quinta-feira, 18 de junho de 2020


Pequena grande História
A escuridão é nossa companheira há muito tempo. Medos e fantasias povoam a ausência. Já viajamos pelo espaço, agora é o momento de viajar pelo tempo. Não iremos ao futuro. Façamos o tempo fluir para trás, escapando do sudário da vida.
Estamos em uma época perdida onde nada existia. Sem luz, sem espaço, sem tempo... Somente a quietude da monotonia. Surge, então, a primeira entidade universal. A singularidade, também conhecida como Ôvo Cósmico, se manifesta para nós. Quieta... Tranquila...
Subitamente... a luz é feita!
Agora somos testemunhas da criação... e cúmplices do Universo. Enquanto a imaginação vai dando corpo a formas desconhecidas, a razão transforma-se em figuras e dá, ao nada etéreo, um nome e um lugar para morar...
Não será sempre assim. O Universo está fadado à morte. Lentamente cada estrela abrirá mão de seu existir e nenhuma outra nascerá de suas cinzas. É o fim do anátema: a Fênix pode, finalmente, morrer pela última vez...
As estrelas se apagam, mas não pela última vez. É o nascer do dia que dilui o espaço. É o retorno da luz e do calor. É a Humanidade que cresce, rejubila-se com a vida, marca a Terra com sua presença, o espaço com suas visitas e o Universo com seus anseios...
Este amanhecer recorda um outro, já perdido no tempo, quando o ar se tornou respirável e o solo cultivável, foi o dia em que o palco ficou pronto, enquanto os atores esperavam, em algum lugar, o momento certo de entrar em cena...



Observamos o Mundo com os aparatos que a evolução nos deu – os sentidos. Os dados coletados pelos sentidos são, na realidade, “sentidos” pelo cérebro. É lá que enxergamos, ouvimos, tocamos, pensamos e concluímos. A questão é que nossos sentidos não nos apresentam a realidade física, mas uma caricatura da realidade. O problema maior é que não temos certeza da “competência” do caricaturista...
Somando-se aos problemas espaciais, temos os problemas temporais. O céu é uma coletânea de tempos diferentes. A luz que chega hoje, vinda de Alfa Centauro, a estrela mais próxima de nós, saiu de lá há 4 anos e 4 meses. Se ela explodir agora, levaremos este tempo para tomar conhecimento do fato. Ao observarmos o céu com seus tempos próprios, tornamo-nos contemporâneos do passado. Um bom exemplo do que isso significa, é observar a galáxia de Andrômeda, uma galáxia espiral, parecida com a Via Láctea. Reparem como seu núcleo é brilhante e sua borda escura. Isto por que estamos descrevendo uma Andrômeda observada por meio da luz visível. Se a víssemos com sensores de ondas de rádio, a galáxia seria o oposto. Núcleo escuro e borda clara. São imagens completamente opostas de um mesmo objeto. Como é, na realidade, a galáxia de Andrômeda? Será que é possível responder a essa pergunta? Será que um dia saberemos como é a realidade? Acho difícil. As pessoas... são “objetos” (no bom sentido), então não temos como saber como elas são! Vemos suas “caricaturas” (as máscaras), ouvimos suas versões e concluímos se gostamos ou não delas. Seja qual for o “veredito” lembro do Carl Sagan: “Cada um de nós é, sob uma perspectiva cósmica, precioso. Se um humano discorda de você, deixe-o viver. Em cem bilhões de galáxias, você não vai achar outro”. Muito propício para os dias de hoje!


Tenho convicção que o Mundo vai sair dessa pandemia diferente do que entrou. Não que a Humanidade vai se modificar, ficar solidária, todos vão amar o próximo e outras expectativas nessa direção. Não há pandemia que mude o caráter da maioria das pessoas. É só observar, senadores desaparecidos), deputados (desaparecidos), governadores, prefeitos. São muito coerentes, pois nada os faz ficar honestos! O mundo vai mudar em suas relações sociais, principalmente trabalhistas. Empresários vão perceber que o trabalho remoto é lucrativo para todos. O transporte público esvazia; o número de carros na rua diminui (a poluição diminui); o custo da energia elétrica nos postos de trabalho diminui; a produtividade aumenta; os gastos com água (para beber e para limpar) diminuem, assim como o consumo de cafezinho despenca. O grande crescimento das lojas virtuais não irá retroceder. Essas mudanças já ocorreram historicamente falando. Por exemplo, a peste negra que dizimou a Europa do século XIV, entre 1347 e 1351. Quatro anos que mudaram as relações socioeconômicas profundamente. A Europa estava superpovoada (já sobrevivente da Grande Fome de 1315). Estima-se que cerca da metade da população foi dizimada; com isso a força de trabalho caiu drasticamente, fazendo com que as relações de trabalho também mudassem. O trabalhador braçal tornou-se uma “mercadoria” valorizada, levando ao fim do moribundo regime feudal. A servidão, na Europa, tendeu ao fim, porque, para continuar a plantar, os donos de terras tiveram que trazer trabalhadores de outras regiões, agora como contratados e não como vassalos. Entre 1350 e 1450, os salários dos trabalhadores ingleses dobrou de valor, o que não havia acontecido em milênios. Com o fim dos feudos, os senhores foram em direção às cidades, gerando a criação dos exércitos nacionais (antes eram feudais). Muitas áreas agricultáveis foram abandonadas e viraram pasto, com o aumento dos rebanhos, a carne foi deixando de ser um luxo inalcançável para as populações. O caminho estava pavimentado para a instalação das máquinas, pois com a diminuição da mão de obra fizeram muito sucesso as fontes eólicas, hidráulica e tração animal para gerar energia para teares mecânicos, mineração, serralheria, construção. Assim, o mundo muda com grandes eventos catastróficos. Vejam o pós segunda guerra. O nosso também vai passar por mudanças. A realidade de nossos netos será outra.


Sempre fui muito curioso, lia diversos temas, certa vez, saindo da adolescência, ganhei de uma querida e saudosa tia uma obra em 3 volumes do médico alemão Fritz Khan, chamava-se “O livro da Natureza”. Deparei-me com um trecho que muito me intrigou e me acompanha até hoje. Era esse o trecho: “Podemos dizer dia porque a noite existe, vida porque conhecemos a morte, silêncio porque há ruído. Não é possível representarmos o espaço, porque não podemos imaginar o contrário do espaço, o não-espaço. Estamos, como diz Einstein, tão profundamente mergulhados no espaço, como um peixe nas águas do oceano. Como esse jamais chegará ao conhecimento de que se encontra no oceano, assim o homem jamais saberá o que seja o espaço. Teria que vir um pescador que nos tirasse para fora dele, virá um, mas, então, será tarde demais”. Essa constatação me deu a perspectiva de nossas limitações neurais. Não temos acesso ao absoluto, somente ao relativo. Sem um “oposto” não entendemos nada do que ocorre no Universo. “Precisamos” da saudade para sermos felizes, “precisamos” das lágrimas para entender os sorrisos. Isso é limitante, mas, paradoxalmente, nos abre uma possibilidade de percepção sem limites. Agora sei que o Universo “esconde” coisas que jamais saberemos e jamais saberemos por causa de nossas deficiências neurais. Quem sabe se a evolução, um dia, nos permitirá ter acesso aos “monopolos” universais? Enquanto isso precisamos conviver com o fato (Humano, demasiadamente humano, me permita Nietzsche) de que para conhecermos a paz precisamos da guerra. De tudo isso podemos apreender que é necessária a existência dos contrários, mas devemos transcender esse limite, fazendo com que os contrários deletérios passem a existir como conceitos e não mais como fatos. Acredito que possamos, um dia, viver em paz em contraponto ao “conceito” de viver em guerra. A guerra não precisa existir... é só não nos esquecermos dela. Então, poderemos prescindir do pescador!


Em torno de 600 a.C. a Economia grega estava dividida, basicamente, em duas atividades. No Sul ficavam os plantadores de grão (principalmente trigo), e no Norte ficavam os produtores de azeite e vinho. As terras do Sul não eram boas, a produção de grãos era pouca (cara) o pessoal do Norte descobriu que ao leste da Grécia (onde hoje é a Rússia) o povo tinha terras boas e plantava grãos com colheitas muito grandes (barata). Imediatamente passaram a vender sua produção para eles em troca de comprar os grãos. Resultado disso? O Sul foi ficando muito pobre e se endividou com o pessoal do Norte que agora estava rico. Em cerca de 594 a.C. o caos estava instalado na Grécia (Atenas) e os governantes não conseguiam pôr ordem no caos econômico. Aí chamaram um aristocrata que, sem dúvida, foi um dos homens mais brilhantes que já passou pela Terra – Sólon. Naquela época não existia papel moeda, as moedas eram cunhadas com metal precioso (ouro ou prata) e seu valor era dado pela massa da moeda, chamada óbolo (0,5g) ou dracma (3,4g). O que Sólon fez? O governo não tinha dinheiro suficiente para “salvar” o Sul aí cunhou moedas com menos massa (de ouro) do que devia, completando-a com cobre (dinheiro falso!); comprou a produção de grão do Sul, salvo-o da derrocada e as coisas se equilibraram por lá. Essa, certamente, é a versão resumida dos acontecimentos. Mas foi uma das primeiras vezes que um governo “imprimiu” dinheiro sem lastro (era o caminho do fim do lastro em metal do futuro papel moeda). Após a solução desse enorme problema, Sólon fez uma enorme contribuição à Humanidade. Simplesmente criou a Democracia!


Hoje é um dia do ano 6700 a.C.. Estamos no Neolítico quando os homens aprenderam a fazer machados e outras ferramentas. Era o que conhecemos como período da pedra polida. É marcado pelo surgimento da agricultura e, em seu fim, pelo surgimento da escrita,  nos tirando da pré-história para ingressarmos na História. Estamos na região da Anatólia (hoje na Turquia), mais precisamente em um assentamento chamado Çatalhüyük. As casas eram de tijolo cru. Não existiam ruas, portas ou janelas. Os moradores se deslocavam pelos tetos que tinham aberturas (possivelmente com escadas de madeira) por onde os moradores entravam. Já faziam cerâmica. As casas tinham fogões e lugares para dormir. As casas eram todas iguais!
São as primeiras casas dos homens, que puderam abandonar as cavernas (após utilizá-las por 100 mil anos) por causa da agricultura e da domesticação dos animais. Foram essas “descobertas” que permitiram o assentamento dos grupos humanos em regiões a céu aberto. As casas (cavernas artificiais) eram cercadas por plantações, a coleta e a catação deram lugar à colheita e a caça, à criação. Estima-se que lá viveram cerca de 7.000 pessoas. Totalmente iguais. Todos comiam a mesma comida, a mesma carne. Não haviam líderes (pelo menos explícitos), não haviam sacerdotes (há indício de um culto à seres sobrenaturais em cada casa, não há indícios de uma “gerência” das crenças, todas as casas tinham pinturas de seres e formas de culto).
Há registros de que o pessoal, das proto-cidades, trocava seus excedentes com as vizinhas, criando o embrião do comércio. Os arqueólogos encontraram sinais de que, em plantavam muito feijão e guardavam uma pedra, a obsidiana, que é uma rocha ígnea constituída quase integralmente por vidro vulcânico. É vermelha, bem escura, brilhante e bonita! Talvez a primeira “pedra preciosa”. Talvez seu ajuntamento tenha sido motivo de inveja, talvez sua posse tenha sido cobiçada... Talvez os homens tenham descoberto o caminho das sociedade como a conhecemos.
Especulo, daqui para frente. Acho que o aumento das áreas plantadas, o aumento dos excedentes incrementando o comércio, o aumento da acumulação de pedras sem valor intrínseco, mas apenas valor agregado pelas mentes humanas, tenham criado a necessidade de gestores, de pessoas que tinham mais pedras, mais feijões que a diferença tenha sido introduzida na igualdade. Então, surgem as elites, indivíduos que quase nunca produzem, mas se arvoram em donos da produção.
Toda moeda tem dois lados, não tem como fugir dessa realidade concreta ou metafórica – a agricultura que tanto nos “concedeu” nos tirou a igualdade; e, como corolário, nos tirou a equidade. Sou, assim, remetido a uma frase em ouvi em um discurso de Martin Luther King: “Um reino na Terra não pode existir sem desigualdade entre as pessoas. Alguns devem ser livres, alguns servos, alguns líderes, alguns seguidores”.
Um dia, espero, a Humanidade possa voltar às casas iguais. Será uma época na qual isolamento social terá outra conotação – a de individualidade.


