sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Vento e o Tempo ou o Tempo e o Vento?




Quando Helius escondia-se atrás do horizonte, milhões de olhos cintilantes surgiam observando o planeta. No silêncio da escuridão amedrontadora podia-se apenas ouvir os sons da noite e de predadores em busca de vida, para viverem.

Não há certeza se foi o tempo e o vento ou se foi o vento e o tempo que trouxeram mais luz àqueles que passaram a levantar a cabeça e encarar os milhões de olhos que os esperavam há milhões de anos. Assim ocorreu o chamado. As estrelas convidaram nossos avós e... nós partimos.


Adágio


Nyx teve diversos filhos, entre eles a Discórdia, a Ética, a Miséria, o Sonho e os gêmeos Sono e Morte. A compreensão de para onde estávamos indo foi retirando o medo que tínhamos dos filhos da noite e transferindo-o para os filhos do homem. A luta pelo espaço, pela água, pela comida, forjou uma espécie que se uniu à maioria dos filhos de Nyx para livrarem-se da Ética e do Sonho. Estamos mudando as alianças – que venham os exilados para que uma época vá embora, mas que vá lentamente, como a noite que amanhece sem que a gente saiba exatamente como aconteceu.

Máquinas a vapor, lunetas, telescópios, navios, carros e aviões. Buscamos ver e andar melhor, tentamos compreender melhor o mundo à volta como um destino desenhado como efeito colateral da inteligência. Não nos basta sobreviver e reproduzir. Precisamos de mais do que isso; vencemos a compulsão biológica, substituindo parte dela pela compulsão cognitiva – precisamos saber, e para saber mais é preciso perguntar mais, é preciso olhar mais para aqueles milhões de olhos que nos esperam há tanto tempo... O dia em que nos juntarmos às estrelas poderemos olhar novamente para nosso chão, mas será um chão muito, muito diferente de todos os que já pisamos.


Acorde


Em muitos aspectos a Filosofia e a Astronomia se tocam – ambas têm muito que aprender, mas não dispõe inteiramente do objeto de seu estudo. O homem é inacessível ao filósofo como o Universo o é ao astrônomo. Essas formas de saber não dispõem de laboratórios onde experiências podem ser levadas a cabo. A elas cabe observar, inferir, concluir. A Astronomia e a Filosofia dependem de acontecimentos inteiramente alheios a seus desejos. É o que as torna o primeiro som do acorde.

As diligências sobre como ocorreu a instalação da vida na Terra é de importância intrínseca ao próprio tema. É peculiar o fato de discutirmos a vida sendo seres vivos. A vida parece ser o mais complexo sistema físico-químico que surgiu no Universo. Até onde sabemos, essa reação química pensa, reage, sofre, ama e tenta compreender o Mundo que a cerca e que a possibilitou. Tentar explicar a vida sendo dotados de tal faculdade tornou-se o ponto precípuo do interesse que o assunto desperta. Esse é o segundo som do acorde.

Permeia o conjunto dos saberes humanos, a dualidade. Talvez a mais famosa dualidade científica seja a matéria e a energia. Essa dualidade é especial por encarnar a complementaridade em sua forma mais explícita. Idiossincraticamente são a mesma entidade, manifestas em suas formas particulares. Alotropia cósmica? O início foi construído com energia, mas o hoje é feito de matéria; suas formas são inúmeras, algumas se reproduzem de forma quase igual e outras, após alguns passos, pensam sobre tudo isso.

O inexorável fluir do tempo trouxe à existência o homem, ser que conquistou o poder de perguntar e de argumentar. Por trás de um cérebro primata está a inteligência, que desencadeou processos físicos, químicos, psicológicos, enfim, processos biológicos que levaram o homem a se estruturar em sociedades. Detentora de características muito próprias, as sociedades humanas iniciaram seu desenvolvimento na História até chegar aos complexos estágios culturais modernos, que devem ser objeto de estudo e análise para todos que estejam interessados em aumentar sua parcela, ou mesmo sua participação, no dinâmico mecanismo evolutivo social e científico a que cada homem se encontra sob jugo.

O processo social e científico já sofrido, ou a sofrer, pela espécie humana possui um destacado papel exercido pela inteligência, que, ao analisar os processos intrínsecos à biologia do ser inteligente, prepara o terreno para que inúmeras dúvidas sobre o comportamento humano e sobre a necessidade de decisão que um cientista se vê frente a frente no desenrolar de seus estudos comecem a ser decifradas ou, na melhor das hipóteses, compreendidas e aceitas. Esse é o terceiro som do acorde.

Questões se apresentam quando tratamos da vida e da morte. A morte está presente em qualquer futuro. O medo e a má convivência dos homens com a morte induziram a criação das entidades eternas. Primeiro foram os deuses, depois as estrelas, e agora, o Universo. Parece que Nyx detinha o instrumento que emitiu o acorde.

Uma das primeiras conquistas do Homo sapiens foi a faculdade de pensar. Depois aprendeu a comunicar seus pensamentos, o que é, indubitavelmente, uma ação para a compreensão do Mundo. O pensar envolve a compreensão do indivíduo, mas a comunicação envolve a razão do coletivo. A ciência caracteriza-se por permitir que cada experimento seja repetido em qualquer lugar e a qualquer tempo. Essa propriedade a destaca dos mitos e das superstições, mas somente existe por existir a linguagem. Agora ouvimos o quarto som do acorde.

Se um predador se aproxima, sua vítima em potencial pode vê-lo ou ouvi-lo. A luz é irradiação eletromagnética, o som é vibração mecânica, que perturba o ar ou a água em torno da vítima, mas o sistema nervoso dos seres vivos, inteligentes ou não, não “falam” essa língua, é preciso que esses estímulos sejam transmutados em impulsos elétricos dentro de seus condutores celulares. Nesse instante entram os órgãos dos sentidos, que se tornam “tradutores oficiais” do que acontece no Mundo à volta para que o indivíduo possa inferir acontecimentos e deduzir que tem acesso à realidade.

Somente nos últimos anos, após mais de 6 mil anos de civilização, os homens perceberam que o que chamamos de realidade é apenas uma “caricatura” do real. Não temos acesso à Realidade. Pensar o Mundo significa tentar explicá-lo, buscar compreender seu sentido. Existem várias formas para alcançar esse fim. Durante as tentativas, surgem os vários conceitos de verdade. Reconhecer que existem verdades é o quinto som do acorde.

O artista reparte com o cientista e com o filósofo a perplexidade diante do Mundo, mas com uma vantagem, a arte pode se permitir exteriorizar o imaginário de formas complexas e esteticamente belas. Um artista deve ter a liberdade de se transcender, liberdade essa que é explicitada quando representa o real e o imaginário, à vezes sem distingui-los.

Platão achava que “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. Aristóteles associou o tempo ao movimento, que seriam percebidos juntamente.

O tempo é uma variável que assusta e estimula os homens desde que começou o processo de pensar. O que seria isso que a tudo envolve e é superior a tudo que o homem tenta fazer para controlar sua passagem, suas conseqüências ou para descobrir se também é uma estrada, como pensa que é o espaço. Impulsionados pelo tempo, seguiremos uma viagem pelo espaço e ouviremos o sexto som do acorde.

Do Mundo faz parte a Terra. Do saber humano faz parte a Filosofia. Uma vez nascido, o indivíduo passa por fases de aprendizagem e de adaptação cultural ao seu meio. Desse processo surgem as concepções próprias de vida; surgem as maneiras peculiares de análise, que quando exteriorizadas o fazem sob a forma de conhecimento filosófico. O conhecimento filosófico é a exteriorização do interior, e o conhecimento científico é a interiorização do exterior. Filosofar é exteriorizar o Eu, é a exposição, para todos os homens, do que se passa no inconsciente e nas cunas mais profundas do ser que se expressa.

Paralelamente ao desenvolvimento do conhecimento filosófico, participamos do desenvolvimento do conhecimento científico, ramo do saber que muito fez pelo homem e por seu bem-estar em nosso planeta, levou-o para fora dele, colocando-o em contato com mundos diferentes daquele que lhe serviu de berço. Baseado nestas conquistas, filósofos e cientistas tentam expor as diferentes bases das formas de pensar do homem. Esse é o sétimo som do acorde.

A recuperação de dados do passado somente é útil se pudermos fazer uso deles no presente; e, ao fazê-lo, estaremos reconstruindo o passado. Não o passado do homem, mas, sim, o passado que pensamos ser o do homem. Cada um que recupera dados o faz de maneiras diferentes, com interpretações diferentes. O passado não é fixo, ele é reconstruído por quem o olha. A razão para isso é que os dados têm de ser interpretados para serem usados, e isso é feito imerso no contexto do historiador que, sendo um homem, é a soma de seus passados.

O registro de dados quase nunca é fiel aos fatos. O sociólogo paulista Otávio Ianni (1926-2004) afirmava que quem narra o acontecido é o sobrevivente. É a melodia se desenhando.

O espaço e o tempo estão no âmago de todas as formas de conhecimento. É uma preocupação constante em todas as mentes, e é o tema ideal para levá-las a fazer as perguntas fundamentais sobre o Mundo à volta, podendo concluir que a existência tem um propósito e que o Universo faz sentido, o que irá contribuir sobremaneira para a construção individual de uma visão-de-mundo que seja montada com uma parte roubada à realidade e outra roubada aos sonhos.
É o fim dos acordes.


Sonata


A viagem no tempo deslumbra e assombra a humanidade há muito tempo (sem trocadilhos!). A ficção científica está, indelevelmente, ligada às viagens temporais. O século XIX foi um marco para essas histórias, era o início do conceito do uso da ciência para se viajar ao passado e ao futuro. Em 1888, H. G. Wells (1866-1946) escreveu sua famosa obra A máquina do tempo, em seguida surge Um ianque na corte do Rei Arthur, de Mark Twain (1835-1910), quando é introduzida a polêmica sobre as viagens no tempo. O personagem de Twain, Hank, interfere na ordem social da corte construindo um rudimentar telefone para os medievais, significando que o personagem modificou a História. Essa é a controvérsia do tema. É possível mudar a História?

Essa é uma pergunta intrinsecamente incapaz de ser respondida. Caso fosse possível modificar a História, uma vez modificada, seu novo caminho seguiria adiante, e ninguém teria a percepção das mudanças. As novas cadeias causais dariam origem a novas realidades cujos “habitantes” ignorariam que mudaram de realidade quando algo no passado fosse mudado.

Uma resposta negativa a essa pergunta serve, há décadas, como argumento para quem não crê na possibilidade de se viajar no tempo, pois um viajante poderia ir ao passado e, mesmo sem querer, matar seu avô, ainda menino, fazendo com que ele não possa nascer e, então, não possa fazer a viagem em questão. Esse paradoxo passou à História como o Paradoxo do avô.

A grande questão é nossa enorme dificuldade de apreender o tempo. Quando pensamos no tempo, surgem dúvidas às vezes aparentemente insolúveis, mas ele está lá, nos comandando, fluindo, e nós não sabemos nem se estamos imersos ou emersos nessa corrente.

Arquimedes (287 a.C.-212 a.C.) acompanhando seu antecessor Parmênides, (c.530 a.C.-460 a.C.) dizia que era necessário esconder o tempo, transformá-lo, reduzi-lo a alguma coisa, talvez à Geometria. Einstein fez isso 2.127 anos depois! Já Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), seguindo Heráclito (c.540 a.C.-c. 470 a.C.), achava que o tempo deveria ser encarado sem subterfúgios porque tinha a convicção de que o mundo era temporal por natureza e os eventos futuros seriam totalmente reais.


Primeiro andamento: um gato é avistado


Se viajássemos no tempo, encontraríamos a mesma realidade que havíamos estudado nos livros antes de nossa viagem, porque quando aquela realidade “aconteceu” lá estava o viajante, mesmo que ele não tivesse nascido. Se alguém do século XXX viajou para Roma e encontrou César, na época “correta” em que César viveu, ele encontrou um viajante que ainda não sonhava em nascer.

Existe outro problema que quase nunca é considerado. Imaginemos uma máquina do tempo que é regulada para viajar para o dia 31 de dezembro de 2006. O viajante liga a máquina e o que vê? O espaço!, pois no dia 31 de dezembro de 2006 a Terra não estava onde estava no dia em que o viajante acionou a máquina do tempo. A viagem no tempo sem a devida correção de espaço é morte certa!

A Mecânica Quântica traz intrigantes possibilidades. Uma famosa interpretação das equações da MQ conhecida como Interpretação de Copenhague, afirma:

O ato de observar provoca o “colapso da função de onda”, o que significa que, embora antes da medição o estado do sistema permitisse muitas possibilidades, apenas uma delas foi escolhida aleatoriamente pelo processo de medição, e a função de onda modifica-se instantaneamente para refletir essa escolha.

O significado de tudo isso, na prática, é que uma partícula existe em todos os seus estados possíveis simultaneamente! Quando o observador a observa, uma das possibilidades é “escolhida” e vemos um dado estado. Em uma outra situação, o mesmo observador ou um outro qualquer volta a observar a mesma partícula e ela “mostra” uma outra possibilidade, o que faz com que concluamos que o Mundo Quântico é irregular.

Chamamos de superposição coerente a coexistência do total dos estados possíveis de uma partícula, e o “total de estados possíveis em que uma partícula pode existir” é a sua Função de Onda. No momento em que o observador observa, a superposição “colapsa” e a partícula assume um dos estados de sua função de onda.

Na prática, isso significa que se uma dada equação possuir três soluções possíveis, somente uma ocorre, e a equação, com essa dada solução, é a equação colapsada. Essa interpretação provocou um levante entre físicos e filósofos, uma vez que a realidade seria criada por um processo de observação que não era físico. Einstein não a aceitava por nada e chegou a perguntar a Bohr, se ele achava mesmo que a Lua não estaria lá quando ele não estava olhando para ela!


Segundo andamento: atirei o pau no gato


Diante da total impossibilidade de realizar experimentos laboratoriais que pudessem comprovar, ou refutar, as interpretações da Mecânica Quântica, os cientistas propunham experimentos mentais. Um dos mais famosos foi proposto, em 1935, pelo físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961) e ficou conhecido como o Gato de Schrödinger.

O experimento consistia em colocar-se um gato dentro de uma caixa totalmente opaca. Dentro dela havia um punhado de material radioativo e um medidor de radiação. O instrumento estava montado para que quando detectasse o decaimento do material radioativo liberasse um martelo que quebraria um frasco contendo ácido cianídrico que, uma vez liberado, mataria o gato. A duração do experimento seria de uma hora, intervalo de tempo bastante razoável para que alguma coisa acontecesse dentro da caixa... ou não!

Durante o período da experiência, o estado do gato era desconhecido – não se sabia se o gato estava vivo ou morto; ele se encontrava em uma situação de vida e morte. Dentro da caixa, existem as duas possibilidades, mas não sabemos qual ocorrerá até que se abra a caixa. Pela interpretação de Copenhague, ao abrirmos a caixa uma delas se “realizaria” e veríamos um gato morto ou um gato vivo. É o papel do observador determinando a “realidade” do observado.

Por tudo isso foi que Niels Bohr (1885-1962) afirmou que “quem não ficar chocado com a teoria quântica é porque não a compreendeu”.

Uma conseqüência dessa interpretação é que conforme o tempo decorre, informações vão sendo transmitidas, e suas funções de onda vão sendo sobrepostas, a tal ponto que envolverá o Mundo até que ele esteja totalmente tomado por uma rede de funções de onda que se tornará a realidade quando o Mundo for observado. Mas quem observa os observadores?

Essa noção de reduzir a complexa rede de equações de onda em uma apenas – que seria a realidade – é muito difícil de ser aceita porque o Universo se contém a si mesmo. Nada lhe é exterior, e não podemos reduzi-lo a uma única equação de onda.

O físico teórico norte-americano John Wheeler (1911-2008) propôs que o dilema fosse resolvido por meio da consciência – nós –, utilizando uma causalidade que retrocedesse ao Big Bang. Os homens têm acesso, segundo Wheeler, a apenas uma porção do Cosmo, que seria composto por diversas e gigantescas nuvens de incerteza que ainda não entraram em contato com algum observador consciente. Wheeler admite que essa é uma idéia que expande a mente, mas nem mesmo é uma teoria, apenas uma intuição.

Cada ser senciente é um observador que é constituído de parâmetros, referenciais, desejos, prazeres e idiossincrasias que os torna únicos. Isso significa na prática que cada ser humano tem sua visão-de-Mundo. Na prática cada ser humano tem seu universo que é destruído juntamente com sua morte. Sempre que nasce alguém, surge um novo universo; e sempre que morre alguém, perde-se um universo. O Universo surgiu com o primeiro homem e desaparecerá com o último. Por que é assim? Simplesmente porque o Universo é um conceito, e não sabemos em que grau ele se justapõe à realidade.

Sobre isso o físico russo Andrei Linde (1948- ) escreveu:


Você pode perguntar se o Universo realmente existia antes de você começar a olhar para ele. É a mesma pergunta sobre o gato de Schrödinger. E minha resposta seria que o Universo parece como se existisse antes que eu começasse a olhar para ele. Quando você abre a caixa do gato após uma semana, você vai encontrar um gato vivo ou um pedaço fedorento de carne. Você pode dizer que o gato parece que esteve morto ou esteve vivo durante a semana toda. Da mesma maneira, quando olhamos para o Universo, o melhor que podemos dizer é que parece que ele estava ali há dez bilhões de anos.


O Universo e o observador existem como um par. Você pode dizer que o Universo está ali apenas quando existe um observador que possa dizer: Sim, eu vejo o Universo ali. Essas pequenas palavras – parece que ele estava ali – podem não ter muita importância na prática, mas para mim, como ser humano, não sei em que sentido eu poderia afirmar que o Universo esteja aqui na ausência de observadores. Estamos juntos, nós e o Universo. No momento em que você diz que o Universo existe sem quaisquer observadores, eu não consigo tirar sentido disso. Não posso imaginar uma teoria consistente de tudo que ignore a consciência. Um dispositivo de gravação não pode desempenhar o papel de um observador porque: quem lerá o que está escrito no dispositivo de gravação? Para que possamos ver que algo acontece, e dizermos uns aos outros que algo acontece, temos que ter um Universo, um dispositivo de gravação, e precisamos de nós. Não é o suficiente que a informação seja armazenada em algum lugar, completamente inacessível a qualquer pessoa. É necessário que alguém olhe para ela. Você precisa de um observador que olhe para o Universo. Na ausência de observadores, nosso Universo está morto.


Terceiro andamento: mas o gato não morreu!


Como alternativa a essas interpretações foi apresentada a definição do físico Hugh Everett III (1930-1982), em 1957, que ficou conhecida como dos “mundos múltiplos”. Para Everett todas as realidades possíveis ocorreriam em suas partes no “superespaço” e no “supertempo”. Ao realizarmos uma medição no nível quântico, estaríamos, então, “escolhendo” a possibilidade que chamamos de realidade. O ato de observar “quebra” as ligações entre as outras “realidades” e faz com que cada uma delas vá para seu lugar específico no “superespaço”. Deduzimos, então, que existe um observador para cada alternativa de realidade, portanto todas as alternativas ocorrem em algum lugar do “superespaço”.

Em termos coloquiais, o que Everett propôs foi a existência de inúmeros universos que apresentam diferentes estados físicos. É a possibilidade da existência de inúmeros universos, nos quais todas as probabilidades se concretizam. O conjunto de todos esses universos forma o conhecido Multiverso (Ver “Os Universos paralelos” nesse Blog).

 
Quarto andamento: trabalho de gato


A energia é a entidade fundamental da Física e é definida qualitativamente como a capacidade de se realizar trabalho, e para existir trabalho é necessária a presença de uma força que desloque um corpo. Por exemplo, um arqueiro exerce um trabalho para encurvar o arco, que transmite energia para a flecha que atravessa o ar.

A energia e suas “transformações” são estudadas pela parte da Física chamada Termodinâmica, que possui, como destaque, três leis. No nosso caso, a primeira é que é a fundamental: Princípio da Conservação da Energia, e afirma que “a energia do Universo é constante”, ou seja, “no decorrer de um processo qualquer, a energia pode se transformar, mas não pode ser criada nem destruída”.

Esse é o problema do gato. Como o Universo se duplicaria sem duplicar a quantidade de energia existente? Os universos paralelos teriam de violar a Primeira Lei da Termodinâmica para existirem.

Os universos paralelos – o Multiverso – poderiam existir, mas não de forma concreta, não em uma existência física.


O pulo do gato


Ao analisarmos o conceito de universos paralelos e, conseqüentemente, o de Multiverso, verificamos, facilmente, que essa entidade é uma coleção de tudo o que pode acontecer ao Mundo e aos homens. Todas as decisões – e indecisões – tomadas, ou não, aconteceram em algum mundo. Em algum universo esse texto nem existe!

Invocaremos, agora, conhecimentos “já sabidos” que têm contato com nosso tema.

Iniciaremos com Platão (427 a.C.-347 a.C.), o pensador da Grécia antiga. Para ele tudo que podemos tocar ou ver é efêmero, “flui”, como ele dizia. Um homem, uma casa, um cão, uma espada e todas as coisas que existem não duram para sempre, mas a idéia de homem, de cão, de espada é perene. A esse mundo de coisas efêmeras ele chamou de Mundo dos Sentidos. Nossos cães envelhecem, ficam doentes, morrem, mas a idéia de cão permanece.

Se observarmos uma coleção de soldadinhos de chumbo, os identificaremos como soldadinhos de chumbo, mesmo que faltem pernas ou cabeças de alguns, isso porque a idéia “soldadinho de chumbo” existe e temos acesso a ela. Por trás de uma mesa existe a idéia mesa, por trás de um cavalo existe a idéia cavalo, e assim por diante. A realidade autônoma que existe independentemente de nós e que contém todas as idéias, Platão chamou de Mundo das Idéias. O acesso ao Mundo dos Sentidos, aquele que “vivenciamos” é feito por meio dos sentidos, mas o acesso ao Mundo das Idéias somente pode ser feito por meio da razão.

Passemos para a época contemporânea, para ouvirmos Carl Jung (1875-1961), que propôs a existência do inconsciente coletivo, entidade que não deve sua existência a experiências pessoais. Os sentimentos e as idéias reprimidos, desenvolvidos durante a vida constituem o inconsciente pessoal. O inconsciente coletivo é herdado por toda a humanidade e é um conjunto de sentimentos, de pensamentos e de lembranças compartilhados. É, na realidade, um conjunto de imagens latentes, chamadas de arquétipos (imagens primordiais). Um indivíduo não se lembra das imagens de forma consciente, mas tende a reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Os arquétipos presentes no inconsciente coletivo são universais e idênticos para todos os indivíduos.

As visões aqui apresentadas lembram o conceito de Multiverso – a entidade que contém em si – e apesar dos indivíduos – todas as possibilidades de realidade. Nossa consciência vai “construindo” a realidade enquanto percorre o Mundo, mas ela não pode construir qualquer realidade, mas somente as que são compatíveis com as probabilidades físicas, com as idéias de Platão ou com os arquétipos de Jung!

Iliana Hernández Garcia, professora de estética na Universidade Javeriana, em Bogotá, Peru, afirmou que: A realidade não existe ou é, mas simplesmente emerge. A realidade não é nada além de um estado da possibilidade que surge sob determinadas condições.

O gato que pula somos nós. Onde pulamos? Cada um que responda a essa pergunta!


O avô do gato


As situações bizarras decorrentes dos universos paralelos não parecem muito comprometidas com os fatos, pois estes criariam situações de altíssima complexidade, como no caso, por exemplo, de uma guerra. Quantas decisões e ações diferentes ocorreriam, levando ao Multiverso, uma situação de enovelamento insolúvel.

Quanto ao fato de que se alguém pudesse viajar no tempo poderia modificar o presente, é uma presunção lógica, mas não deve ser usado como argumento contra a viagem temporal, porque não temos como descobrir se o que estamos vivendo já não é uma realidade modificada. Quando ocorre a mudança, os atores – nós – mudam e não ficamos sabendo que mudamos. Não há lembranças dos fatos que deixaram de ocorrer.

É agora que retornamos à discussão sobre o intrigante paradoxo do avô. Reunindo a idéia da viagem no tempo com a possibilidade de mudar a realidade, constatamos que existe uma chance de contornar o paradoxo sem que sejam envolvidos universos paralelos.

Imaginemos que um viajante volte no tempo e chegue a uma época na qual seu avô tem 14 anos. Lá ele mata um cidadão qualquer de 15 anos, por exemplo. O que acontece? O morto não terá filhos e seus descendentes “sumirão” da História. Isso pode? Pode! A História se modificaria no instante (ênfase no instante) seguinte ao da ação do assassino. Até o instante do tiro, a História permanece igual. Agora analisemos o assassino encontrando seu avô-garoto. Ele dispara e o mata. O assassino deixa de existir no instante imediatamente após a morte do avô, mas não antes do disparo! Veja bem, o disparo foi feito antes do avô morrer, portanto o assassino ainda existia. Tudo que decorreria da vida do avô deixa de acontecer, tudo que decorre do neto deixa de acontecer, mas os atos ocorridos antes da morte ocorrem, portanto o assassino do garoto jamais será encontrado, será mais um caso policial sem solução, mas existirá.



A Linha do Tempo 1 bifurca-se em T4, formando uma nova linha do tempo, a Linha do Tempo 2, que passa a ser a que nós vivemos; mas tudo que ocorreu antes de T4 continua sendo nosso passado, igual ao que era na Linha do Tempo 1.
Assim, o paradoxo do avô pode ser contornado e, portanto, não pode ser usado como argumento contra a viagem no tempo.
Essa argumentação não tem por finalidade justificar a existência das viagens temporais, mas apenas mostrar que não há, realmente, um paradoxo envolvido. Precisamos encontrar um argumento que seja realmente irrefutável para afastar essa hipótese.

Existem gatos?


O conceito de existir deve ser interpretado, apreendido e pacificado. Ter certeza de que algo existe talvez seja o mais poderoso de todos os exercícios mentais. As coisas existem em um dado contexto e não existem em outros. Por exemplo, no contexto dos números reais as raízes quadradas não existem; no contexto dos números inteiros, o número não existe. Deus não existe no contexto dos ateus, assim como Odin existe no contexto dos nórdicos. No contexto dos religiosos, os milagres existem; no contexto dos gregos antigos, centauros vagavam pelas pradarias; no contexto de Dom Quixote moinhos eram dragões; no contexto de Alexandre, o Grande, só existia ele; no contexto de Bentinho... bem, nesse não sabemos o que aconteceu!

É mister definirmos sobre o que estamos falando quando pensamos em existência. Não reagimos ao real, mas sim à forma como vemos o real. Não importa como sua mãe é, mas sim como você acha que sua mãe é (acho que Freud me ajudou nessa!). Talvez a única entidade que permeia todo e qualquer contexto seja o tempo que “é o mediador entre o possível e o real”.

Existem vários “reais”, existem vários mundos inteiramente reais onde as pessoas que os habitam lutam, matam, amam, sofrem, escrevem poemas, músicas e manifestos segregacionistas.

Tal o Multiverso, nossa vida é uma coletânea de mundos, talvez por isso mesmo a teoria “surgiu”, os universos paralelos (que são criados por nossas dúvidas e indecisões) parecem ser uma metáfora – o Multiverso é a grande metáfora de nós mesmos!

Precisamos, por isso, de proteção contra nossos monstros e fadas.

Partamos, pois, para construir tantos universos paralelos quanto for possível, porque alguns poderão servir para alguém... que ainda não chegou.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A última conquista

“Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutais pela Liberdade!”, clamava Charles Chaplin em O Grande Ditador. Essa exaltação encerra um inominável paradoxo – é preciso lutar para ser livre.
A liberdade é objeto de conquista.

É um Graal!

E deve ser assim, pois a liberdade não conquistada coteja-se a uma Constituição outorgada.

A luta está no homem que deve e tem que obter a liberdade almejada, para viabilizar a conquista da Paz. Paz sim, posto que são objetivos indissolúveis. A Paz e a Liberdade têm sido, para a Humanidade, a linha do horizonte. Como é longo o nosso existir! Como é longa nossa busca! Como é longa nossa espera!

Com a “quilha” da razão, abriremos caminho, avançaremos sabendo que o conceito absoluto de liberdade é destituído de respaldo na realidade física. O viver em sociedade nos impede de realizar conceitos absolutos. Não somos livres para morrer, assim como não somos livres para nascer. So-mos livres, sim, para odiar e para amar. Somos livres para fazer ou para sentir. Ser absolutamente livre, em seu sentido lato, é estar... morto! Enquanto habitarmos um mundo em que a cada dois segundos morre uma criança; enquanto habitarmos um planeta que gasta trilhões de dólares por ano em armamentos; enquanto não aprendermos a perder, estaremos apenas nos exercitando, ensaiando, para sermos livres.

A Segunda Guerra Mundial – assim como tantas outras – foi feita para acabar com todas as guerras. Em vez disso, convivemos, desde o seu término, com 150 outras guerras e com 20 milhões de mortos. Somos livres?

A realidade nos mostra que a paz não dá lucro! O capitalismo parece ser incompatível com a paz e o socialismo se mostrou incompatível com a liberdade.

Com o avanço da ciência, aprendemos que viemos do espaço. Fomos do ponto de vista da ma-téria, construídos dentro das estrelas. Em uma época já remota da criação, onde somente existia hidrogênio e hélio. As estrelas foram, lentamente, “cunhando” os outros átomos e “contaminando” a Galáxia com seus “restos mortais”. Viemos deles. Somos estrelas redivivas! Somos filhos dos céus. Reconhecer essa origem é, de certa forma, a liberdade suprema – que pode ultrapassar até mesmo a libertação da morte.

Ao identificarmo-nos como filhos das estrelas, tornamo-nos cidadãos do Cosmo. Os céus nos chamam. Precisamos retornar a casa. Retornemos às estrelas, mas o façamos em Paz. Retomar a casa é um ato de libertação. Retornar em Paz é um ato deificante. Que a última lágrima de dor este-ja rolando, por alguma face infantil. Que o último tiro de canhão seja um réquiem a toda uma era. A Idade das Trevas não terminou. Oxalá este último tiro seja ouvido, por todos nós, em breve... muito em breve...



Nós, os selenitas

Este ano de 2010 traz, em si, a marca de 41 anos da chegada do homem à Lua. Marca essa que nos permite pensar sobre toda a saga da espécie no planeta.

O homem deu seu mais majestoso passo em direção ao futuro – passeou na Lua. Foram passos seguros no andar, mas por detrás deles estava a respiração apreensiva de toda humanidade. É certo que os homens não foram mais os mesmos, após o histórico pouso da “Águia” em solo lunar, na-quele 20 de julho de 1969. Talvez seja somente superado pelo primeiro pouso humano em Marte, o legendário planeta vermelho que nos acena, inacessível, há séculos.

O espaço possui relações quase mágicas com os homens. Parece que sua infinitude, além de dilacerar o coração de Pascal, nos retrata a melancolia da eternidade e a brevidade de nosso existir.

Os astronautas retratam mitos, heróis modernos. Desafiando o desconhecido e o impalpável, são os novos “cowboys” que cavalgam o negro vazio do espaço numa tentativa, quem sabe quixotesca, de preenchê-lo com nossa presença; de trazer um saber que está pronto para ser “sabido”, ali, ao alcance não mais de nossas mãos, mas sim de nossas naves. Precisamos transcender-nos para adquirir, como nos ensinou Bertrand Russel, a liberdade do Universo.

Como será esta liberdade? Somos prisioneiros da gravidade e limitados pelos corpos. O primeiro passo é ter certeza de nossa prisão.

A imagem sempre recorrente dos primeiros homens andando na Lua surge mais uma vez. Fechamos os olhos e podemos ver as pegadas humanas ficando para trás a cada passo, lento e distante. Aquelas marcas são testemunhas perenes de que seres efêmeros puderam deixar seu “berço” e partir para o espaço, seres que, inalcançáveis, eram observados, de longe, por toda a humanidade. Foram, durante aquela expedição, os homens mais solitários da história. Suas lembranças ainda estão lá, na Lua, enquanto a Lua está aqui, em nossas lembranças.

Naquele 20 de julho, a Terra era um disco azul no céu de três homens; um dia, talvez ainda distante, a Terra será apenas um ponto, certamente um ponto azul, que estará perdido entre as estrelas. Os homens que pela primeira vez observarem nosso planeta desta forma terão uma certeza dentro de si, muito forte; a de que o homem está entrando para a comunidade do espaço, tornando-se cidadão do Cosmo.

Todas essas conquistas trazem direitos e deveres para nós. Ao conquistarmos um ambiente ainda não tocado por pés humanos, ficamos diante de um dilema ético de proporções planetárias. Até onde temos o direito de intervir no ecossistema de um outro mundo para torná-lo propício para nós? Será que, ao fazermos isso, não estaremos condenando à morte, em seu nascedouro, formas de vida que sequer podemos sonhar? Como nossos dejetos e microorganismos comportar-se-ão em um outro mundo? São perguntas que ainda não pudemos responder. Não há nem mesmo a certeza de que queremos respondê-las. Mas é imperioso que o façamos!

Existem sugestões no sentido de viabilizar o pouso e a permanência humana em Vênus, semeando certas bactérias em seus oceanos, para que com seu metabolismo, lentamente, as condições ambientais venusianas, hoje perniciosas aos homens, fossem mudadas para poder abrigar os futuros “colonos” humanos. Será, este, um projeto sustentável do ponto de vista ético? A dúvida mais forte é se temos o direito de “humanizar” o sistema solar. Alguns debates devem ser feitos até que todas essas questões estejam bem claras e toda uma ética de colonização espacial fique bem esclarecida. A preferência pelo planeta é da população nativa, em potência ou não, ou pelos seres inteligentes que lá cheguem? Lembro-me do Oeste Americano, dos Incas, dos Maias, dos nossos Índios...

Houve um tempo em que o primeiro amanhecer terrestre tomou seu lugar. Foi quando o ar tornou-se respirável e o solo cultivável. Foi aquele dia em que o palco ficou pronto, esperando pacientemente que os atores entrassem em cena. Até onde vai o nosso direito de intervir no teatro dos outros mundos? Estas imagens compõem uma ode à saga humana na conquista espacial e é, também, um réquiem nunca tocado à imensidão do Espaço que vai sendo diluída lentamente, enquanto. nos dirigimos a ele, enquanto nos integramos ao vazio. O caminho para as estrelas foi aberto. Partamos pois...em paz e em nome da humanidade.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Terras que vi, musas que não ouvi

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Manuel Bandeira



Vamos ver terras de nossa terra. Este é um chamado, um clamor que devemos ouvir com os ouvidos da alma, seja o que for uma alma...
Extrapolando o próprio conceito de terra, transformemo-la em Terra. Andemos por outras Terras, outros Mundos. O caminho está aberto, esperando por cavaleiros modernos, com as novas armaduras com elmos também reluzentes, que caminham no silêncio do espaço, sob o brilho de um Sol que não se põe, acompanhados da maior de todas as solidões, vivenciando o anátema – ou não – de encontrar-se consigo mesmo.

Lá vai o homem, tal qual um anjo moderno, girando e girando ao redor de nosso berço, olhando para ele de uma forma que poucos o fizeram. Agora, após aquele grito primevo, podemos saber e ter a certeza que ele é azul!

Nossa casa é azul... Nosso céu é azul... Abaixo de nosso domo azul, os homens não encontram a paz. Pena que a paz não seja azul...

Paradoxos permeiam as civilizações. “Como é linda a humanidade! Ò admirável mundo novo”, escreveu Shakespeare. Seria excesso de otimismo ou simplesmente esperança?

Se vencer milhões de homens em uma batalha é inútil, sendo a maior das vitórias vencer-se a si mesmo, conforme ensinou Buda, devemos lutar para vencermo-nos, pois, quando o conseguirmos, teremos vencido bilhões, e aí a inutilidade da batalha transmutar-se-á em vitó-ria. Na vitória de todos que estão abaixo de um céu azul, vivendo em um mundo azul.

À esperança – ou otimismo – do bardo somaremos ensinamentos esquecidos e chegare-mos lá. Onde? Nas terras de minha terra que vi...

Partamos, pois. Vamos em direção aos céus, acompanhados ou não, solitários se for pre-ciso, mas partamos! O silêncio espera para abraçar-nos e para ser abraçado. Que se vá o pequeno mensageiro e ancore, se puder, em algum porto do espaço.

Esta jornada aqui proposta deve ser feita em direção a nós mesmos. A alegoria do espaço é o espaço da mente, e, dentro dela, por ela, é que devemos – e podemos – viajar. O homem vem tentando executar essa viagem há milênios. Sentiu-se incapaz de fazê-la solitariamente e precisou criar entidades que o inspirassem a fazê-la.

Assim nasceram as Musas.

Companheiras abstratas dos homens, estavam sempre a dançar, nos sonhos dos justos, inspirando-os a seguir sempre em frente, ou para cima.

Os homens detêm características que são bastante peculiares, entre elas a de não confiar no que podem gerar, no que podem compreender e no que não podem.

Seres capazes de objetivar os contrários, os homens são levados a crer que tudo o que fa-zem tem causas fora deles mesmos. É aí que proliferam as Musas, oriundas da mitologia gre-ga.

Somente a certeza de que não somos criaturas nos levaria a confiar em nós mesmos. Mas aí não seria tão belo. Não teríamos a visão de Apolo dançando, na floresta, cercado de nove belas Musas.

Hoje sabemos que podemos pensar e nos inspirar sem que uma Musa entre em nossos so-nhos para agir diretamente em nosso espírito. O que faltou aos gregos foi criar uma décima Musa, aquela que teria de ser a mais poderosa e laboriosa: a Musa da Paz.

Que inspiração seria para os homens!

Não será exatamente por isso que ela foi “impedida” de nascer?

Mas como o que “ficou marcado foram terras que inventei”..., permitam que eu invente uma Terra na qual Ela existe. E, com certeza, será... azul.



quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Saúde e Educação...

Merleau-Ponty, filósofo francês nascido no século XIX, afirmava que a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Estamos vivendo o momento de habitá-las! A forma de fazermos isso é unindo-a à sociedade; afinal é ela que dá suporte à ciência e que “suporta” a ciência. Muitas vezes, as “coisas manipuladas” somos nós. Não devemos nem podemos nos recusar a habitá-las.

As ciências da saúde carregam, em si, a enorme dificuldade de estar sempre agindo de modo a amenizar a existência humana. Não que existir seja um anátema. Ele – o anátema – é não ter qualidade de vida, é viver mal. É um degrau a mais que é somado aos objetivos da ciência.

Fazer ciência é ter dúvidas, é experimentar o êxtase de procurar, entronizar Dioniso. Mas fazer ciência na área de saúde requer um pouco mais do que isso. Requer olhos que estejam prontos para ver o que mui-tos não conseguem. O profissional de saúde necessita ver o que a maioria não pode: dentro do coração de cada um.

Um piloto francês morto há muito tempo – durante a Segunda Guerra – já sabia que “o essencial é in-visível aos olhos”. E, enxergar esse “essencial” é que é esperado do profissional de saúde. Ao lidar com seres humanos com uma relação ímpar de dependência e confiança, o profissional de saúde deve ter em conta um número muito grande de variáveis, maior do que os profissionais de outras áreas.

Para alcançar a meta de enxergar mais do que a Física e a Fisiologia permitem só existe uma forma: treinamento e estudo. O lidar com os pacientes no dia-a-dia dos tempos escolares não se mostra suficiente para alcançar essa habilidade. Somamos a isso o fato de que o aumento do conhecimento é constante e inexorável. Nos tempos da alta especialização, o profissional de saúde tem que ter a mente aberta para o fato de que deve se especializar, mas em seres humanos.

É uma Saga. Mas deve ser um réquiem nunca tocado.

Educar é um processo complexo e polêmico. Os parâmetros envolvidos são fortes o suficiente para se-rem perigosos se mal utilizados. Educar é desmontar o existente para construir o vir-a-ser. O papel do educador, e da Academia, é de enorme responsabilidade que, muitas vezes, é relegado à não-compreensão. As posturas dos mestres e dos discípulos devem ser “coordenadas” para que o processo de aprendizagem seja completado por movimentos nas duas direções. A máxima aristotélica de que a dúvida é o início da sabedoria não deveria abandonar as mentes daqueles que temem ter dúvidas como daqueles que pensam não tê-las.

Uma vez formado, já com o “fardo” do diploma em sua parede – e em sua consciência – as responsa-bilidades mudam drasticamente. Já não se é mais um estudante que “pode” errar. Agora é um profissional que deve procurar não errar.

Em O velho e o mar, Hemingway, inicia dizendo: “há três meses Santiago não trazia nenhum peixe do mar”. A expectativa é de que haja peixes no mar, da mesma forma que esperamos encontrar Saber nas escolas. Devemos agir para que nunca falte peixe para que nossos “Santiagos” nunca se ressintam e para que os jovens tenham futuro...

Há muito tempo, Hipócrates já sabia de tudo isso:

“Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os Deu-ses e todas as Deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue.”

Que seja observado que o preâmbulo do juramento do médico diz que a promessa deve ser cumprida “segundo meu poder e minha razão”. O poder, é dado pela ciência – é o conhecimento. A razão nada mais é do que o essencial, aquele que é invisível aos olhos.

Nós e a vida

Uma voz, vinda de um passado já remoto, nos conta que um dia os homens e mulheres formavam um único ser – a Terra era habitada por seres hermafroditas. Um dia, Zeus – deus todo poderoso e masculino – separou aquele ser integrado em duas partes desiguais; o Homem e a Mulher. Desde então não houve mais uma satisfação completa e cada uma das partes saiu em busca do que lhe faltava.
Segundo Platão, portador deste mito, o amor nada mais é do que a nostalgia, sentida por aquelas partes, da época em que eram um único ser.

Esse mito motiva a busca daquela integração. Somando-se à busca da companhia que reintegra, buscamos também outros tipos de realizações, entre elas a de podermos nos integrar perfeitamente ao mundo que habitamos. É esta busca que serve de motivação para a própria vida. Tal um mecanismo de retroalimentação, a vida pode encontrar, nela própria, os motivos para existir.

Gerada ao acaso ou não, o que mais importa é que se tornou um meio travestido teleologicamente de objetivo. É um paradoxo que se manifesta na vida porque é vida. Não há compromissos com o concreto, com o consciente e nem mesmo com qualquer... compromisso.

É paradoxal, mas somos seres vivos que não sabemos o que seja a vida, ou, então, temos tantas versões sobre ela que não somos capazes de construir uma idéia clara sobre este fenômeno. A certeza que temos é a de que você, leitor, e eu compartilhamos a vida e nos comunicamos.

São muitas as dúvidas e certezas. Mas temos tempo. Somos parte da Vida que hoje se esforça por encontrar aquele tempo onde era apenas futuro, somos a vida que procura entender por que está aqui, pisando este solo, voando este ar, nadando esta água.

Buscamos as respostas para estas perguntas com a força encontrada na saudade; saudade de um futuro ainda a ser vivido. Não importa se buscamos as respostas por meio da Ciência ou da Filosofia. O objetivo é o mesmo: responder perguntas sem respostas.

Do alto do Olimpo os deuses observam sua criação, observam os titãs que criaram. que ainda não são homens, mas um dia serão. Serão os adultos vindos daqueles seres – incompletos – que ajudaram a criar. Serão adultos cheios de crianças dentro de si. Crianças sem nenhuma pressa de crescer.

Quando pudermos ter certeza de nossa prisão, quando pudermos novamente olhar dentro dos olhos dos deuses do Olimpo, eles nos verão de uma outra forma, não mais como titãs mas como deuses seus irmãos.

O reencontro com a parte que nos falta é a fonte do grande poder dos homens. Quando as partes se juntam, a forma divina se refaz, a nostalgia é a aplacada, e aí, somente neste momento, retomamos a nossa condição divina e podemos criar...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um pouco de Ética


Gilberto Freyre – o sociólogo – escreveu uma vez que o que se contrapõe à morte não é a vi-da, mas sim o amor: quem não ama não está vivo. Por analogia estrutural, concluo que o que se contrapõe aos instintos primevos dos homens é a ética. A ética é a grande controladora do id, seria o “braço” ideológico – ou teórico – do superego. Como tal, possui um forte componente cultural. A busca de uma “ética universal”, aquela que teria valor em qualquer sociedade, está deixando de ser uma utopia com o surgimento e o desenvolvimento da bioética. Esta seria uma manifestação universal, pois que “vale” para qualquer ser vivo.

No meu entendimento, a bioética não trata apenas das relações entre os homens: trata, antes de tudo, das relações dos homens com o conjunto de seres vivos com o qual dividimos o planeta. O primeiro dogma a cair deve ser o de que somos a “obra-prima” da Criação. Somos apenas a que tem mais responsabilidade. Pensamos, daí a responsabilidade de respeitar – e não de tutelar – as diversas formas de vida.

Ter a consciência de que devemos concordar com o pequeno papel que os seres humanos de-sempenham no Mundo é ser irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra. Não é possível falarmos – ou melhor, pensarmos – em ética sem passar, mesmo que ao largo, pelo discurso reli-gioso. A dor é a moeda corrente dos discursos religiosos. Quem conhece alguém que foi canoni-zado por ter sido feliz? Quando a dor é transmutada em prazer, a faz virtude! É, então, necessário sofrer para ser virtuoso. É a forma perversa de evoluir. Sofremos nessa vida para sermos felizes em outros mundos, mundos esses que nos são mostrados como metas a serem alcançadas – são todos Valhallas.

Para sermos “éticos”, é necessário dizer que alguns filósofos também criaram seus mundos, sempre melhores que o nosso. Segundo Nietzsche, todos o fizeram. Qual será o papel – sublimi-nar – desses mundos, “criados à imagem e semelhança” de nossas – ou das deles – intenções?
Manipular!
 
A história da filosofia é um rancor secreto contra os pres-supostos da vida, contra os sentimentos de valor da vida, con-tra o tomar partido a favor da vida. Os filósofos nunca vacila-ram em afirmar um mundo, desde que ele contradissesse este mundo aqui, desde que lhes desse a oportunidade de falar mal deste mundo aqui. Essa foi até agora a grande escola da calú-nia; e ela impressionou tanto que até hoje a ciência, que se apresenta como porta-voz da vida, aceitou as posições básicas de tal calúnia, degradando este mundo aqui como aparente, esta cadeia causal como meramente fenomenal (Friedrich Nietzsche, Fragmentos finais, Editora Universidade de Brasília, 2001).
É a transmutação final! Um mundo melhor que o Mundo é prometido para que os habitantes deste almejem tornar-se habitantes daquele. Assim, o pouco oferecido aqui é “lido” como muito para pavimentar o caminho em direção ao outro.

Alguns filósofos e religiosos são as novas Valquírias oferecendo seu hidromel a nós, mortos em combate, para que revivamos sem nenhum ferimento remanescente. Todas as relações inter-pessoais e intersociais estão permeadas de promessas nunca cumpridas. É tal qual o horizonte: vemo-lo, mas não o alcançamos. Aqueles que o alcançam ainda não retornaram, de forma convincente, para contar como é.

Romain Rolland ensinou que “a alegria e a dor são irmãs e ambas são santas. Elas são a vida, elas são Deus. E quem já pôde prová-las conhece o preço da vida e a doçura de deixá-la”. Analisemos um transplante de órgão: a dor de quem perde é irmã da alegria de quem recebe? O processo é “santo” ou apenas lógico?

Há muitos anos, li uma redação de um garoto de 8 anos na qual ele defendia a idéia de que “a melancolia é prima da tristeza, quase irmã”. Qual teria sido sua história de vida?

Onde residem os problemas que envolvem os transplantes? Certamente não estão no ato em si, mas na forma de obtenção da “matéria-prima”. O homem é a única espécie que desenvolveu a ciência, por ser a única – infelizmente – senciente a povoar o planeta. Aprendemos a tomar re-médios, a fazer abortos, a usar próteses, a construir armas, a fazer cirurgias de peito aberto, a construir a Bomba, a irradiar tumores, a clonar, a fazer transplantes de órgãos e a conhecer nosso genoma. Os problemas residem no conhecimento? Certamente que não. Os problemas residem na utilização do conhecimento. Saber quebrar o átomo não é bom nem ruim. O juízo de valor deve ser feito com a aplicação do conhecimento ou com os meios adotados para chegar à sua utilização.

Brecht colocou na boca de Galileu que “a única finalidade da ciência é a de diminuir a can-seira da miséria humana”. Se à ciência fosse unida uma ética de utilização do conhecimento adquirido, a “miséria humana” seria minimizada em sua essência, e os “Valhallas” seriam menos importantes. O “mundo aqui”, de Nietzsche, ficaria mais palatável a seus habitantes. Passaríamos a necessitar menos do hidromel “valquírico”.

O misticismo, quem sabe, perderia terreno para o mito. Experimentaríamos uma exegese junguiana. Testemunharíamos uma “virada do avesso” do homem. Quem sabe se o lado de dentro seja melhor...

A conformação de Bacon com a impossibilidade humana de não comandar a natureza parece-me estar perdendo terreno para os fatos. A ciência e as artes modificam a Natureza sim. O ato científico interferiu definitivamente na seleção darwinista, pelo menos no que se refere aos ho-mens. A seleção natural não corre com seus próprios pés, impedida pelas ciências da saúde. Curamos o antes incurável e reproduzimos o antes estéril. Faz-se necessário um repensar de nossas ações. Não que elas sejam erradas em si, mas devem ser realizadas com consciência do que es-tamos fazendo. Devemos livrar-nos, antes de tudo, da hipocrisia.

Muitas vezes o comportamento “ético” dos homens, se dissecado e analisado, leva-nos a pa-radoxos insustentáveis. A pesquisa espacial é um exemplo lapidar. As espaçonaves que pousam em outros mundos são esterilizadas. Existem acordos internacionais que não permitem que sejam deixados nesses mundos visitados nada que não seja absolutamente impossível de ser trazido de volta a Terra. Não contaminamos a Lua nem Marte mas não temos pudor com nossas matas, rios e oceanos! Será que a ciência (ou quem sabe os cientistas) está cumprindo o anátema galileano de diminuir a miséria de nossa existência?

O homem, por não possuir defesas contra as formidáveis epidemias psíquicas muito mais devastadoras do que qualquer catástrofe natural, conforme constatou Jung, precisa evoluir etica-mente para poder ambicionar “aprender a transcender a si próprio e, ao fazê-lo, adquirir a liberdade do Universo”, conforme afirmou Bertrand Russell. Somos uma parte; portanto, somos o Todo. O Universo se ressentiria de nossa ausência. Ora... sabemos por quem os sinos dobram.

O eterno silêncio do espaço infinito dilacerava Pascal. A mim, não! Faz sentir-me vivo! O meu barulho e minha finitude opõem-se ao silêncio e à infinitude, permitindo minha própria existência. Somos os Criadores. Assim como os marcianos, seremos nós.

Nietzsche criticou Darwin por defender a seleção dos mais fortes. Mas não foi bem isso o que Darwin defendeu em suas hipóteses. O darwinismo defende a seleção dos mais aptos. Nem sempre os mais fortes são os mais aptos. A extinção dos dinossauros prova o afirmado: uma mudança no ambiente mostrou que os grandes e fortes eram vulneráveis. Nas revoluções, as burguesias “fortes” e “aptas” sucumbem às mudanças do “meio ambiente.

Mais uma vez estamos diante da idiossincrasia do homem anteposto à vida. Uma espécie organizada (ou desorganizada) em sociedades, povos, tribos ou nações é levada a ficar exposta a uma grande diversidade de variáveis que fatalmente cria uma complexidade, cuja total compre-ensão (se é que é possível uma total compreensão) foge a nosso objetivo nesse momento. O fato é, que dentro dos processos criados pelos homens, o que nos fala diretamente é o comércio. Sempre é necessária a existência de três “personagens” para concretizar o procedimento: o ven-dedor, o comprador e o “vendido”.

O procedimento é extremamente normal e aceitável até certo ponto. Podemos vender obje-tos, colegas, idéias, vida: ora! “não se matam cavalos?” O que não podemos vender é o Homo sapiens. O primeiro problema vivenciado pela humanidade, nesse terreno, foi o da servidão. O segundo foi o da escravidão. O terceiro, e mais moderno, é o dos transplantes de órgãos. O mais surpreendente de todos esses processos abjetos é que constitui um forte tabu para todas as socie-dades humanas ao longo da história!

A solução encontrada é, talvez, mais perversa do que a transformação de homens em merca-doria. Somente são negociadas as pessoas que pertençam a grupos que não os dos vendedores. Isso “vale” até mesmo para os canibais. A mente humana é extremamente fértil, principalmente quando precisa justificar o injustificável.

Comecemos pelos canibais. Quem tinha o direito de devorar seres humanos? Certamente os vencedores. Os vencidos eram de outras tribos, portanto não eram do mesmo grupo, portanto eram inferiores, visto que não eram “escolhidos” pelos deuses como “povo eleito”. Para que servem seres inferiores? Para serem escravos ou alimento. Algumas tribos brasileiras devoravam os guerreiros adversários, mortos em combate, para adquirirem sua bravura e tornarem-se mais fortes, mais diferentes. Seus companheiros que morriam eram enterrados! Tudo perfeitamente “legal” e justificado, uma vez que “quem narra o acontecido é o sobrevivente e quem sabe o que acontece organiza o acontecido”, idéias de Otavio Ianni.

Este raciocínio pode ser perfeitamente comparado à escravidão. Vendemos sempre o Outro. Algumas vezes foi necessário recorrer à autoridade estabelecida para obter a “ajuda” necessária para fazer do Outro um pouco mais Outro... Os índios, os negros e as mulheres já foram conside-rados seres “sem alma” por meio de uma bula papal! Que forma brilhante de se desconstruir o Outro! A partir daí, os índios e os negros poderiam ser negociados sem culpa, e as mulheres po-deriam ser diminuídas, humilhadas e levadas às condições mais abjetas de servidão. E o pior: com o aval Dele...

Outro paralelo que pode ser feito é com as guerras. Nelas, a liberdade de matar é determina-da por um retângulo de pano colorido e por traços de tinta preta desenhadas em um mapa, igno-rado pelo planeta. Até a tortura torna-se justificável, uma vez que aquele que “organiza o acontecido” precisa obter informações!

Ortega y Gasset afirmou que quando um indivíduo teme ver-se face a face com uma realidade terrível procura ocultá-la com uma cortina de fantasia, onde tudo fica claro. Não se preocupa se suas “idéias” não são verdadeiras, pois tornam-se trincheiras para a defesa de sua existência, como espantalhos afugentando a realidade. Isso é “humano, demasiado humano”...

Nos tempos modernos, o canibalismo e a escravidão convergiram para a servidão em sua forma mais reles. O servil é o pobre. Ele é o novo não-Outro. É, nas sociedades contemporâneas, o grupo sem alma. E, com a globalização, os pobres formam um grupo sem fronteiras: todos os pobres do mundo são uma “coisa” só – um “banco” de trabalho e de órgãos. Seqüestrar, matar, humilhar, retirar órgãos ou comprá-los. Tudo é justificável e permitido. Afinal, qual seria a utili-dade dos pobres?

Jonathan Swift, o autor de As viagens de Guliver, apresentou uma irônica proposta sobre o que fazer com os pobres – servir de alimento para os abastados. Se o escritor irlandês fosse contemporâneo, certamente sua “proposta” seria no sentido de que a finalidade dos pobres seria a de prolongar a vida dos ricos.

A permanência de um indivíduo no conjunto, finito, dos vivos não deveria depender da conta bancária. Essa miséria humana não pode ser minimizada pela ciência, por mais que Galileu o desejasse.

Sobre a infinitude e a eternidade do Universo

Giordano Bruno nasceu em uma pequenina cidade às margens do Vesúvio chamada Nola, em 1548, em um dia já perdido na memória dos homens. Seu temperamento forte – quem sabe vindo de sua natureza “vulcânica” – levou-o a abandonar o hábito dominicano em 1576, após 13 anos de monastério.



Uma das principais preocupações do pensamento de Bruno era a infinitude, que trazia, a re-boque, a eternidade. Suas perguntas sobre a natureza do Universo perseguiram-no por toda a vida e acarretaram seu fim.

Para Bruno, um Universo finito não tem lugar na existência. “Se o mundo é finito e fora do Mundo está o nada, pergunto: onde se encontra o Mundo?” O conceito atual do nada – ausência de matéria, de espaço e de tempo – era bastante fugidio para o pensamento do século XVI. Lidar com a ausência de matéria ainda poderia fazer algum sentido naquela época, agora imaginar a ausência de tempo e de espaço era ousadia demais para ocorrer a mentes renascentistas.



A questão da infinitude e a da eternidade são extremamente complexas e não têm lugar na Cosmologia atual. Ao infinito, relegamos nossos medos, à eternidade, nossas frustrações.



Existe uma ordem de insetos chamada Ephemeroptera que é bastante curiosa. As ninfas des-ses insetos passam até três anos nas lagoas e, ao atingirem a forma adulta, ganham asas, voam e morrem. Tudo isso em apenas um ou dois dias! Se imaginarmos um inseto senciente, teríamos de concordar com a hipótese de que ele atribuiria à floresta a categoria de eterna e infinita, pois ela “sempre” existiu e é grande demais para ser percorrida em um dia. É como chegar a uma festa já começada e deixá-la antes de acabar. Os homens também são incapazes de perceber a mutabili-dade do céu, mas a humanidade pôde testemunhar as modificações sofridas pelo céu estrelado durante os 6.000 anos de civilização!



Se Bruno estava certo ou errado sobre as questões da infinitude ou da eternidade é irrelevan-te para nós. O verdadeiramente importante é que ele pensou sobre o Universo e pagou com sua vida esta ousadia. “A mente humana apreende a conceituação de infinito, diante da impotência de perpetuar a multiplicação de uma unidade qualquer de comprimento para, então, compará-la com o espaço. De modo que, seja onde for que a mente se situe, pode, com base nesta idéia uni-forme de espaço, mover-se sem deparar com nenhum obstáculo ou com um fim, concluindo, necessariamente, que, por sua própria natureza, o espaço é realmente infinito”, segundo os ensi-namentos de John Locke.



Vemos, assim, que, em primeira aproximação, atribuímos a categoria de infinito ao espaço pelo mesmo motivo que nosso inseto senciente a atribui à floresta: por uma deficiência do obser-vador! Concluímos que a noção de infinito jamais será empírica, pois é, muito mais, metafísica.



É importante notar que as fortes convicções religiosas que levaram Bruno a “optar” por clas-sificar o Universo como infinito levaram Kepler a rejeitá-la. A convicção de Kepler de que deus havia criado o Universo levou-o a acreditar que o Mundo teria de possuir os atributos de Ordem e Harmonia, portanto teria forma, atributo este incompatível com a infinitude.



Esta visão de Mundo levou Bruno a incompatibilizar-se com o Vaticano. A noção de um es-paço infinito choca-se com a concepção aristotélica que imaginava um espaço fechado e, tam-bém, com forma, decidida por deus; portanto, segundo Bruno, Aristóteles estava errado! Houve uma incompreensão, por parte de Bruno, do conceito aristotélico. E o erro repousava no fato de que o continuun de “lugares”, de Aristóteles, foi entendido por Giordano como sendo um espaço geométrico. O Mundo aristotélico tinha um limite, um fim. E Bruno questionava o que poderia acontecer se alguém atravessasse este fim com uma de suas mãos. Bruno conclui que a mão sim-plesmente deixaria de existir por não ocupar nenhum lugar no espaço!



Vejamos, havendo espaço fora de nosso mundo, ele seria idêntico ao espaço dentro de nosso mundo, e a rigor seria um só. Portanto, deus não poderia tratar o espaço de dentro de uma forma diferente do espaço de fora. Portanto, somos levados a concluir que estar no espaço é um atribu-to geral e, se em nosso “pedaço” do espaço existe o nosso mundo, então deve haver outros mun-dos no Universo. Essa conclusão foi fatal, literalmente, para Bruno.



Uma vez que o espaço é uniforme – sua infinitude garante este atributo – e deus criou o nos-so mundo, teria de criar outros, uma vez que a limitação da ação criativa de deus é inimaginável. Nesse caso a possibilidade implica realidade: o mundo infinito pode existir, portanto deve existir, portanto existe.



A afirmação de Bruno de que “há inúmeros sóis, e um número infinito de terras giram em torno destes sóis, da mesma forma que as sete que podemos observar [Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte, Saturno e Júpiter] giram em torno deste Sol que está próximo de nós” levou-o a ser preso por heresia e condenado à morte na fogueira por não ter abjurado de suas convicções.



A idéia de que as estrelas são sóis que possuem planetas girando à sua volta era heresia pura aos olhos do Vaticano, que não poderia permitir que os homens perdessem sua condição quase divina de ter sido criado à imagem e semelhança de deus e de serem fruto supremo do ato da criação. Os homens não poderiam ter “concorrentes” em outros planetas.



Essas concepções implicavam um confronto da infinitude do Mundo com a infinitude de deus. Bruno responde a isto, dizendo que não nega a diferença intrínseca da infinitude intensiva e perfeitamente simples de deus da infinitude extensiva e múltipla do Mundo. Comparado com deus, o Mundo era um nada, apenas um ponto. É esta “nulidade” do mundo e de todos os corpos que o compõem que implica a sua infinitude. Com isso podemos concluir a “perigosa conclusão” de que deus teria criado inumeráveis terras girando ao redor de inumeráveis sóis, com inumerá-veis indivíduos.



Não importava se essas concepções estavam corretas ou não. O risco que elas representavam é que, verdadeiramente, contava. A Inquisição não poderia correr o risco de que idéias “hereges” e revolucionárias se espalhassem pela população. Era muito importante para o poder da Igreja que os homens continuassem a achar que éramos a criação suprema e que todo o Universo teria sido feito para o regozijo humano.



Bruno foi levado a Roma, onde ficou preso por sete anos, até que, sem abjurar de suas con-vicções, foi levado à fogueira no dia 17 de fevereiro de 1600. Era o último ano do século XVI, o primeiro ano secular bissexto após a reforma do calendário. Hoje, 410 anos após a morte de Bru-no, ainda estamos às voltas com a confirmação da existência de vida em outros mundos. A certe-za de Bruno ainda não é a nossa certeza, mas sabemos duas coisas – temos duas certezas: exis-tem outros mundos, e as fogueiras ainda não foram todas apagadas...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A informação

O rei inglês George III escrevia, religiosamente, um diário todas as noites ao deitar-se. No dia 4 de julho de 1776 ele escreveu: “hoje não aconteceu nada de especial”.

Enquanto o rei dormia tranqüilo, em Londres, os americanos tornavam-se independentes, do outro lado do oceano. A causa da anotação equivocada era a falta de informação. A pequena velocidade com que a informação era transmitida no século XVIII é flagrantemente contraposta com a velocidade nos dias atuais.

A história registra as tentativas feitas pelos governos em melhorar e tornar mais rápido o processo de difundir informação. O Império Romano tinha um eficiente e rápido, para a época, sistema de transmissão de informação por meio de uma rede de “carteiros” transportados por rápidos cavalos e postos de troca em locais estratégicos. Até que o império tornou-se grande demais e as invasões nas fronteiras mais distantes passaram a ficar “desconhecidas” por Roma. O fim aproximou-se.

Alexandre, o Grande também tinha suas preocupações com a transmissão de informações, e manteve uma rede de “correio” a cavalo para manter-se informado do que ocorria em sua capital durante suas demoradas campanhas de conquista.

Nos dias atuais a informação, sob todos seus aspectos – políticas, civis e científicas – precisa ser transmitida em enorme velocidade. Não é só a rapidez da transmissão que conta mas também (e talvez mais importante ainda) a forma de que dispomos para recuperar uma informação.

Não é suficiente termos um dado armazenado faz mister que saibamos como acessá-lo e, muito importante, poder “filtrar” as informações para não sucumbirmos à “explosão de informação” que vem ocorrendo desde a segunda metade do século XIX.

Até meados do século XIX o conhecimento crescia de forma linear, com o desenvolvimento da ciência e, principalmente, do método científico, o conhecimento passou a crescer de forma exponencial, gerando um volume enorme de informação que deve ser filtrado com filtro qualitativos e quantitativos.

Faraday, ainda em 1826 reclamava que “era impossível para uma pessoa ansiosa por devotar uma parte de seu tempo a experiências químicas ler todos os livros e artigos que se publicam acerca de seu mister ...”. O que podemos dizer hoje em dia?

Bacon, nos idos do século XVII, afirmava que “a verdade de ser e a verdade de saber são uma só”. Daí, verifica-se que o conhecimento deve ser buscado pelo simples fato de ser possível buscá-lo e para que possa ser aplicado. Bacon também sabia que o conhecimento está inequivocamente ligado à sua comunicação. E essa comunicação não deve ser vista como sendo devida somente aos contemporâneos mas, também, às gerações futuras. “As imagens do espírito e do conhecimento do homem conservam-se nos livros, isentos aos danos do tempo e capazes de perpétua renovação”, continua Bacon.

É certo que uma escola exerce o papel de preencher lacunas que os livros deixam por inerência – a rapidez da comunicação. Soma-se à rapidez, a produção de um fórum onde as novas hipóteses são colocadas à arena freqüentada pelos pares do autor. Aos livros chegam as sobreviventes. Esta é a vocação das escolas, promover a sedimentação das idéias.

Não é possível saber quando, na história, a pesquisa iniciou. O que está claro é que os gregos contribuíram de forma substantiva para o que conhecemos como discussão “acadêmica”. À academia podemos atribuir o início da “comunicação filosófica”, então intrinsecamente unida ao que hoje é a Física e a Biologia.

A ausência da prensa foi a responsável pela dificuldade de comunicar o saber já sabido. Como exemplo, a estatística de publicações de livros no período de 1436-1536 mostra cerca de 420 títulos e no período de 1536-1636 – também cem anos – mostra cerca de 5.750 títulos.

Certamente, sabemos, que não eram todos ligados à ciência mas o papel do livro estava definitivamente escrito. O ano de 1543 testemunhou duas grandes obras, frutos do pensar humano: o De Revolutionibus orbium coelestium, de Copérnico, marco da Astronomia moderna e o De humani corporis fabrica, de Vesálio, considerada a primeira obra moderna sobre Anatomia Humana, inovando por conter ilustrações minuciosas.

O “buscar” do homem nunca parou. O “comunicar o buscado” nunca deverá parar. O Mundo mostra-se para quem quiser vê-lo, este é o anátema do cientista.

Há mais de cinqüenta anos Albert Einstein extasiava-se com a constatação de que o Mundo existe independente de nós, e que sua permanência à nossa frente fazia-se na forma de um grande e eterno enigma. Dizia: “a contemplação deste Mundo me atrai como uma libertação.”

O papel de uma escola é participar, de forma ativa, nesse processo de libertação. É um veículo que depende – como qualquer veículo – dos usuários: alunos e professores.

Forma-se uma cadeia causal, cartesiana, na história de uma escola. No momento em que uma escola é criada é porque existem alunos, a cadeia é invertida e os alunos passam à existência porque existe a escola. Essa inversão contínua – e possivelmente perene – do curso da cadeia faz-se decisiva na razão de continuar.

A escola está aqui, à espera de todos!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Os marcianos somos nós

Marte, por sua coloração avermelhada, sempre atraiu a atenção humana para si e carrega a trágica honra de ter o nome romano do deus grego da guerra.

De todos os planetas do Sistema Solar, Marte é o mais “aprazível” para os humanos, e, no entanto, sempre foi injustiçado com as invasões de seus habitantes, surpreendentemente verdes!
Os antigos gregos deram os nomes aos planetas que conheciam e nós os utilizamos até hoje. Até mesmo a palavra planeta tem origem grega e significa “viajante”, isso porque os planetas deslocam-se e as estrelas parecem fixas, para um observador terrestre.
Vênus, que recebeu o nome da deusa do amor, é, na verdade, o verdadeiro inferno do Sistema Solar. Sua temperatura de 400 oC é suficiente para derreter o chumbo! A chuva que cai naquele planeta é de... ácido sulfúrico. Seu enorme brilho e beleza levaram ao planeta o amor e a Marte – local mais hospitaleiro do sistema – o sangue derramado pelo deus da guerra.
Seus dois satélites, Phobos e Deimos, têm os nomes dos filhos de Marte: Medo e Terror.
A cor avermelhada de Marte é uma conseqüência curiosa da origem do próprio planeta. Durante sua formação o ferro existente em Marte não ficou em seu núcleo, como aconteceu com a Terra. Em contato com uma possível água ancestral e com o oxigênio de sua atmosfera, o ferro formou óxido de ferro.
Marte é o único planeta conhecido que é enferrujado!
Nossa busca por vida no espaço vem de longa data. Há muito buscamos companhia no sistema solar ou em outras estrelas. Será que o homem está sozinho no Universo?
Nossa galáxia, a Via Lactea, possui cerca de 200 bilhões de estrelas. Sabemos que existem cerca de 200 bilhões de galáxias no Universo. Uma conta bastante simples informa que o Homem reconhece a existência de 40 quatrilhões de estrelas no Universo. Se apenas 10% delas tiverem planetas parecidos com as condições terrestres, para abrigar formas de vida com biologia semelhante à terrestre, teremos 4 quatrilhões de estrelas. Se quisermos ser mais pessimistas e pensarmos que apenas 1% possui as condições necessárias, ainda teríamos um número extremamente grande: 400 trilhões de estrelas! Será que somos os únicos?
Certamente não devemos ser. Algum lugar da Galáxia – alguns lugares do Universo – deve abrigar formas de vida até mesmo inteligentes.
A grande questão não é a existência ou não de vida fora da Terra, uma vez que, pelo menos estatisticamente, parece óbvio que ela existe. O grande problema é como os Homens irão comunicar-se com elas.
A física da Relatividade, proposta por Albert Einstein em 1905, nos ensina que nada pode ultrapassar a velocidade da luz, que é de 300 mil quilômetros por segundo. Essa velocidade é extremamente alta se pensarmos em termos de distâncias terrestres, até mesmo dentro do Sistema Solar. Mas, se formos para as distâncias estelares, o panorama modifica-se de forma surpreendente.
A estrela mais próxima da Terra é Alfa do Centauro, a mais brilhante da constelação do Centauro. Sua distância até nós é de 4,2 anos-luz, ou 397.342.192.800.000 quilômetros!
As distâncias interestelares são gigantescas. Uma vez que é impossível viajar com velocidades maiores do que a da luz, torna-se inviável pensar em deslocar-nos para visitar uma estrela, no presente ou no futuro.
Essa limitação não é de nossa tecnologia, mas uma limitação cosmológica, o que impede que qualquer extraterretre também viaje com velocidades superiores a da luz. Estamos presos em nosso Sistema Solar e somente por meio de ondas de rádio poderemos entrar em contato com seres de outros planetas. Por isso os homens soltam a sua imaginação e, uma vez que não podem viajar com seus corpos, viajam com a sua mente, usando naves como a Interprise.
O “telefone” que os homens usarão para entrar em contato com os seres de outros planetas, é o Radiotelescópio, instrumento que capta as ondas de rádio que viajam pelo espaço.


 Da mesma forma, podemos imaginar que, se existem seres em outras estrelas, eles devem estar tentando saber se existem seres em outros lugares e devem estar tentando “ouvir” o espaço interestelar para saber de nossa existência.
No Brasil, a televisão iniciou em 1950, o que significa que as imagens que escaparam para o espaço naquela época estão viajando há 60 anos. Portanto, podem ter sido captadas por seres que habitem planetas de uma estrela que fica dentro de uma esfera de 60 anos-luz de raio. Deveríamos ter mais cuidado com o que enviamos ao espaço, posto que se algumas imagens de nossa TV forem captadas por extraterrestres, certamente eles irão desistir de entrar em contato conosco!
De qualquer forma não devemos perder nosso sono preocupados com ataques extraterrestres. Certamente não corremos o risco de que uma nave de ataque desperte-nos em uma manhã, mesmo que seja no dia da independência.
A única possibilidade que tínhamos de poder ter contato com formas de vida alienígenas seria se elas existissem em planetas de nosso Sistema Solar.
O Homem já visitou todos os planetas, com a exceção do ex-planeta Plutão, e também os satélites mais importantes e não encontrou nenhuma evidência de vida macroscópica. Em 1974, a NASA pousou duas naves Vicking em solo marciano para iniciar suas pesquisas de vida naquele planeta e, assim, há 36 anos tornamo-nos marcianos...
No dia 4 de julho de 1997, ocorreu o pouso de outra missão norte-americana em solo marciano. A Mars Pathfinder Mission (Missão “desbravadora” a Marte).
Após uma viagem de sete meses, iniciada no dia 4 de dezembro de 1996 e atravessando 497 milhões de quilômetros, a nave pousou em solo marciano no dia da independência dos Estados Unidos da América, com um custo de 196 milhões de dólares.
O módulo de pouso, com 360 kg de massa, que serve de base para as missões do pequeno robô que executa as pesquisas, foi rebatizado de Carl Sagan, em homenagem ao astrônomo que era uma das maiores autoridades sobre o planeta Marte.
O robô Sojourner custou cerca de 25 milhões de dólares, tem a massa de 11,5 kg, mede 65 cm de comprimento por 48 cm de largura e tem 30 cm de altura, possui uma plataforma que é um coletor de luz solar que gera energia para manter suas atividades.


O pouso ocorreu em Ares Vallis, localizado nas coordenadas de 19,33o Norte e 33,55o Oeste. Essas coordenadas correspondem, na Terra, a um pouso em pleno oceano Atlântico, bem próximo ao Paralelo que passa pela cidade do México.
Marte apresenta um panorama desértico, com um céu rosado, devido a fortes tempestades que levantam uma poeira avermelhada que fica em suspensão no ar. Existem muitas pedras espalhadas, o que levou a NASA a dotar o robozinho de um sistema formado por três emissores de laser, que buscam dar segurança a seu deslocamento. Os feixes laser servem para identificar obstáculos que devem ser contornados, impedindo, assim, trombadas interplanetárias.
Ainda falta muita estrada para chegarmos a Marte e possamos estabelecer uma base por lá. É quase certo que um dia o faremos – os “marcianos” que estiverem vivos verão...