A posição institucionalista esconde tendências conservadoras. Assim,
faz-se necessário desenvolver o conceito de conservadorismo. Faz-se necessário deixar claro o que
entendo por conservador e, também, sobre suas causas. Vejo o Homem como um animal conservador. Esta
afirmação baseia-se em deduções
não sociológicas.
Somos fruto de
milhões de anos de evolução. Não saímos desse processo impunemente, pois
trazemos em nosso organismo resquícios primitivos de outras eras. Um bom exemplo
disso é o
Complexo R. Esta é uma região do nosso cérebro que herdamos dos répteis. É a nossa porção
réptil. Neste recôndito estão a nossa agressividade; a seleção do habitat; o
acasalamento; a defesa do território e algumas outras emoções primitivas.
Revestindo o Complexo R, temos o cérebro
Límbico e, mais externamente, o Neocórtex. Estas duas últimas partes são
cérebros mamíferos, racionais e responsáveis por nosso comportamento, fruto da
“fecundação” da razão e do instinto.
Vejo nisso uma boa razão para explicar certos comportamentos desaconselhados
pela moral, mas tão comuns entre nós. A evolução vai, aos poucos, agindo nas
duas últimas camadas cerebrais e estas vão “ganhando” a batalha contra o nosso
lado reptiliano. Somente quando essa vitória for iminente é que teremos chances
de sobrepujar os instintos e, ao fazê-lo, abandonar posições conservadoras.
Por que essa
ligação tão íntima? Vimos que todas as “funções” de
nosso cérebro reptiliano se ligam, intimamente, à sobrevivência do indivíduo,
que assim permite a perpetuação de toda a espécie, objetivo final da vida –
manter-se viva!
Entendo que a perpetuação da agressividade, a
escolha do nosso habitat (o campo ou a cidade), a escolha da(o) companheira(o)
(o casamento) e a marcação do nosso território (as fronteiras dos países) são
fundamentais – são moedas correntes – no conservadorismo. Isto pode chegar a
situações bizarras como a de países vizinhos disputarem – às vezes com armas e
mortos – regiões minúsculas e estéreis, em nome de uma soberania nacional
muitas vezes vilipendiada por seus próprios governantes. O casamento também é
uma característica do conservadorismo. Grande incentivador do machismo, o casamento garante a posse de
outrem, alimentando, no homem, a sensação do poder e, na mulher, a de proteção.
Fato esse, emerso de nossos núcleos familiares pré-históricos, onde à mulher
cabia a alimentação da prole, ao homem cabia a proteção da família e a caça.
Fatos decisivos para a perpetuação de nossa frágil espécie, ainda permanecem em
nosso íntimo a espera que a razão os enterre
definitivamente nas cavernas que já
habitamos. Este “modelo” ainda é muito forte nos dias atuais, nos quais o homem
trabalha e a mulher cuida da caverna. Ops! Da casa!
Esse “axioma” tem mudado bastante no século
XXI.
Existe, eu acho, uma razão biológica, neurológica, para os homens
temerem as mudanças. Imaginemos um primitivo tendo que passar para outra região
de sua floresta ou campo (observemos a relutância dos índios em mudar de
território). As incertezas seriam alavancas para o medo ou o pânico que
levariam à destruição, e aí chegamos ao âmago da questão: o Homem tem
tendências conservadoras porque mudar tem conotações de morrer!
É, talvez, o dilema mais primevo: os mortais diante da mortalidade!
Somando-se a isso temos outros fatores. Um dos mais fortes é a falta de
conhecimento do Mundo que habita. Os homens têm uma visão perene do Universo,
quando o mais correto seria uma visão efêmera.
O Homem pensa que o Universo é eterno, não muda. O que ele desconhece é que a eternidade habita somente suas ansiedades, não tendo lugar na
Realidade. Por que é assim? Essa visão perene do Mundo vem da efemeridade dos
homens e da grandeza do Universo. Quando aqui chegamos encontramos as estrelas,
quando partimos as deixamos no céu. Portanto, estão lá em cima há mais tempo do
que nós, aqui na Terra – só podem ser eternas!
Um ótimo exemplo disso podemos buscar na Biologia. Existe um
determinado gênero de insetos chamado Ephemerideos. Esses insetos passam
quase 20 anos na forma de larva no fundo lodoso de um lago. Após esse tempo, as
larvas eclodem, os indivíduos vêm à tona e tornam-se adultos em sete dias.
Acasalam e morrem. Se esses insetos fossem sencientes, qual seria sua visão da
floresta? Teriam, talvez, orgulho de habitar um lago eterno com árvores de
tamanho já determinados. O Mundo desses insetos seria imutável e eterno e,
certamente, criado por algum deus com forma de inseto!
Tal qual
nós; quando oçhamos as estrelas imutáveis e eternas!
Não é nada assim. O céu que cobriu a cabeça de Platão não é
o céu que nos cobre a cabeça. Muita coisa mudou. Estrelas morreram e nasceram todas
mudaram de lugar. E nós? Nós seres humanos, perdemos o espetáculo. Nós sempre
chegamos com a “festa” já começada e a deixamos antes do final. Por isso é que, para
nós, a festa dura para sempre. Precisaríamos ter uma visão de espécie – como um
ser histórico – para percebemos que o Mundo é mutável posto que mortal!