Há mais ou menos 16 bilhões de anos, a expansão de uma singularidade (Big Bang) deu origem às causas que levaram ao nascimento das galáxias. A vida das estrelas nas galáxias levou ao nascimento dos planetas. A vida dos planetas levou ao nascimento da vida. Esta é a nossa cadeia causal. Big bang – estrelas – planetas – vida. E agora? A que ponto a “vida” da vida vai nos levar? Hoje a ciência já sabe que vida surgiu no mar e que alguns tipos de rochas, (bem porosas) tiveram um papel importante no desenvolvimento dela – a olivina. A química da água dos oceanos há 3,5 bilhões de anos, as temperaturas e as pressões das águas oceânicas de 3,5 bilhões de anos e as rochas (ainda jovens) há 3,5 bilhões de anos criaram as condições necessárias e suficientes para que a vida surgisse. Primeiro foi construído o Teatro, depois o palco e depois entraram os atores. Somos, então, fruto de condições geoquímicas. Bastaria um Ph “errado” e não estaria aqui digitando isso. Passados 3,5 bilhões de anos, em um dado dia (imagino sempre pela manhã ) surgiram os precursores do Homo sapiens. Na África Central. Mais um tempo e esses novos seres deixam o “berço” e partem para explorar novas terras. Conquistam a Europa, a Ásia, a Oceania e a América. Todos “filhos” daqueles aventureiros que deixaram a África Central. Conclusão da história: Cada louro, cada ruivo, cada moreno, cada pardo, cada negro, cada vermelho ou amarelo, tem, necessariamente, um avô negro! A negritude é nossa essência, a “branquitude” é nossa potência. Somando-se a essa constatação, verificamos que todos têm um avô africano e um tataravô coacervado; porque a vida surgiu na Terra UMA vez só! Tudo o mais decorre daquele início. É a “vida que dá a vida, nós somos meras testemunhas”. Hoje, com os 5 continentes conquistados, não perdemos a pulsão de “sair do berço”, vamos para o espaço, vamos para uma nova Europa, aquela que orbita Júpiter, aquela que servirá de trampolim para deixarmos o Sistema Solar, em direção a novos Mundos, novos “berços” de novas formas de vida. Nesse dia os netos dos africanos, bisnetos dos Australopitecos e tataranetos dos coacervados vão dar seu “pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”... de novo...

quinta-feira, 30 de abril de 2020


“Cada vez que ponho uma máscara para esconder minha realidade, fingindo ser o que não sou, faço-o para atrair o outro e logo descubro que só atraio a outros mascarados, distanciando-me dos outros devido a um estorvo: a máscara.”
Gilbert B. Lazan (psicólogo social norte americano, 1942-)
Percebo que cada dia mais, entramos nas redes sociais usando máscaras. Somos críticos, somos ácidos, somos sabidos, somos santos, somos bem-intencionados, somos democratas, somos simplesmente o máximo! Mas entendo que são apenas máscaras que usamos para nos apresentar a amigos íntimos, amigos distantes, a parentes (que são amigos), amigos que não temos muito contato ou a amigos de amigos. É igual escolher roupa para uma festa, usamos a que achamos ser a melhor. É uma escolha da mesma “safra”, escolhemos nossas posições para ficar, sempre, bem na foto, mas como muitas vezes escolhemos a roupa errada e só percebemos quando chegamos na festa, aqui é o oposto, somente seremos capazes de ver se escolhemos as palavras certas depois da festa! Há uma forte tendência de analisarmos tudo (aos vigilantes, aviso que isso não é uma crítica, mas uma análise ), para isso não temos outro recurso do que o de usar o que somos. Entendo nossa mente a interface do Ego com Pã, que, para alegria de Dioniso, veio ao Mundo para ser Tudo! Nossas máscaras estão alocadas nos egos e nós sabemos muito bem que a usamos. Daí vem a ira que as pessoas se permitem, para tentar enganar os ouvintes de que acreditamos no que falamos. Muitas vezes vejo postagens que fico pensando como é possível um ser senciente acreditar no que escreveu!
O recente caso da demissão do Mandeta. Para a oposição, tudo que a situação faz, ou diz, está errado (a recíproca é verdadeira!). Todo o ministério do Bolsonaro era pífio; até o Mandeta começar a discordar publicamente do Bolsonaro (sem juízo de valor sobre quem estava certo). Aí foi canonizado. O Atual ministro é o vilão da semana; até ele discordar do presidente, pois aí será canonizado imediatamente. Essa máscara entendo ser uma das piores que podemos escolher para usar, é feia, digna mesmo de Hefesto!


