terça-feira, 12 de março de 2019

Nós e a raposa


Quando eu era aluno do antigo ginásio no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro estudava latim – acho que o Pedro II era o único colégio que mantinha o latim em sua grade de ensino. O ano era 1966. O tempo passou e a memória conservou a imagem ilustrativa de um capítulo do livro na qual havia uma raposa olhando de perto uma máscara de tragédia – a personam tragicam.
A raposa se deslumbra com a beleza da máscara, fala com ela e não recebe resposta, então a pega e percebe: “Ò quanta beleza, mas não tem cérebro”.
É o anátema da aparência sem conteúdo. Muitas pessoas, objetos, fatos e interpretações têm somente aparência, uma pequena, mas eficaz análise mostra-nos que seus conteúdos são frívolos.
A Astronomia passou por sua fase de personam tragicam quando os homens admiravam o céu, deslumbravam-se com os eclipses, temiam os cometas e achavam que seus conteúdos eram divinos. Cada astro no céu já foi um deus e as manifestações meteorológicas eram ações daqueles deuses. Pouco a pouco os homens foram organizando o conhecimento, aprendendo a retirar um deus e a colocar uma informação em cada ponto do céu, assim o Mundo tornou-se uma personam tragicam diferente de todas, pois agora mostrava toda sua beleza e possuía conteúdo, o observador se imiscuiu com o observado – humanizou o Mundo e universalizou o homem.


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