O Homem sabe disso; só não quer
aprender.
Cabe à ciência essa memorização dos
estudos Universais para que os homens possam, pouco a pouco, começar a
abandonar suas ideias reptilianas e conservadoras. A razão precisa, mostrar ao
réptil que habita nossas entranhas, que mudar não é morrer. Ou então escolher o
caminho mais difícil de mostrar que morrer não é tão ruim quanto parece. Morrer é apenas dar lugar, conceder espaço
para a cessão do tempo.
Em resumo, somos pertencentes a uma
espécie conservadora por construção biológica. Apenas temos que esperar que a
evolução se encarregue de minimizar os efeitos do réptil que habita cada um de
nós ou então... domá-lo.
Essa é uma forma de ver a sociedade
que tenta reduzi-la a algo classificável. Uma sociedade primitiva e pouco
complexa é passível de ser ajustada a essa visão. É muito cômodo para os detentores
do poder, “assistirem” o Mundo por meio destes óculos. Não podia ter nascido em
um berço melhor do que a colonialista maternidade britânica.
O institucionalismo é um grande
aplacador de consciências pesadas de senhores de engenhos, de empresários e
outros tipos de “donos” da vida alheia.
Já ouvi de um empresário da
construção civil, que os “peões são felizes sendo peões, pois é o que sabem
fazer”. Essa é uma posição tipicamente funcionalista e que entre outras coisas
serve para aplacar a culpa que deveria sentir por pagar, certamente, salários
absurdamente baixos e obter lucros absurdamente altos.
Os homens são um paradoxo lógico.
Existem certamente peões de obra que são felizes sendo peões de obra e que
acreditam que os “doutores” é que detêm o direito a tudo e a eles cabem os
deveres, principalmente o de servir ao patrão – é a manifestação suprema da
subserviência, da “fidelidade”. Surpreendentemente não são somente os que detêm
os meios de produção que não querem mudar. Muitas vezes os que são oprimidos
aceitam essa situação com um fatalismo inominável, e passam suas vidas sem
nenhum pensamento de mudança. Alguns oprimidos são tão conservadores quanto os
opressores. Esse é o papel das religiões que fazem a lavagem cerebral necessária à não-rebelião.
Os induz a aceitar o que o “céu manda”.
O paradoxo mais forte e mais imoral deste processo, é que quando ouvimos sair de classes oprimidas
uma voz conjurando contra o opressor podemos ter a certeza de que aquela voz
não quer mudar a relação de poder, quer, sim, é ser o poderoso.
Podemos exemplificar com a revolução russa de 1917. Revolução
proletária, feita para afastar a burguesia do poder. Só para inocentes e para
os deliberadamente enganados. Foi apenas uma troca de poderosos, no lugar de
uma família se estabeleceu um partido, mas a “hereditariedade” permaneceu. A
opressão se intensificou a intromissão do Estado chegou a proporções Orwelianas
e o povo? Cada vez mais afastado de tudo. Até ao requinte de se estabelecerem
lojas onde o povo não pode entrar chegaram. E viver bem, em casas grandes e colecionando limusines
de luxo, só para os mais “proletários” da grande farsa que era o Partido.
Para tudo isso se manter no tempo foi preciso a preparação do povo, a
lavagem cerebral Institucionalista (pela “ferramenta” reliosa) que tudo explica
e nada muda.
Podemos observar o nordeste brasileiro. Povo com suas estruturas
sedimentadas, com a vida muito sofrida. Não declinam de suas crenças nem mesmo
depois do horror de cinco anos de seca. Continuam rezando para os mesmos
“santos” e acreditando no mesmo governo.
Não percebem que são espoliados em seus direitos e que têm fé em um
paliativo que nunca lhes trouxe nem uma gota d'água, nem um grama de comida.
Mas estão lá, cozidos por um Sol inclemente ou embaixo de uma enchente insana,
rezando pare o mesmo “padim Ciço” e votando no mesmo partido.
Posso concluir que a posição Institucionalista parece ter sido “criada”
para justificar o comportamento dos poderosos. Esta posição serve para explicar
sociedades bastante simples e levar esta explicação para sociedades complexas,
como a nossa, é que seja a
deturpação suprema para justificar o injustificável.
Um regime de força precisa ser burocratizado, corrupto e conservador. O
poder é psicológico, posto que emana do medo. É
obvio que se todo um povo não quiser um governante, ele nada poderia fazer. Por
isso “compra”, negocia a dignidade do país com os portadores das armas, para
tê-los a seu favor. E as raízes da autoridade estão firmemente “plantadas” na
mente de cada um. O desafio foi, é e será sempre podado. É assim que o oprimido continua oprimido e o
opressor entra para a História, muitas vezes, como Libertador. Países que ao
longo da História humana sempre foram aproveitadores e exploradores de outros
povos, verdadeiros traficantes de carne humana, entram na História pela porta
da frente, enquanto homens lutadores ficam no limbo de uma porta dos fundos.
Por quê? Porque o lápis com qual se escreve a História está, invariavelmente,
na mão dos poderosos.