Este ano de 2010 traz, em si, a marca de 41 anos da chegada do homem à Lua. Marca essa que nos permite pensar sobre toda a saga da espécie no planeta.
O homem deu seu mais majestoso passo em direção ao futuro – passeou na Lua. Foram passos seguros no andar, mas por detrás deles estava a respiração apreensiva de toda humanidade. É certo que os homens não foram mais os mesmos, após o histórico pouso da “Águia” em solo lunar, na-quele 20 de julho de 1969. Talvez seja somente superado pelo primeiro pouso humano em Marte, o legendário planeta vermelho que nos acena, inacessível, há séculos.
O espaço possui relações quase mágicas com os homens. Parece que sua infinitude, além de dilacerar o coração de Pascal, nos retrata a melancolia da eternidade e a brevidade de nosso existir.
Os astronautas retratam mitos, heróis modernos. Desafiando o desconhecido e o impalpável, são os novos “cowboys” que cavalgam o negro vazio do espaço numa tentativa, quem sabe quixotesca, de preenchê-lo com nossa presença; de trazer um saber que está pronto para ser “sabido”, ali, ao alcance não mais de nossas mãos, mas sim de nossas naves. Precisamos transcender-nos para adquirir, como nos ensinou Bertrand Russel, a liberdade do Universo.
Como será esta liberdade? Somos prisioneiros da gravidade e limitados pelos corpos. O primeiro passo é ter certeza de nossa prisão.
A imagem sempre recorrente dos primeiros homens andando na Lua surge mais uma vez. Fechamos os olhos e podemos ver as pegadas humanas ficando para trás a cada passo, lento e distante. Aquelas marcas são testemunhas perenes de que seres efêmeros puderam deixar seu “berço” e partir para o espaço, seres que, inalcançáveis, eram observados, de longe, por toda a humanidade. Foram, durante aquela expedição, os homens mais solitários da história. Suas lembranças ainda estão lá, na Lua, enquanto a Lua está aqui, em nossas lembranças.
Naquele 20 de julho, a Terra era um disco azul no céu de três homens; um dia, talvez ainda distante, a Terra será apenas um ponto, certamente um ponto azul, que estará perdido entre as estrelas. Os homens que pela primeira vez observarem nosso planeta desta forma terão uma certeza dentro de si, muito forte; a de que o homem está entrando para a comunidade do espaço, tornando-se cidadão do Cosmo.
Todas essas conquistas trazem direitos e deveres para nós. Ao conquistarmos um ambiente ainda não tocado por pés humanos, ficamos diante de um dilema ético de proporções planetárias. Até onde temos o direito de intervir no ecossistema de um outro mundo para torná-lo propício para nós? Será que, ao fazermos isso, não estaremos condenando à morte, em seu nascedouro, formas de vida que sequer podemos sonhar? Como nossos dejetos e microorganismos comportar-se-ão em um outro mundo? São perguntas que ainda não pudemos responder. Não há nem mesmo a certeza de que queremos respondê-las. Mas é imperioso que o façamos!
Existem sugestões no sentido de viabilizar o pouso e a permanência humana em Vênus, semeando certas bactérias em seus oceanos, para que com seu metabolismo, lentamente, as condições ambientais venusianas, hoje perniciosas aos homens, fossem mudadas para poder abrigar os futuros “colonos” humanos. Será, este, um projeto sustentável do ponto de vista ético? A dúvida mais forte é se temos o direito de “humanizar” o sistema solar. Alguns debates devem ser feitos até que todas essas questões estejam bem claras e toda uma ética de colonização espacial fique bem esclarecida. A preferência pelo planeta é da população nativa, em potência ou não, ou pelos seres inteligentes que lá cheguem? Lembro-me do Oeste Americano, dos Incas, dos Maias, dos nossos Índios...
Houve um tempo em que o primeiro amanhecer terrestre tomou seu lugar. Foi quando o ar tornou-se respirável e o solo cultivável. Foi aquele dia em que o palco ficou pronto, esperando pacientemente que os atores entrassem em cena. Até onde vai o nosso direito de intervir no teatro dos outros mundos? Estas imagens compõem uma ode à saga humana na conquista espacial e é, também, um réquiem nunca tocado à imensidão do Espaço que vai sendo diluída lentamente, enquanto. nos dirigimos a ele, enquanto nos integramos ao vazio. O caminho para as estrelas foi aberto. Partamos pois...em paz e em nome da humanidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário