terça-feira, 12 de março de 2019

O Homo é verdadeiramente sapiens?


Uma das coisas mais complexas para entendermos é o comportamento humano. Acho que o fato de sermos humanos nos “embaça” a compreensão do que fazemos a nós, aos outros e, principalmente, a nossos filhos. Tenho, também, a convicção que quase a totalidade de nossas ações tem por raiz uma mutação ocorrida no australopiteco, no Homo habilis, no Homo erectus até chegar em nós, Homo sapiens(??). Comportamento de hoje, nem sempre desejáveis, já foram fundamentais para a perpetuação da espécie, por meio da perpetuação do indivíduo. E aí é que mora a questão fundamental. Naquelas épocas, para que a espécie pudesse ser perpetuada, cada indivíduo tinha que se perpetuar (passar seus genes adiante).
Pausa 1: Na Mitologia grega, Hibris é uma violência, uma insolência, uma ultrapassagem do metron (quando um homem se compara ao divino), daí o sentido de orgulho, arrebatamento, exaltação de si mesmo.
Pausa 2: Outro personagem da mitologia que me interessa neste post é Narciso, filho de um deus com uma ninfa, Narciso nasceu como o mais belo dos helenos; era difícil entender como poderia existir um menino tão belo. Para os gregos, a beleza dos mortais sempre assustava porque ela (a beleza) facilmente arrasta o ser humano em direção à Hibris.
Voltemos à Idade da Pedra. As comunidades humanas deviam se proteger em cavernas (minha caverna minha vida!) e o grupo que lá estava precisava comer. Havia divisão de tarefas baseando-se puramente na força física, não no intelecto. Os homens iam para a caça e as mulheres catavam, colhiam e alimentavam a cria. Quando os homens voltavam com a carne (não tinha geladeira!) dividiam e comiam tudo que era possível aguentar, porque a caça era difícil. Pausa 3: a necessidade de comer além do necessário era uma questão de vida ou morte, mas pode ter dado origem a nossa obesidade moderna. Os melhores caçadores tinham mais chance de propagar seus genes. Deviam se orgulhar disso e deviam “se achar”. As pinturas rupestres indicam que havia rituais antes das caçadas. Os deuses da caça eram “chamados” a ajudar e aquele que era o melhor caçador se achava tocado pelo deus. Iguais aos que vencem a Olimpíada, um jogo de futebol ou o The Voice. Foi deus que os escolheu. Viram? Hibris e Narciso não nos deixam, desde daquela época.
Durante a Idade Média as famílias queriam muitos filhos para ter mão de obra. Até o início do século XX as crianças não tinham voz nem espaço. Hoje as pessoas não caçam, mas compram. Não fazem artefatos ou ferramentas bem feitas, mas filhos lindos e maravilhosos que não podem ser contrariados nem ouvirem um não. Hoje, muitos pais criam Hibris, posto que se tornaram Narcisos.

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