Sempre será oportuno pensar sobre o passado. Hoje que já estamos vivenciando o século XXI, torna-se natural um retrospecto do século XX. Quando pensamos que juntamente com o século XX acabou o segundo milênio da era cristã, nossas mentes são atropeladas pelo desejo de construir imagens que possam retratar nossa trajetória pelos últimos mil e poucos anos.
Do ano 1001 até o presente, a ciência e a tecnologia humanas sofreram mudanças radicais em conteúdo e forma – abandonamos a busca pela pedra filosofal mas ainda temos nosso graal – devemos tê-lo enquanto mantivermos as características humanas –, e faz parte de nossa estrutura perseguir o horizonte ou buscar, sempre, o fim do arco-íris.
Johannes Kepler (1571-1630), parece-me, alcançou o seu ao descobrir suas três leis que de-ram forma – aprimoraram – ao Sistema Solar de Nicolau Copérnico (1473-1543). A aceitação da presença do Sol no centro do sistema planetário – heliocentrismo – no lugar da Terra – geocen-trismo – foi uma mudança bastante drástica e muito trágica para muitos pensadores. O heliocen-trismo não era uma idéia nova nos tempos copernicanos, uma vez que antigos gregos (c. 300 a.C.) já haviam levantado essa hipótese. Essa idéia foi abandonada por força de preconceitos e da prepotência religiosa, alimentados pela necessidade de sermos diferentes no Universo. Tínhamos de ocupar um lugar privilegiado, diferenciado, enfim, tínhamos de ser... homens.
Copérnico foi “reabilitado” por Kepler de uma injustiça feita à sua obra maior, o De revolu-tionibus orbium coelestium [Sobre a revolução dos orbes celestes], na qual, Copérnico apresenta sua teoria heliocêntrica. O astrônomo estava muito doente e, quando o livro foi publicado, encontrava-se em seu leito de morte e um exemplar foi colocado em suas mãos. Copérnico faleceu segurando o Revolutionibus, nunca soubemos se ele teve consciência do que segurava.
Ele não soube que fora introduzido, sem sua autorização, um prefácio no qual era afirmado que tudo o que estava contido na obra era apenas um artifício para facilitar os cálculos astronô-micos relativos aos planetas e ao Sol. Todos pensavam que Copérnico acovardara-se, pois era cônego. Kepler descobriu a fraude e a denunciou, reabilitando o polonês.
A história da ciência é repleta de “histórias” fascinantes e trágicas. Giordano Bruno (1548-1600) é um caso exemplar: foi queimado na fogueira santa em 17 de fevereiro de 1600, por afir-mar, entre outras coisas, que poderia existir vida em outros planetas, fora do Sistema Solar. Foi um fim trágico para o século XV.
Nove anos após, Galileu Galilei (1564-1642) recebeu de presente de um de seus discípulos uma curiosidade ótica trazida da Holanda, que era usada pelos capitães de navios e pelo pessoal dos portos para verificar a chegada dos navios, desde o horizonte: a luneta.
Galileu, físico, médico, músico e astrônomo, aperfeiçoou o instrumento e apontou-o para o céu. O que viu, mudou a história da ciência. Descobriu que a mancha esbranquiçada que atraves-sa o céu (o Caminho de São Tiago ou Via-láctea) era, na realidade, uma enorme reunião de estre-las, descobriu que o planeta Júpiter tinha “pequenos mundos” girando à sua volta, descobriu as fases do planeta Vênus. Essas descobertas somente eram compatíveis com o sistema heliocêntri-co. Ele estava vendo que nem tudo girava em torno da Terra. Galileu enviou uma luneta de pre-sente para Kepler que, apesar de muito míope, deslumbrou-se com a descoberta dos “pequenos mundos” jovianos e imediatamente criou uma palavra para designá-los – satélites, que significa “guarda (“aspone”, parasita) de um prícipe”.
De acordo com os estudos físicos de Galileu, se ao abandonarmos um corpo em um plano inclinado, não existir atrito, o corpo se move para sempre. Essa comprovação é a lei da inércia que foi enunciado por Newton anos mais tarde. Kepler e Galileu são os “ombros dos gigantes” onde Isaac Newton (1642-1727) subiria para “enxergar até onde enxergou”, conforme admitiu em sua correspondência com Edmond Halley (1656-1742).
Newton nascido no dia de natal do ano de 1642 – ano em que faleceu Galileu, que, por sua vez nasceu no ano em que morria o escultor e pintor Michelangelo di Lodovico Buonarroti Si-moni (1475-1564) – contribui de forma extraordinária para a formação do conhecimento científi-co nos campos da Astronomia e da Física. A gravitação universal estava no ar desde que Kepler publicara suas três leis, particularmente a 3a Lei, Newton teve a visão de codificar as idéias para construir uma teoria cientificamente viável e capaz de explicar inúmeras questões que tiravam o sono dos astrônomos, menos uma: o avanço do periélio do planeta Mercúrio. Ao mesmo tempo em que os planetas orbitam o Sol, suas próprias órbitas também giram ao redor do Sol. A maior das rotações ocorre com a órbita de Mercúrio e não era possível entender o por que até que surge o século XX e Albert Einstein (1879-1955) nos explica.
A Teoria da Relatividade Geral, publicada em 1905 modifica drasticamente o conceito de gravidade, abandona a conotação newtoniana de “ação à distância” e introduz o conceito relati-vístico de geometrização do espaço.
É o inexorável caminho da ciência definido por Bertold Brecht (1898-1956), por meio da boca de Galileu na peça de mesmo nome: “eu afirmo que a única finalidade da ciência é a de diminuir a canseira da existência humana”.
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