quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Saúde e Educação...

Merleau-Ponty, filósofo francês nascido no século XIX, afirmava que a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Estamos vivendo o momento de habitá-las! A forma de fazermos isso é unindo-a à sociedade; afinal é ela que dá suporte à ciência e que “suporta” a ciência. Muitas vezes, as “coisas manipuladas” somos nós. Não devemos nem podemos nos recusar a habitá-las.

As ciências da saúde carregam, em si, a enorme dificuldade de estar sempre agindo de modo a amenizar a existência humana. Não que existir seja um anátema. Ele – o anátema – é não ter qualidade de vida, é viver mal. É um degrau a mais que é somado aos objetivos da ciência.

Fazer ciência é ter dúvidas, é experimentar o êxtase de procurar, entronizar Dioniso. Mas fazer ciência na área de saúde requer um pouco mais do que isso. Requer olhos que estejam prontos para ver o que mui-tos não conseguem. O profissional de saúde necessita ver o que a maioria não pode: dentro do coração de cada um.

Um piloto francês morto há muito tempo – durante a Segunda Guerra – já sabia que “o essencial é in-visível aos olhos”. E, enxergar esse “essencial” é que é esperado do profissional de saúde. Ao lidar com seres humanos com uma relação ímpar de dependência e confiança, o profissional de saúde deve ter em conta um número muito grande de variáveis, maior do que os profissionais de outras áreas.

Para alcançar a meta de enxergar mais do que a Física e a Fisiologia permitem só existe uma forma: treinamento e estudo. O lidar com os pacientes no dia-a-dia dos tempos escolares não se mostra suficiente para alcançar essa habilidade. Somamos a isso o fato de que o aumento do conhecimento é constante e inexorável. Nos tempos da alta especialização, o profissional de saúde tem que ter a mente aberta para o fato de que deve se especializar, mas em seres humanos.

É uma Saga. Mas deve ser um réquiem nunca tocado.

Educar é um processo complexo e polêmico. Os parâmetros envolvidos são fortes o suficiente para se-rem perigosos se mal utilizados. Educar é desmontar o existente para construir o vir-a-ser. O papel do educador, e da Academia, é de enorme responsabilidade que, muitas vezes, é relegado à não-compreensão. As posturas dos mestres e dos discípulos devem ser “coordenadas” para que o processo de aprendizagem seja completado por movimentos nas duas direções. A máxima aristotélica de que a dúvida é o início da sabedoria não deveria abandonar as mentes daqueles que temem ter dúvidas como daqueles que pensam não tê-las.

Uma vez formado, já com o “fardo” do diploma em sua parede – e em sua consciência – as responsa-bilidades mudam drasticamente. Já não se é mais um estudante que “pode” errar. Agora é um profissional que deve procurar não errar.

Em O velho e o mar, Hemingway, inicia dizendo: “há três meses Santiago não trazia nenhum peixe do mar”. A expectativa é de que haja peixes no mar, da mesma forma que esperamos encontrar Saber nas escolas. Devemos agir para que nunca falte peixe para que nossos “Santiagos” nunca se ressintam e para que os jovens tenham futuro...

Há muito tempo, Hipócrates já sabia de tudo isso:

“Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os Deu-ses e todas as Deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue.”

Que seja observado que o preâmbulo do juramento do médico diz que a promessa deve ser cumprida “segundo meu poder e minha razão”. O poder, é dado pela ciência – é o conhecimento. A razão nada mais é do que o essencial, aquele que é invisível aos olhos.

Um comentário:

  1. Creio que está pensando em reunir seus inteligentes textos em livro. Auardarei para reler os aqui já lidos.
    Artur Ribeio de Araujo

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