sexta-feira, 28 de outubro de 2022

 

A posição institucionalista esconde tendências conservadoras. Assim, faz-se necessário desenvolver o conceito de conservadorismo. Faz-se necessário deixar claro o que entendo por conservador e, também, sobre suas causas. Vejo o Homem como um animal conservador. Esta afirmação baseia-se em deduções não sociológicas.

Somos fruto de milhões de anos de evolução. Não saímos desse processo impunemente, pois trazemos em nosso organismo resquícios primitivos de outras eras. Um bom exemplo disso é o Complexo R. Esta é uma região do nosso cérebro que herdamos dos répteis. É a nossa porção réptil. Neste recôndito estão a nossa agressividade; a seleção do habitat; o acasalamento; a defesa do território e algumas outras emoções primitivas.

Revestindo o Complexo R, temos o cérebro Límbico e, mais externamente, o Neocórtex. Estas duas últimas partes são cérebros mamíferos, racionais e responsáveis por nosso comportamento, fruto da “fecundação” da razão e do instinto.

Vejo nisso uma boa razão para explicar certos comportamentos desaconselhados pela moral, mas tão comuns entre nós. A evolução vai, aos poucos, agindo nas duas últimas camadas cerebrais e estas vão “ganhando” a batalha contra o nosso lado reptiliano. Somente quando essa vitória for iminente é que teremos chances de sobrepujar os instintos e, ao fazê-lo, abandonar posições conservadoras.

Por que essa ligação tão íntima? Vimos que todas as “funções” de nosso cérebro reptiliano se ligam, intimamente, à sobrevivência do indivíduo, que assim permite a perpetuação de toda a espécie, objetivo final da vida – manter-se viva!

Entendo que a perpetuação da agressividade, a escolha do nosso habitat (o campo ou a cidade), a escolha da(o) companheira(o) (o casamento) e a marcação do nosso território (as fronteiras dos países) são fundamentais – são moedas correntes – no conservadorismo. Isto pode chegar a situações bizarras como a de países vizinhos disputarem – às vezes com armas e mortos – regiões minúsculas e estéreis, em nome de uma soberania nacional muitas vezes vilipendiada por seus próprios governantes. O casamento também é uma característica do conservadorismo. Grande incentivador do machismo, o casamento garante a posse de outrem, alimentando, no homem, a sensação do poder e, na mulher, a de proteção. Fato esse, emerso de nossos núcleos familiares pré-históricos, onde à mulher cabia a alimentação da prole, ao homem cabia a proteção da família e a caça. Fatos decisivos para a perpetuação de nossa frágil espécie, ainda permanecem em nosso íntimo a espera que a razão os enterre definitivamente nas cavernas que já habitamos. Este “modelo” ainda é muito forte nos dias atuais, nos quais o homem trabalha e a mulher cuida da caverna. Ops! Da casa!

Esse “axioma” tem mudado bastante no século XXI.

Existe, eu acho, uma razão biológica, neurológica, para os homens temerem as mudanças. Imaginemos um primitivo tendo que passar para outra região de sua floresta ou campo (observemos a relutância dos índios em mudar de território). As incertezas seriam alavancas para o medo ou o pânico que levariam à destruição, e aí chegamos ao âmago da questão: o Homem tem tendências conservadoras porque mudar tem conotações de morrer!

É, talvez, o dilema mais primevo: os mortais diante da mortalidade!

Somando-se a isso temos outros fatores. Um dos mais fortes é a falta de conhecimento do Mundo que habita. Os homens têm uma visão perene do Universo, quando o mais correto seria uma visão efêmera.

O Homem pensa que o Universo é eterno, não muda. O que ele desconhece é que a eternidade habita somente suas ansiedades, não tendo lugar na Realidade. Por que é assim? Essa visão perene do Mundo vem da efemeridade dos homens e da grandeza do Universo. Quando aqui chegamos encontramos as estrelas, quando partimos as deixamos no céu. Portanto, estão lá em cima há mais tempo do que nós, aqui na Terra – só podem ser eternas!

