Uma das coisas mais complexas para entendermos é o
comportamento humano. Acho que o fato de sermos humanos nos “embaça” a
compreensão do que fazemos a nós, aos outros e, principalmente, a nossos
filhos. Tenho, também, a convicção que quase a totalidade de nossas ações tem
por raiz uma mutação ocorrida no australopiteco, no Homo habilis, no Homo
erectus até chegar em nós, Homo sapiens(??). Comportamento de hoje, nem sempre
desejáveis, já foram fundamentais para a perpetuação da espécie, por meio da
perpetuação do indivíduo. E aí é que mora a questão fundamental. Naquelas
épocas, para que a espécie pudesse ser perpetuada, cada indivíduo tinha que se
perpetuar (passar seus genes adiante).
Pausa 1: Na Mitologia grega, Hibris é uma violência, uma
insolência, uma ultrapassagem do metron (quando um homem se compara ao divino),
daí o sentido de orgulho, arrebatamento, exaltação de si mesmo.
Pausa 2: Outro personagem da mitologia que me interessa
neste post é Narciso, filho de um deus com uma ninfa, Narciso nasceu como o
mais belo dos helenos; era difícil entender como poderia existir um menino tão
belo. Para os gregos, a beleza dos mortais sempre assustava porque ela (a
beleza) facilmente arrasta o ser humano em direção à Hibris.
Voltemos à Idade da Pedra. As comunidades humanas deviam se
proteger em cavernas (minha caverna minha vida!) e o grupo que lá estava
precisava comer. Havia divisão de tarefas baseando-se puramente na força
física, não no intelecto. Os homens iam para a caça e as mulheres catavam,
colhiam e alimentavam a cria. Quando os homens voltavam com a carne (não tinha
geladeira!) dividiam e comiam tudo que era possível aguentar, porque a caça era
difícil. Pausa 3: a necessidade de comer além do necessário era uma questão de
vida ou morte, mas pode ter dado origem a nossa obesidade moderna. Os melhores
caçadores tinham mais chance de propagar seus genes. Deviam se orgulhar disso e
deviam “se achar”. As pinturas rupestres indicam que havia rituais antes das
caçadas. Os deuses da caça eram “chamados” a ajudar e aquele que era o melhor
caçador se achava tocado pelo deus. Iguais aos que vencem a Olimpíada, um jogo
de futebol ou o The Voice. Foi deus que os escolheu. Viram? Hibris e Narciso
não nos deixam, desde daquela época.
Durante a Idade Média as famílias queriam muitos filhos para
ter mão de obra. Até o início do século XX as crianças não tinham voz nem
espaço. Hoje as pessoas não caçam, mas compram. Não fazem artefatos ou
ferramentas bem feitas, mas filhos lindos e maravilhosos que não podem ser
contrariados nem ouvirem um não. Hoje, muitos pais criam Hibris, posto que se
tornaram Narcisos.
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