Pequena grande História
A escuridão é nossa companheira há muito tempo. Medos e fantasias povoam a ausência. Já viajamos pelo espaço, agora é o momento de viajar pelo tempo. Não iremos ao futuro. Façamos o tempo fluir para trás, escapando do sudário da vida.
Estamos em uma época perdida onde nada existia. Sem luz, sem espaço, sem tempo... Somente a quietude da monotonia. Surge, então, a primeira entidade universal. A singularidade, também conhecida como Ôvo Cósmico, se manifesta para nós. Quieta... Tranquila...
Subitamente... a luz é feita!
Agora somos testemunhas da criação... e cúmplices do Universo. Enquanto a imaginação vai dando corpo a formas desconhecidas, a razão transforma-se em figuras e dá, ao nada etéreo, um nome e um lugar para morar...
Não será sempre assim. O Universo está fadado à morte. Lentamente cada estrela abrirá mão de seu existir e nenhuma outra nascerá de suas cinzas. É o fim do anátema: a Fênix pode, finalmente, morrer pela última vez...
As estrelas se apagam, mas não pela última vez. É o nascer do dia que dilui o espaço. É o retorno da luz e do calor. É a Humanidade que cresce, rejubila-se com a vida, marca a Terra com sua presença, o espaço com suas visitas e o Universo com seus anseios...
Este amanhecer recorda um outro, já perdido no tempo, quando o ar se tornou respirável e o solo cultivável, foi o dia em que o palco ficou pronto, enquanto os atores esperavam, em algum lugar, o momento certo de entrar em cena...


Observamos o Mundo com os aparatos que a evolução nos deu – os sentidos. Os dados coletados pelos sentidos são, na realidade, “sentidos” pelo cérebro. É lá que enxergamos, ouvimos, tocamos, pensamos e concluímos. A questão é que nossos sentidos não nos apresentam a realidade física, mas uma caricatura da realidade. O problema maior é que não temos certeza da “competência” do caricaturista...
Somando-se aos problemas espaciais, temos os problemas temporais. O céu é uma coletânea de tempos diferentes. A luz que chega hoje, vinda de Alfa Centauro, a estrela mais próxima de nós, saiu de lá há 4 anos e 4 meses. Se ela explodir agora, levaremos este tempo para tomar conhecimento do fato. Ao observarmos o céu com seus tempos próprios, tornamo-nos contemporâneos do passado. Um bom exemplo do que isso significa, é observar a galáxia de Andrômeda, uma galáxia espiral, parecida com a Via Láctea. Reparem como seu núcleo é brilhante e sua borda escura. Isto por que estamos descrevendo uma Andrômeda observada por meio da luz visível. Se a víssemos com sensores de ondas de rádio, a galáxia seria o oposto. Núcleo escuro e borda clara. São imagens completamente opostas de um mesmo objeto. Como é, na realidade, a galáxia de Andrômeda? Será que é possível responder a essa pergunta? Será que um dia saberemos como é a realidade? Acho difícil. As pessoas... são “objetos” (no bom sentido), então não temos como saber como elas são! Vemos suas “caricaturas” (as máscaras), ouvimos suas versões e concluímos se gostamos ou não delas. Seja qual for o “veredito” lembro do Carl Sagan: “Cada um de nós é, sob uma perspectiva cósmica, precioso. Se um humano discorda de você, deixe-o viver. Em cem bilhões de galáxias, você não vai achar outro”. Muito propício para os dias de hoje!


