Estamos em um dia qualquer, de um lugar qualquer da Terra,
há (mais ou menos) 300.000 anos. Parece que essa foi a ocasião que surgiu o
Homo sapiens, durante o Pleistoceno Médio. Passa mais um “pouquinho” de tempo e
surge o homem moderno – Homo sapiens sapiens –, há 130.000 anos, pelo menos
essa é a idade do mais antigo fóssil que conhecemos. Éramos nômades, caçadores
e coletores e vivíamos em pequenos bandos, abrigados em cavernas. Os homens
caçavam e as mulheres cuidavam da prole, coletavam e catavam vegetais. Um dia,
uma mulher deve ter percebido que grãos que caiam ao solo, nasciam de novo. Se
os grãos nasciam pelo caminho, poderiam ser jogados propositalmente em uma
região controlada e não seria mais preciso catar e coletar, mas colher! Nascia
a agricultura. Alguns animais foram domesticados nessa mesma época, dando
origem à pecuária. Resumo da ópera: Tínhamos que sair das cavernas. Tínhamos
que juntar mais bandos para dar conta do controle dos vegetais e dos animais.
Tínhamos que ir para o campo aberto, plantar, colher e depois voltar para as
cavernas, até que um dia alguém teve a brilhante ideia de levar a caverna ao
campo. Inventaram as moradias. Deu certo e vários grupamentos começaram a
construir suas “cavernas” (casas) ao redor dos campos plantados – surgiu uma
cidade! Jericó, nas margens do rio Jordão, é considerada a cidade mais antiga
(conhecida), fundada em 9.000 a.C.. Outra cidade também famosa é Ur, na Suméria
(atual Iraque), fundada em 3.800 a.C.. Decorre da existência das cidades, a
criação e outras formas de “trabalho” que não a caça, a semeadura ou a
colheita. Fez-se necessário trocar os excedentes, estocar a produção; para isso
era preciso garantir caminhos para a produção escoar, registro do tamanho da
produção, quantos animais foram trocados, quem comprou, quem vendeu, por onde
transportar. Daí surge: a escrita – os primeiros registros que conhecemos datam
de 4.000 a.C. e são registros sobre impostos! A necessidade de coordenar o
esquema todo gerou um poder centralizado (a semente do Estado Nacional), que
forneciam serviços de construção de estruturas, como muralhas, templos,
organização do comércio, criação de regras (leis), defesa da cidade. E aí surge
a elite! Por volta do século VII a.C. surge a primeira moeda, na Lídia (atual
Turquia), cunhada por Aliates. Assim, o escambo dá lugar ao dinheiro.
Agora um palco está pronto; palco esse que será o
depositário de uma importante guinada nas sociedades humanas. Mas, antes,
voltemos às cavernas.
O gênero Homo (quase todos os animais também) recebeu, de
presente da evolução, três variáveis importantes (entre muitas outras,
obviamente): o instinto de sobrevivência, o instinto de reprodução (preservação
da espécie) e o medo. Um indivíduo “sabe” que precisa sobreviver e
reproduzir-se. Para sobreviver, muitas vezes, precisa do medo, para “saber” que
necessita fugir diante de alguns predadores ou situações perigosas, não somente
expostas pelos predadores, mas pela natureza também. A sobrevivência e o medo
repousam em uma região do cérebro conhecido por “cérebro reptiliano”, localizado
no topo da espinha dorsal. A racionalidade e a espiritualidade repousam no
córtex frontal. Espiritualidade aqui não tem, evolutivamente falando, nada a
ver com deuses, santos ou espíritos, mas o reconhecimento de pertencimento à
natureza, seria algo como a imposição do abstrato ao concreto. Agora sim, o
palco está pronto!
