprá-los. Tudo é justificável e permitido. Afinal, qual seria a utili-dade dos pobres?

Jonathan Swift, o autor de As viagens de Guliver, apresentou uma irônica proposta sobre o que fazer com os pobres – servir de alimento para os abastados. Se o escritor irlandês fosse contemporâneo, certamente sua “proposta” seria no sentido de que a finalidade dos pobres seria a de prolongar a vida dos ricos.

A permanência de um indivíduo no conjunto, finito, dos vivos não deveria depender da conta bancária. Essa miséria humana não pode ser minimizada pela ciência, por mais que Galileu o desejasse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário