O rei inglês George III escrevia, religiosamente, um diário todas as noites ao deitar-se. No dia 4 de julho de 1776 ele escreveu: “hoje não aconteceu nada de especial”.
Enquanto o rei dormia tranqüilo, em Londres, os americanos tornavam-se independentes, do outro lado do oceano. A causa da anotação equivocada era a falta de informação. A pequena velocidade com que a informação era transmitida no século XVIII é flagrantemente contraposta com a velocidade nos dias atuais.
A história registra as tentativas feitas pelos governos em melhorar e tornar mais rápido o processo de difundir informação. O Império Romano tinha um eficiente e rápido, para a época, sistema de transmissão de informação por meio de uma rede de “carteiros” transportados por rápidos cavalos e postos de troca em locais estratégicos. Até que o império tornou-se grande demais e as invasões nas fronteiras mais distantes passaram a ficar “desconhecidas” por Roma. O fim aproximou-se.
Alexandre, o Grande também tinha suas preocupações com a transmissão de informações, e manteve uma rede de “correio” a cavalo para manter-se informado do que ocorria em sua capital durante suas demoradas campanhas de conquista.
Nos dias atuais a informação, sob todos seus aspectos – políticas, civis e científicas – precisa ser transmitida em enorme velocidade. Não é só a rapidez da transmissão que conta mas também (e talvez mais importante ainda) a forma de que dispomos para recuperar uma informação.
Não é suficiente termos um dado armazenado faz mister que saibamos como acessá-lo e, muito importante, poder “filtrar” as informações para não sucumbirmos à “explosão de informação” que vem ocorrendo desde a segunda metade do século XIX.
Até meados do século XIX o conhecimento crescia de forma linear, com o desenvolvimento da ciência e, principalmente, do método científico, o conhecimento passou a crescer de forma exponencial, gerando um volume enorme de informação que deve ser filtrado com filtro qualitativos e quantitativos.
Faraday, ainda em 1826 reclamava que “era impossível para uma pessoa ansiosa por devotar uma parte de seu tempo a experiências químicas ler todos os livros e artigos que se publicam acerca de seu mister ...”. O que podemos dizer hoje em dia?
Bacon, nos idos do século XVII, afirmava que “a verdade de ser e a verdade de saber são uma só”. Daí, verifica-se que o conhecimento deve ser buscado pelo simples fato de ser possível buscá-lo e para que possa ser aplicado. Bacon também sabia que o conhecimento está inequivocamente ligado à sua comunicação. E essa comunicação não deve ser vista como sendo devida somente aos contemporâneos mas, também, às gerações futuras. “As imagens do espírito e do conhecimento do homem conservam-se nos livros, isentos aos danos do tempo e capazes de perpétua renovação”, continua Bacon.
É certo que uma escola exerce o papel de preencher lacunas que os livros deixam por inerência – a rapidez da comunicação. Soma-se à rapidez, a produção de um fórum onde as novas hipóteses são colocadas à arena freqüentada pelos pares do autor. Aos livros chegam as sobreviventes. Esta é a vocação das escolas, promover a sedimentação das idéias.
Não é possível saber quando, na história, a pesquisa iniciou. O que está claro é que os gregos contribuíram de forma substantiva para o que conhecemos como discussão “acadêmica”. À academia podemos atribuir o início da “comunicação filosófica”, então intrinsecamente unida ao que hoje é a Física e a Biologia.
A ausência da prensa foi a responsável pela dificuldade de comunicar o saber já sabido. Como exemplo, a estatística de publicações de livros no período de 1436-1536 mostra cerca de 420 títulos e no período de 1536-1636 – também cem anos – mostra cerca de 5.750 títulos.
Certamente, sabemos, que não eram todos ligados à ciência mas o papel do livro estava definitivamente escrito. O ano de 1543 testemunhou duas grandes obras, frutos do pensar humano: o De Revolutionibus orbium coelestium, de Copérnico, marco da Astronomia moderna e o De humani corporis fabrica, de Vesálio, considerada a primeira obra moderna sobre Anatomia Humana, inovando por conter ilustrações minuciosas.
O “buscar” do homem nunca parou. O “comunicar o buscado” nunca deverá parar. O Mundo mostra-se para quem quiser vê-lo, este é o anátema do cientista.
Há mais de cinqüenta anos Albert Einstein extasiava-se com a constatação de que o Mundo existe independente de nós, e que sua permanência à nossa frente fazia-se na forma de um grande e eterno enigma. Dizia: “a contemplação deste Mundo me atrai como uma libertação.”
O papel de uma escola é participar, de forma ativa, nesse processo de libertação. É um veículo que depende – como qualquer veículo – dos usuários: alunos e professores.
Forma-se uma cadeia causal, cartesiana, na história de uma escola. No momento em que uma escola é criada é porque existem alunos, a cadeia é invertida e os alunos passam à existência porque existe a escola. Essa inversão contínua – e possivelmente perene – do curso da cadeia faz-se decisiva na razão de continuar.
A escola está aqui, à espera de todos!
Informção é uma palavra simples, porém ainda tenho dúvidas de que todos a conheçam de fato.Parabéns pelo blog! Saudades.
ResponderExcluirClarisse