Um ótimo exemplo disso podemos buscar na Biologia. Existe um determinado gênero de insetos chamado Ephemerideos. Esses insetos passam quase 20 anos na forma de larva no fundo lodoso de um lago. Após esse tempo, as larvas eclodem, os indivíduos vêm à tona e tornam-se adultos em sete dias. Acasalam e morrem. Se esses insetos fossem sencientes, qual seria sua visão da floresta? Teriam, talvez, orgulho de habitar um lago eterno com árvores de tamanho já determinados. O Mundo desses insetos seria imutável e eterno e, certamente, criado por algum deus com forma de inseto!

Tal qual nós; quando oçhamos as estrelas imutáveis e eternas!

Não é nada assim. O céu que cobriu a cabeça de Platão não é o céu que nos cobre a cabeça. Muita coisa mudou. Estrelas morreram e nasceram todas mudaram de lugar. E nós? Nós seres humanos, perdemos o espetáculo. Nós sempre chegamos com a “festa” já começada e a deixamos antes do final. Por isso é que, para nós, a festa dura para sempre. Precisaríamos ter uma visão de espécie – como um ser histórico – para percebemos que o Mundo é mutável posto que mortal!

O Homem sabe disso; só não quer aprender.

Cabe à ciência essa memorização dos estudos Universais para que os homens possam, pouco a pouco, começar a abandonar suas ideias reptilianas e conservadoras. A razão precisa, mostrar ao réptil que habita nossas entranhas, que mudar não é morrer. Ou então escolher o caminho mais difícil de mostrar que morrer não é tão ruim quanto parece. Morrer é apenas dar lugar, conceder espaço para a cessão do tempo.

Em resumo, somos pertencentes a uma espécie conservadora por construção biológica. Apenas temos que esperar que a evolução se encarregue de minimizar os efeitos do réptil que habita cada um de nós ou então... domá-lo.

Essa é uma forma de ver a sociedade que tenta reduzi-la a algo classificável. Uma sociedade primitiva e pouco complexa é passível de ser ajustada a essa visão. É muito cômodo para os detentores do poder, “assistirem” o Mundo por meio destes óculos. Não podia ter nascido em um berço melhor do que a colonialista maternidade britânica.

O institucionalismo é um grande aplacador de consciências pesadas de senhores de engenhos, de empresários e outros tipos de “donos” da vida alheia.

Já ouvi de um empresário da construção civil, que os “peões são felizes sendo peões, pois é o que sabem fazer”. Essa é uma posição tipicamente funcionalista e que entre outras coisas serve para aplacar a culpa que deveria sentir por pagar, certamente, salários absurdamente baixos e obter lucros absurdamente altos.

Os homens são um paradoxo lógico. Existem certamente peões de obra que são felizes sendo peões de obra e que acreditam que os “doutores” é que detêm o direito a tudo e a eles cabem os deveres, principalmente o de servir ao patrão – é a manifestação suprema da subserviência, da “fidelidade”. Surpreendentemente não são somente os que detêm os meios de produção que não querem mudar. Muitas vezes os que são oprimidos aceitam essa situação com um fatalismo inominável, e passam suas vidas sem nenhum pensamento de mudança. Alguns oprimidos são tão conservadores quanto os opressores. Esse é o papel das religiões que fazem a lavagem cerebral necessária à não-rebelião. Os induz a aceitar o que o “céu manda”.

O paradoxo mais forte e mais imoral deste processo, é que quando ouvimos sair de classes oprimidas uma voz conjurando contra o opressor podemos ter a certeza de que aquela voz não quer mudar a relação de poder, quer, sim, é ser o poderoso.

Podemos exemplificar com a revolução russa de 1917. Revolução proletária, feita para afastar a burguesia do poder. Só para inocentes e para os deliberadamente enganados. Foi apenas uma troca de poderosos, no lugar de uma família se estabeleceu um partido, mas a “hereditariedade” permaneceu. A opressão se intensificou a intromissão do Estado chegou a proporções Orwelianas e o povo? Cada vez mais afastado de tudo. Até ao requinte de se estabelecerem lojas onde o povo não pode entrar chegaram. E viver bem, em casas grandes e colecionando limusines de luxo, só para os mais “proletários” da grande farsa que era o Partido.

Para tudo isso se manter no tempo foi preciso a preparação do povo, a lavagem cerebral Institucionalista (pela “ferramenta” reliosa) que tudo explica e nada muda.

Podemos observar o nordeste brasileiro. Povo com suas estruturas sedimentadas, com a vida muito sofrida. Não declinam de suas crenças nem mesmo depois do horror de cinco anos de seca. Continuam rezando para os mesmos “santos” e acreditando no mesmo governo.

Não percebem que são espoliados em seus direitos e que têm fé em um paliativo que nunca lhes trouxe nem uma gota d'água, nem um grama de comida. Mas estão lá, cozidos por um Sol inclemente ou embaixo de uma enchente insana, rezando pare o mesmo “padim Ciço” e votando no mesmo partido.

Posso concluir que a posição Institucionalista parece ter sido “criada” para justificar o comportamento dos poderosos. Esta posição serve para explicar sociedades bastante simples e levar esta explicação para sociedades complexas, como a nossa, é que seja a deturpação suprema para justificar o injustificável.

Um regime de força precisa ser burocratizado, corrupto e conservador. O poder é psicológico, posto que emana do medo. É obvio que se todo um povo não quiser um governante, ele nada poderia fazer. Por isso “compra”, negocia a dignidade do país com os portadores das armas, para tê-los a seu favor. E as raízes da autoridade estão firmemente “plantadas” na mente de cada um. O desafio foi, é e será sempre podado. É assim que o oprimido continua oprimido e o opressor entra para a História, muitas vezes, como Libertador. Países que ao longo da História humana sempre foram aproveitadores e exploradores de outros povos, verdadeiros traficantes de carne humana, entram na História pela porta da frente, enquanto homens lutadores ficam no limbo de uma porta dos fundos. Por quê? Porque o lápis com qual se escreve a História está, invariavelmente, na mão dos poderosos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

 

Vamos imaginar um dia típico do Período Neolítico (10.000 a.C.-4.000 a.C.). Foi nesse período pré-histórico que os homens aprenderam a construir ferramentas de pedra polida. Essas ferramentas foram fundamentais para o próximo passo evolutivo que foi a agricultura. Os grupamentos humanos ficavam em torno de suas plantações – quase que pequenas “fazendas”. Com a agricultura se desenvolvendo, as “fazendas” foram crescendo e aí, foi “percebido” que os grupamentos podiam trocar vegetais que produziram por outros que eram produzidos em outros agrupamentos – um escambo. Até que por volta de 10.000 atrás as necessidades dos grupos se “tornam” coletivas e aí surge a primeira cidade, chamava-se Eridu, na Suméria, mas a urbanização da sociedade ocorreu em Uruk, na Mesopotâmia. A importância desse agrupamento foi muito grande, tanto que seu nome atravessou os séculos e veio “batizar” o país que surgiu naquela região – Iraque. Já temos a agricultura, a cidade e aí surgem os nossos problemas atuais. Uruk tinha templos, bairros residenciais, praças, estabelecimentos comerciais, exército e um sistema de administração pública que cobrava impostos! Estava inventada a burocracia! Em 2.800 a.C., a população era de cerca de 80 mil habitantes. Por volta de 3.500 anos antes de Cristo; a invenção da escrita foi realizada pelos sumérios. O texto escrito mais antigo que conhecemos é um texto comercial! Faltava apenas mais um passo – substituir o escambo. Então, no século 7 a.C., no reino da Lídia (atual Turquia). Foi cunhada a primeira moeda. A parir de então o Homem estava pronto para desenvolver seu futuro, por mais macabro que fosse. Dinheiro; burocracia; homens trabalhando duro; homens se locupletando do trabalho alheio – surge o Estado!

Aos sacerdotes interessa que os homens que trabalham continuem trabalhando para que eles não trabalhem. Para isso era necessário que os homens que trabalham acreditassem em coisas sobrenaturais que “pareciam” ser entendidas e dominadas pelos sacerdotes. Para o Estado era imprescindível que os homens que trabalham acreditassem que os burocratas estavam ali – até o fim da Idade Média, por vontade dos deuses – para ajudar; para organizar; para prover a saúde; para prover a segurança e, mais adiante, para prover a educação. Para tudo isso era preciso que os homens que trabalham paguem altas quantias para os burocratas ...não fazerem nada! Os agentes do Estado não produzem nada, os sacerdotes não produzem nada, mas os homens que trabalham sustentam ambos os seguimentos sociais, sem perceber a força que têm. É imperioso que os homens que trabalham não percebam que têm a força suficiente e necessária para mudar!

Peço as devidas desculpas a Aristóteles, a Locke, a Montesquieu que muito contribuíram para teorizar sobre as três partes do Estado. Faz-se necessário chamar a atenção par uma preocupação de Montesquieu que achava não ser possível deixar em “uma única mão a tarefa de legislar, administrar e julgar, já que a concentração de poder tende a gerar o abuso dele”. Não adiantou muito a preocupação de Montesquieu, uma vez que os 3 poderes independentes e harmoniosos não existem; pois a promiscuidade é imensa. O Legislativo “vende” seus votos e opiniões ao Executivo. O Judiciário tenta travestir-se de Executivo.

Os homens que trabalham precisam acordar, decidir, exigir, expor e mudar!

 

O Universo é gigantesco, mas não tem muita imaginação! Fez uma experiência, deu certo, então ele a repete ao longo do espaço e do tempo. Logo após o Big Bang as partículas fundamentais formaram um “mar” sem limites, sem ordem, um caos. O instante do Big Bang criou o espaço e o tempo, então o caos “ganhou” um palco, no qual poderia iniciar sua jornada, um drama? Uma tragédia? Um suspense? Um romance? Tudo isso, porque a ordenação do caos deu início a uma saga que iria permitir a vida. Por meio de duas forças contrárias – gravidade e pressão de irradiação – o Universo tornou-se protagonista naquele roteiro que se iniciou com a grande explosão. As partículas começaram a se juntar, dando origem às estrelas. A vida das estrelas é uma dádiva do equilíbrio entre essas duas forças. A morte de uma estrela é causada pela vitória de uma delas. A gravidade “aperta” tanto o núcleo da estrela que ele explode e, ao explodir, traz, ao espaço, os elementos químicos que conhecemos. Daí torna-se possível o surgimento dos Sistemas Planetários. Foi assim como Sol. Foi daí que viemos, somos frutos de uma batalha entre contrários e essa batalha se perpetua ao longo de nossas existências. Vivemos dos contrários que nos apresentam, que nos dão, que fazemos uso para existir. O que muito me espanta é que somos frutos de forças contrárias, mas não aprendemos a conviver com uma delas – as opiniões contrárias. Talvez uma deficiência evolutiva, talvez uma sina introjetada nas entranhas de nossas mentes. Um grande passo em direção à subida de degraus colocados pelo Big Bang talvez seja compreender nossas mentes de forma mais objetiva, mais realista, mais vivenciada, enfim, mais na direção de uma paz que ainda não encontramos. Vamos sonhar sonhos impossíveis; vamos desejar desejos nunca desejados; vamos escalar montanhas verdes que parecem tocar um azul inalcançável; vamos compreender o incompreensível para podermos ouvir a música que as montanhas cantam há mil anos; vamos deixar nossos corações baterem como as asas das aves, livres no ar; vamos ouvir o que o Universo nos quer contar, porque esse segredo, nada mais é do que ouvir os Outros!