Imaginem o efeito que o Sol, a Lua, as nuvens, a chuva, os
raios, os trovões, os incêndios, os ventos deveriam ter nas mentes dos
primeiros homens. Acho que a Lua deveria ter uma influência muito forte, pois
além de tudo mudava de forma diante de todos. A Lua Nova deveria ser fruto da
raiva dela com os homens e se escondia, quando estava contente iluminava muito
bem a Terra (Lua Cheia). Assim imagino que a racionalidade primitiva, associanda
ao medo atávico, levou aos homens a noção que essas forças os controlava, ou
tentavam. Daí a criarem as divindades foi um passo, simples e óbvio. Nas
cavernas (quando viviam em bandos pequenos, quase familiares) os deuses eram
forças. Quando as cidades foram criadas, quando funções diferentes de caçador e
de coletor surgiram, esses indivíduos (que não produziam) devem ter percebido
que poderiam controlar o grupo se antropomorfizassem as forças. O Sol virou Rá
(no Egito), Apolo (na Gécia), Uto (em Ur); a Lua virou Selene (na Grécia), Nana
(em Ur); as águas viraram Netuno; os sentimentos também foram “transformados”,
o amor virou Inana (em Ur) ou Afrodite (na Grécia) – curiosamente os Sumérios
associavam Inana ao planeta Vênus, como os gregos fizeram. Em Ur, o céu era An,
na Grécia, era Urano.
A “transformação” das forças naturais e dos sentimentos em
entidades humanoides facilitou que as populações “acreditassem” em suas
existências, afinal eles viam as forças e sentiam os sentimentos. Com essa
multidão de deuses, os sacerdotes “deitavam e rolavam”. Até que um faraó
chamado Aquenaton, casado com Nerfetiti, (que reinou entre 1 352 a.C. e 1 336
a.C.) resolver impor, à população, o monoteísmo. Fechou os templos e disse que
só existia um deus, o Sol (Atón). Era um enorme panteão, com quase 2.000
deuses, trocado por um único deus. A aparência que o faraó afirmava que Atón
possuía não era antropomórfica, era uma forma abstrata do Sol e de seus raios,
uma das dificuldades da população aceitar um deus que não remetia à forma
humanoide, pois os crentes têm que se sentir parte do deus (lembra do “a sua
imagem e semelhança”?). O filho de Aquenaton, Tutancâmon restaurou o panteão
milenar e os egípcios “viveram felizes para sempre”, pois os sacerdotes
voltaram a ter seu antigo poder e a vida voltou à normalidade, até a chegada de
Alexandre, o Grande, mas essa é outra história.
Hoje existem três principais vertentes monoteístas:
Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. As três acreditam praticamente no mesmo
Deus, com escolhas diferentes, só que idênticas; as três acham que Deus os
escolheu como favoritos.
O mundo criado por todos os deuses que já existiram é putrefato,
não acredito que seja obra de uma divindade, qualquer que seja ela. Milhões
morreram e milhões mataram em nome de seus deuses. Até mesmo os deuses mataram
milhões. No Antigo Testamento existem 2.220.000 mortes atribuídas a Deus e 12
ao Diabo!!!
Muitos povos escravizaram e foram escravizados. Por que seus
deuses nunca os salvaram da escravidão? Por que os deuses nunca desaconselharam
a escravidão? Existe um povo que nunca foi escravizado, nem nunca escravizou –
o esquimó. E eles têm duas características que acho fundamentais para explicar
isso. Os esquimós não têm deuses nem Estado nacional! Têm superstições, mas não
acreditam em seres sobrenaturais e sua estrutura social se baseia na família.
Vivem em paz. Nunca entraram em guerra. Acho que tem tudo a ver.
Seja onde for que fica o “cemitério onde os deuses estão enterrados”,
será uma questão de tempo que os homens compreendam que lá ainda existem “vagas”;
para lá quase todos já foram e para lá todos irão; em um dia em que as pessoas
perceberão que somente podemos receber ajuda do Outro e somente precisamos cuidar
do Outro. Assim caminhará a Humanidade.