O ódio e o amor são primos. Primos-irmãos. São inteiramente irracionais, posto que paixões. Somando-se essa “crença” a uma outra, a de que a evolução só nos legou dois sentimentos: prazer e medo; sou levado a concluir que precisamos usar mais nosso poder discricionário para elaborarmos nossas convicções. Vejam um parlamento. Em qualquer país. Os membros da situação concordam com tudo o que o Presidente (ou Primeiro Ministro) faz, ou diz, e a oposição discorda de tudo com a mesma veemência. Não é só por interesse ou por corrupção; é da natureza da espécie. Os que não apoiam têm medo de tudo dar certo e eles perderem suas posições, os que apoiam têm o mesmo medo, só que com o sinal contrário! O prazer passa pela “gestão” de nossas mentes. Amamos, por prazer; roubamos por prazer; fazemos caridade por prazer; buscamos poder por prazer; escolhemos nossas profissões por prazer; até odiamos por prazer. Nossas escolhas estão intrinsecamente atreladas à nossa parte irracional (ou inconsciente). Em Israel não é ilegal tocar músicas de Wagner, mas são evitadas por terem ficado associadas ao holocausto, por ter sido o compositor favorito de Hitler. Ok. Faz sentido se introduzimos, nessa equação, a variável medo. Eu que nem era nascido na Segunda Guerra, sinto um frio na espinha quando vejo ou leio sobre os campos de concentração, imagine os povos que sofreram com ele! Mas! Wagner morreu em 1883. Hitler nasceu em 1889. Nunca dividiram o planeta. Não se conheceram. E se descobrirem que o Hitler gostava de bombom de cereja, o que a Cacau Show fará? Esse é o ponto. Não desligar os filtros para não perder a chance de pensar. Se odiarmos tudo que uma determinada pessoa gostar, estaremos dando a ela o poder de determinar nossas ações e nossas falas. A recíproca é “verdaderíssima”. Então, quando o Presidente disser alguma coisa, entendo, que devemos usar nossos filtros (éticos, políticos, educacionais, de sabedoria) para “decidir” se concorda ou não. Não concordo com quase nada que o Presidente fala, mas concordo com a maioria das ações já feitas no país. Não é porque votei em alguém que devo vassalagem a ele; só a meus princípios. Discordar a priori é tão primevo quanto concordar a priori, pois nos levam à irracionalidade e à desconstrução de nosso Ego. Abrimos mão de sermos nós. Abrimos mão do “sapiens” do nosso “Homo”.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Estamos em um dia qualquer, de um lugar qualquer da Terra, há (mais ou menos) 300.000 anos. Parece que essa foi a ocasião que surgiu o Homo sapiens, durante o Pleistoceno Médio. Passa mais um “pouquinho” de tempo e surge o homem moderno – Homo sapiens sapiens –, há 130.000 anos, pelo menos essa é a idade do mais antigo fóssil que conhecemos. Éramos nômades, caçadores e coletores e vivíamos em pequenos bandos, abrigados em cavernas. Os homens caçavam e as mulheres cuidavam da prole, coletavam e catavam vegetais. Um dia, uma mulher deve ter percebido que grãos que caiam ao solo, nasciam de novo. Se os grãos nasciam pelo caminho, poderiam ser jogados propositalmente em uma região controlada e não seria mais preciso catar e coletar, mas colher! Nascia a agricultura. Alguns animais foram domesticados nessa mesma época, dando origem à pecuária. Resumo da ópera: Tínhamos que sair das cavernas. Tínhamos que juntar mais bandos para dar conta do controle dos vegetais e dos animais. Tínhamos que ir para o campo aberto, plantar, colher e depois voltar para as cavernas, até que um dia alguém teve a brilhante ideia de levar a caverna ao campo. Inventaram as moradias. Deu certo e vários grupamentos começaram a construir suas “cavernas” (casas) ao redor dos campos plantados – surgiu uma cidade! Jericó, nas margens do rio Jordão, é considerada a cidade mais antiga (conhecida), fundada em 9.000 a.C.. Outra cidade também famosa é Ur, na Suméria (atual Iraque), fundada em 3.800 a.C.. Decorre da existência das cidades, a criação e outras formas de “trabalho” que não a caça, a semeadura ou a colheita. Fez-se necessário trocar os excedentes, estocar a produção; para isso era preciso garantir caminhos para a produção escoar, registro do tamanho da produção, quantos animais foram trocados, quem comprou, quem vendeu, por onde transportar. Daí surge: a escrita – os primeiros registros que conhecemos datam de 4.000 a.C. e são registros sobre impostos! A necessidade de coordenar o esquema todo gerou um poder centralizado (a semente do Estado Nacional), que forneciam serviços de construção de estruturas, como muralhas, templos, organização do comércio, criação de regras (leis), defesa da cidade. E aí surge a elite! Por volta do século VII a.C. surge a primeira moeda, na Lídia (atual Turquia), cunhada por Aliates. Assim, o escambo dá lugar ao dinheiro.
Agora um palco está pronto; palco esse que será o depositário de uma importante guinada nas sociedades humanas. Mas, antes, voltemos às cavernas.

O gênero Homo (quase todos os animais também) recebeu, de presente da evolução, três variáveis importantes (entre muitas outras, obviamente): o instinto de sobrevivência, o instinto de reprodução (preservação da espécie) e o medo. Um indivíduo “sabe” que precisa sobreviver e reproduzir-se. Para sobreviver, muitas vezes, precisa do medo, para “saber” que necessita fugir diante de alguns predadores ou situações perigosas, não somente expostas pelos predadores, mas pela natureza também. A sobrevivência e o medo repousam em uma região do cérebro conhecido por “cérebro reptiliano”, localizado no topo da espinha dorsal. A racionalidade e a espiritualidade repousam no córtex frontal. Espiritualidade aqui não tem, evolutivamente falando, nada a ver com deuses, santos ou espíritos, mas o reconhecimento de pertencimento à natureza, seria algo como a imposição do abstrato ao concreto. Agora sim, o palco está pronto!
Imaginem o efeito que o Sol, a Lua, as nuvens, a chuva, os raios, os trovões, os incêndios, os ventos deveriam ter nas mentes dos primeiros homens. Acho que a Lua deveria ter uma influência muito forte, pois além de tudo mudava de forma diante de todos. A Lua Nova deveria ser fruto da raiva dela com os homens e se escondia, quando estava contente iluminava muito bem a Terra (Lua Cheia). Assim imagino que a racionalidade primitiva, associanda ao medo atávico, levou aos homens a noção que essas forças os controlava, ou tentavam. Daí a criarem as divindades foi um passo, simples e óbvio. Nas cavernas (quando viviam em bandos pequenos, quase familiares) os deuses eram forças. Quando as cidades foram criadas, quando funções diferentes de caçador e de coletor surgiram, esses indivíduos (que não produziam) devem ter percebido que poderiam controlar o grupo se antropomorfizassem as forças. O Sol virou Rá (no Egito), Apolo (na Gécia), Uto (em Ur); a Lua virou Selene (na Grécia), Nana (em Ur); as águas viraram Netuno; os sentimentos também foram “transformados”, o amor virou Inana (em Ur) ou Afrodite (na Grécia) – curiosamente os Sumérios associavam Inana ao planeta Vênus, como os gregos fizeram. Em Ur, o céu era An, na Grécia, era Urano.
A “transformação” das forças naturais e dos sentimentos em entidades humanoides facilitou que as populações “acreditassem” em suas existências, afinal eles viam as forças e sentiam os sentimentos. Com essa multidão de deuses, os sacerdotes “deitavam e rolavam”. Até que um faraó chamado Aquenaton, casado com Nerfetiti, (que reinou entre 1 352 a.C. e 1 336 a.C.) resolver impor, à população, o monoteísmo. Fechou os templos e disse que só existia um deus, o Sol (Atón). Era um enorme panteão, com quase 2.000 deuses, trocado por um único deus. A aparência que o faraó afirmava que Atón possuía não era antropomórfica, era uma forma abstrata do Sol e de seus raios, uma das dificuldades da população aceitar um deus que não remetia à forma humanoide, pois os crentes têm que se sentir parte do deus (lembra do “a sua imagem e semelhança”?). O filho de Aquenaton, Tutancâmon restaurou o panteão milenar e os egípcios “viveram felizes para sempre”, pois os sacerdotes voltaram a ter seu antigo poder e a vida voltou à normalidade, até a chegada de Alexandre, o Grande, mas essa é outra história.
Hoje existem três principais vertentes monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. As três acreditam praticamente no mesmo Deus, com escolhas diferentes, só que idênticas; as três acham que Deus os escolheu como favoritos.
O mundo criado por todos os deuses que já existiram é putrefato, não acredito que seja obra de uma divindade, qualquer que seja ela. Milhões morreram e milhões mataram em nome de seus deuses. Até mesmo os deuses mataram milhões. No Antigo Testamento existem 2.220.000 mortes atribuídas a Deus e 12 ao Diabo!!!
Muitos povos escravizaram e foram escravizados. Por que seus deuses nunca os salvaram da escravidão? Por que os deuses nunca desaconselharam a escravidão? Existe um povo que nunca foi escravizado, nem nunca escravizou – o esquimó. E eles têm duas características que acho fundamentais para explicar isso. Os esquimós não têm deuses nem Estado nacional! Têm superstições, mas não acreditam em seres sobrenaturais e sua estrutura social se baseia na família. Vivem em paz. Nunca entraram em guerra. Acho que tem tudo a ver.
Seja onde for que fica o “cemitério onde os deuses estão enterrados”, será uma questão de tempo que os homens compreendam que lá ainda existem “vagas”; para lá quase todos já foram e para lá todos irão; em um dia em que as pessoas perceberão que somente podemos receber ajuda do Outro e somente precisamos cuidar do Outro. Assim caminhará a Humanidade.